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Sociedade
Águas passadas
DANIEL LIMA 26/05/2009
Não passam de especulação sem conexão com a realidade as informações que dão conta de que este jornalista reassumiria a marca Livre Mercado. Para que não haja dúvida: aquela que já foi a melhor publicação regional do País e que não passa de uma revista regional como tantas outras não mais cruzará meu caminho profissional.
Trata-se provavelmente de uma guerrinha de nervos em que tentam me envolver, como se não estivesse já bastante ocupado no redirecionamento profissional estruturado com a vantagem de quem escapou de uma quadra infernal, cuja etapa final se deu em dezembro do ano passado.
Costumo dizer aos amigos mais chegados que, quando à frente de LivreMercado, ocupava-me 30 horas por dia de trabalho. Agora tenho tempo para viver um pouco a vida e curtir meus filhos. Descobri, enfim, que, com enorme atraso, atraso de 110 anos, e apesar da cor da pele sem qualquer relação com o pé na cozinha do Fernando Henrique Cardoso, acabei finalmente beneficiário da Lei Áurea.
Pouco me importa, também, como andam aqueles que usaram e abusaram de meu nome para se locupletarem. Exceto alguns que foram além da conta.
Literalmente, Livre Mercado (assim mesmo, separadamente) ou LivreMercado (assim, como nos meus tempos) é página virada.
Desde janeiro deste ano, quando tratei da última edição, completando praticamente 19 anos de atividades, não tenho e não pretendo ter mais nada com a publicação. Sei que o editor já foi para o espaço, mal chegou à terceira edição da “nova” revista. E sei também que os colaboradores que deixei para Walter Santos, o dono da revista e da Best Work Consultoria Empresarial, também já bateram asas.
Provavelmente esse recuperador de impostos de competência tenha semelhante adestramento para escolher os profissionais que mais se adaptem a seus conhecimentos editoriais.
Não se apressem os leitores em tirar conclusões. Minha história profissional se confundirá eternamente com LivreMercado e não com Livre Mercado, por isso mesmo não estou a cuspir no prato que me alimentou.
Por isso, que, mesmo cedendo a marca, mantive sob controle legal o valioso acervo editorial construído com intensa dedicação por uma equipe de jornalistas que aprenderam a escrever para revista juntamente com este profissional.
Sim, todos que passaram alguma temporada na revista LivreMercado reorganizaram a forma e o conteúdo da escrita. LivreMercado dos 19 anos já mencionados não se transformou de fato numa revista apenas no formato, como tantas outras, mas no conteúdo editorial.
E por conteúdo editorial entendam jornalismo comprometido com a sociedade em que está inserido; portanto, diferentemente do que a maioria pratica — jornalismo de enxurradas de fotos, de legendas e de um sarapatel de artigos assinados por gente que não é do ramo jornalístico, embora seja quase sempre especialista em alguma coisa.
Os jornalistas de Livre Mercado — inclusive este profissional — metabolizaram o jornalismo praticado em outros endereços. Em muitos casos, aprenderam a fazer jornalismo num contexto mais moderno, de interpretação, de análise, de investigação, de aprofundamento de cada pauta.
Fizemos nesse período um produto que foi muito além de informar. Optamos preferencialmente pela qualidade e pela reflexão, sobretudo nas grandes e históricas matérias. Bastaria a imagem das mais de 200 Reportagens de Capa publicadas no período para que os leitores tivessem a memória reavivada quanto à agudeza daquele produto editorial.
Saí de LivreMercado tão aliviado que, ainda outro dia, respondendo a uma leitora que relacionou a ruptura à perda de um filho, não resisti a gargalhadas: o que vivi no último ano de LivreMercado foi uma situação sistemicamente pavorosa. Resultou de processo que não desejo para o pior inimigo. Na realidade, a cessão da marca foi espécie de exorcismo que me fez revigorar a alma, o espírito, a matéria.
Por isso mesmo minhas melhores lembranças de LivreMercado estão impressas nos computadores. São os textos das duas décadas. Uma montanha de competências que estou recuperando para inserir no site de CapitalSocial.
A cessão da marca LivreMercado para a Best Work Consultoria Empresarial consagra uma vitoriosa empreitada editorial porque Walter Santos — assim como os novos proprietários da Varig — não quis saber da porção podre da Editora Livre Mercado, as áreas comercial e de administração. Como a família Constantino, optou apenas pela parte boa.
Livre Mercado (separadamente) ou LivreMercado (interligada) não consta mais do meu vocabulário profissional. Por isso, qualquer informação que relacione a publicação a este jornalista está completamente fora do esquadro.
Que Livre Mercado siga seu caminho, que busque novas vocações.
Me incluam fora dessa, por gentileza.
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