Sociedade
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Cidadania regional é artigo
cada vez mais raro. Teste!

  DANIEL LIMA - 12/03/2019

Quinze anos depois de publicar na revista LivreMercado o que chamei de Teste de Cidadania Regional, eis que volto para fazer enfática constatação: se já naqueles tempos íamos de mal a pior no preenchimento de boa parte das 17 questões formuladas, imaginem hoje quando está mais que comprovado, está sacramentado: se o municipalismo já foi à bancarrota, o que esperar então de algo mais sinérgico, complementar, responsável. As enchentes calamitosas que estão aí a fazer vítimas são uma parte do enredo do vazio regional, que começa no vazio municipal.  

Nesta data vou restringir a reprodução dos 17 enunciados; portanto sem o acompanhamento explicativo de cada um para facilitar a vida dos leitores no preenchimento do desafio em forma de teste. Vou reproduzir apenas os pontos centrais daquela proposta editorial. Deixo para outra data a explicação para cada um dos quesitos que deverão ser avaliados pelos leitores. 

Como na matéria de uma década e meia atrás, não mudo a pontuação que mede o tamanho da cidadania regional dos leitores. Cada questão apresentada vale 10 pontos. Quem alcançar o máximo possível (o que duvido) deve ser reverenciado como suprassumo de cidadão regional. 

Já quem alcançar entre 140 e 160 pontos merece aplausos, porque chegou à beira da perfeição. Já entre 100 e 130 pontos, está claro que se pavimenta uma estrada de compromissos regionais. Entre 50 e 90 pontos o que temos são frequentadores da região que praticamente não dão bola para a região. 

Já quem nem chega aos 50 pontos não passam de embustes. Se usassem plaquetas monitoradas eletronicamente para identificar o baixo interesse por essas terras e se essas plaquetas contassem com sistema de alarme a cada questão que se apresentasse a eles como prova de fogo, teríamos barulheira infernal. 

Espero que o leitor tenha coragem de se meter nesse mato de compromisso regional adentro para testar até que ponto eventual desafio de que pertence mesmo ao Grande ABC, não simplesmente mora ou trabalha no Grande ABC, não lhe causaria constrangimento. 

Quando produzi o texto para a revista LivreMercado, naquele fevereiro de 2004, minha visão mesmo que fortemente crítica indicava que teríamos um número bastante razoável de cidadania regional. Tinha certo entusiasmo em projetar a possibilidade de, atuando como monitores, esse grupo catequisaria tanta gente disposta a cerrar fileiras por novos tempos. Hoje, passados tantos carnavais, os enunciados que reproduzo na sequência não indicam que temos mais que uma meia dúzia, se tanto, de gente interessada em defender questões que digam respeito ao conjunto dos municípios. 

O que temos na praça mesmo são muitas falsas lideranças que, exatamente por serem falsas lideranças, não conseguem amalgamar parceiros para uma retomada do debate regional, exceto em condições muito especiais, sobretudo corporativistas. Tudo isso não surpreende. Onde falta pão todo mundo briga e ninguém tem razão. A degringolada econômica do Grande ABC, contundente no começo do século, tornou-se mais grave ainda. A fuga de cérebros, de gente que mora na região, mas trabalha principalmente na Capital, esvazia o PIB Intelectual por si só bastante deficiente desse que é um insumo de gigantesco e intrínseco poder de transformação. 

Vou mais longe à falta de cidadania. Se o mesmo teste, com as adaptações necessárias, contasse como endereçamento territorial mais restritivo, ou seja, se fosse municipal ao invés de regional, os resultados seriam praticamente os mesmos; ou seja, decepcionantes. A Cidadania Regional está comprometida no ventre da Cidadania Municipal, porque a carência da segunda inevitavelmente reflete a escassez da primeira e a primeira fragilizada também inevitavelmente, drena a segunda.  

Voltamos, portanto, ao Teste de Cidadania Regional. Pense bem antes de responder e responda com certeza absoluta de que vai sinalizar de forma positiva ou negativa seguindo uma regra básica de algo que cada um de nós deve preservar: a franqueza e a sinceridade de quem não tem vocação ao autoengano. Ao teste, portanto: 

01 -- Participa efetivamente como dirigente, voluntário ou contribuinte de pelo menos uma entidade assistencial. 

02 -- Participa sistematicamente como consumidor de informações de espaços reservados a leitores e colaboradores de publicações locais. 

03 -- Veste a camisa de um dos times profissionais da região e comparece a pelo menos 50% dos jogos em casa. 

04 -- Frequenta estabelecimentos comerciais, de entretenimento e de serviços instalados na região sempre que há igualdade na relação custo-benefício comparada com a Capital. 

05 -- Interessa-se para valer pelas questões macrorregionais, inclusive como interlocutor de ações. 

06 -- Vota preferencialmente nos candidatos da região depois de rigoroso estudo de propostas e também de desempenho histórico dos concorrentes, separando fatos de idiossincrasias que, como se sabe, são férteis na atividade política. 

07 -- Mobiliza parceiros contra representantes de organizações sociais, econômicas, políticas ou culturais que não desempenham funções a contento. 

08 -- Exerce posição flexivelmente crítica em relação ao poder público, atribuindo ao governante valor de desempenho fundamentado no conceito de contribuinte, sem contaminação partidária. 

09 -- Identifica sem maiores complicações agentes que efetivamente vestem a camisa da regionalidade e aqueles que usam dissimuladamente os pressupostos de integração regional para voos exclusivamente pessoais. 

10 -- Interessa-se efetivamente por programas públicos desenvolvidos em municípios e regiões distintas do Grande ABC como referência estratégica para aplicação local. 

11 -- Acompanha atentamente o desempenho do vereador, do deputado estadual, do deputado federal, do senador e do presidente da República que receberam seu voto de forma suficiente para, nas eleições seguintes, repetir ou não a escolha. 

12 -- Procura atividade comunitária interclasses, deixando de lado o isolamento de quem simplesmente não exerce qualquer função corporativa ou, em exercendo, torna-a exclusivista. 

13 -- Orienta os jovens sobre a importância dos valores locais num mundo que dissolve culturas ao sabor da globalização. 

14 -- Nem resvala para o triunfalismo propagandístico de quem acha que é possível melhorar o cenário através de prestidigitação verbal nem descamba para uma ofensiva derrotista incapaz de oferecer o contraponto de propostas viáveis. 

15 -- Coloca interesses próprios subordinados ao conjunto de ações efetivas para dar nova dimensão à integração regional. 

16 -- Procura identificar, acompanhar e analisar o desempenho dos principais agentes públicos e privados da região, independentemente de qualquer interesse eleitoral. 

17 -- Volta-se persistentemente ao temário regional de desenvolvimento econômico sustentável, matriz de enraizamento das medidas de geração de riqueza e redução da exclusão social.

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