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Sociedade
Arrogantes e arrogantes
DANIEL LIMA 04/04/2008
Há várias tipologias de arrogância. Vou tentar destrinchá-las, sem que pareça arrogante.
Brinco com os jovens dos 30, dos 40 anos, que eles praticam a arrogância do desconhecimento. Imaginam-se senhorios dos acontecimentos. Acham-se insuperáveis nos diagnósticos, nas decisões, nas consequências. Só vão dar conta do quanto são patéticos bem mais tarde, quando a experiência de vida moldá-los num jogo de sucessivas perdas e danos.
Com os já próximos ou passados dos 50, a arrogância é do conhecimento mas também pode ser a arrogância da ignorância de quem envelhece sem lustro sustentado pela capacidade intelectual ou pela dificuldade de embrenhar-se nos atalhos práticos da vida.
A arrogância do conhecimento tem algumas variáveis, pelo menos duas variáveis. A do simples prazer de se apresentar como sabe-tudo, desconsiderando os circunvizinhos, ou da defesa intransigente da sabedoria acumulada diante de interlocutores vazios de conteúdo.
É claro que é difícil identificar os dois públicos-alvo que diferenciam o arrogante com conhecimento porque nem tudo que parece de fato é. Mesmo assim, não é impossível distinguir um de outro. Basta conhecer, e conhecer bem, os interlocutores do arrogante com conhecimento. Esses interlocutores, de fato, dão a moldura para cada definição. Muitas vezes a arrogância do conhecimento é subproduto de interlocutores cabeçudos demais que também despejam toneladas arrogantes pelas ventas.
Costumo dizer que a pior maneira de envelhecer é envelhecer arrogantemente burro e teimoso.
É muito difícil encontrar um arrogante ignorante teimoso e que seja flexível.
O arrogante letrado oferece sempre a possibilidade de dobrar-se à argumentação inteligente, porque se não o fizer será a negação do próprio aprendizado.
Há arrogantes que não abrem mão de posicionamentos nem que a vaca tussa porque a arrogância é muito maior que a inteligência.
Não faltam também na praça arrogantes que procurem dissimular a própria arrogância atribuindo a terceiros a arrogância insuportável que ostentam.
São arrogantes reincidentes na arrogância ignorante. Primeiro, a ignorância do conhecimento geralmente mas nem sempre implícita nos arrogantes. Segundo, a arrogância de não saber decifrar os interlocutores, diferenciando os possíveis arrogantes daqueles que, espertos ou melhor preparados para domar o próprio ego, estão longe dessa definição.
O arrogante nas proximidades ou com mais de 50 anos vividos que não se dobra às evidências do contraponto do que defende e instrumentaliza é muito, mas muito pior do que o arrogante juvenil dos 30, ou o arrogante a caminho da maturidade, dos 40 anos. Esse arrogante das proximidades ou com mais de 50 anos é de mão única. Sem volta. Nenhuma evidência o fará retroceder um milímetro sequer do fundamentalismo erigido a cada dia de blindagem contra o ensinamento.
O ignorante arrogante é o pior de todos os arrogantes porque não deixa sabedoria alguma mesmo que ao preço de um estresse mais prolongado e sai de cena certo de que deu uma lição no interlocutor eventualmente ou não arrogante mas com senso do ridículo.
Os piores entre os arrogantes são os arrogantes endinheirados e empoleirados no poder. Seja arrogante sábio ou arrogante ignorante, a blindagem que os cerca com cifrões ou medalhões só é destruída pela própria democracia, em forma de voto, de apeamento do poder, no segundo caso, e de esgotamento vital, biologicamente imperdoável, no primeiro caso.
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