Regionalidade
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Quem sabe Covid-19 reduza
a Covid-7 do Grande ABC?

  DANIEL LIMA - 01/04/2020

Calma, calma, que vou explicar. Nada de acendimento de fogueira. Não tenho vocação para Joana D’arc. Vou ser reto e direto, depois entro em detalhes. Covid-7 é um velho Coronavírus social que há décadas impacta o Grande ABC sem que praticamente ninguém consiga extrair a fórmula mágica disponível desde sempre. Diferentemente da Covid-19, do novo Coronavírus, que faz estragos epidemiológicos, políticos, financeiros e sociais por tempo que será limitado, a Covid-7 (uma alusão aos sete municípios da região) precisa de ajuntamento, não de isolamento social.

A Covid-7 é uma enfermidade maldita que começou mesmo lá atrás, quando se iniciou a divisão do território único do Grande ABC em sete partes desiguais em tudo, mas igual no municipalista com valores respeitáveis, mas de conteúdo sempre abaixo das potencialidades do regionalismo.

O nosso Coronavírus é menos letal no curto prazo que o novo Coronavírus, mas faz estragos há tanto tempo que qualquer tentativa de vinculá-lo a níveis de inconformidades sociais, inclusive a mortes, não será pura especulação. O velho Coronavírus regional não deixa marcas evidenciadas por causa das desigualdades sociais e empresariais, resultado da anomia institucional, mas as industrializa aos borbotões.

Um velho Coronavírus

Fico a perguntar se a Covid-19 será suficiente para infectar o Grande ABC a ponto de desbaratar a Covid-7.  São doenças diferentes. A nossa é muito mais fácil de resolver, mas provavelmente dependerá de perdas e dos danos da Covid-19. 

O isolamento administrativo, político, social e econômico do Grande ABC, prática que só beneficia os bandidos sociais, precisa ser combatido com rigor. A integração regional faria diferença enorme agora que a Covid-19 adentra portas e janelas. Ou alguém tem dúvidas de que ações coletivas entre prefeitos, com ganhos de racionalidade e sinergia, tornariam o território regional menos suscetível à Covid-19. Abaixo, portanto, a Covid-7.

Tenho alguma esperança (não muita, porque conheço o gado regional) de que poderemos dar alguns passos importantes no campo institucional durante e sobretudo após a tempestade da Covid-19.

Costumo dizer que prefiro errar por acreditar a acertar praticando o ceticismo. Aí vem alguém para contestar, aludindo que sou cético por natureza. Nada disso. Sou cético por vivência. E só atinjo esse estágio quando, depois de muito apanhar, não vejo outra saída senão o descrédito.

Ou seja: é preciso flexibilizar a definição de comportamento pessoal ou profissional de terceiros. Meu ceticismo não é resultado de quem passou a vida inteira fora dos limites territoriais do Grande ABC. Exatamente o inverso. Acumulei tantas milhas de conhecimento prático e teórico que posso viver fugidio (fugidio?) a 130 quilômetros de São Bernardo.

G-20 muda com crise

Quem me levou a embalar um sopro de esperança sobre o futuro da regionalidade de baixíssima eficiência no Grande ABC foi o escritor venezuelano e membro do Carnegie Endovment, Moisés Naím, colunista do Estadão. Veja alguns trechos do que escreveu ontem sobre a Covid-19 e seus efeitos multilaterais. É claro que Naím não conhece a Covid-7. Leiam: 

 A atuação local, no nível mais individual possível, faz tanta falta quanto a atuação global no nível mais multilateral possível. Isso é possível, e o mundo já o fez antes. Na grave crise econômica mundial de 2007 a 2009, foi reativado o G-20, uma organização formada em 1999 por duas dezenas de países, que até então tinha sido irrelevante. Os chefes de governo dos países integrantes se revezam na liderança do G-20 e, durante a crise financeira, coube ao então primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, atuar como líder do G-20. Brown e outros de seus colegas decidiram converter o G-20 no centro de coordenação econômica do mundo. Ainda que erros tenham sido cometidos nas respostas à grande recessão, também é verdade que o G-20 reativado e ativista contribuiu para que o estrago do imenso crash de 2007 e 2009 não fosse ainda pior.

Clube dos Prefeitos 

É claro que o leitor já engatou uma segunda marcha ao correlacionar o G-20 ao G-7, o Clube dos Prefeitos. Se não o fez perdeu a oportunidade de engatar a terceira marcha, mas vou ajudar nesse sentido para dizer que é imperativo que o Grande ABC saia do casulo do isolamento institucional que demarca a infeção pela Covid-7.

Por essas e outras os resultados individuais que os prefeitos locais deverão propagar como combatentes à mitigação do novo Coronavírus não deveriam ser incensados pela mídia. O destaque crítico deveria estar centralizado nos buracos e nas improdutividades de medidas de cunho municipal cuja extensão aos demais vizinhos poderia significar menos custo aos respectivos cofres públicos.

Voltando à questão do ceticismo, é oportuna (e nada coincidente, porque a escolhi) a análise que publicamos um pouco antes nesta publicação, que dá conta do Grande ABC que fervilhava de otimismo e de entusiasmo naquele começo de 1997, quando as instituições pareciam estar unidas contra a Covid-7.

Otimismo fracassado

A reportagem que assinei para a revista LivreMercado faz parte dos 30ANOS do melhor jornalismo regional do País. E confirma mantra que sempre puxo da bainha da advertência àqueles que, ignorantes, desconhecem a história de quem não tem rabo preso com ninguém. Que mantra? A de que tanto LivreMercado quanto CapitalSocial cometeram os maiores erros editoriais quando caíram na gandaia de acreditar no futuro de uma regionalidade que jamais se configurou para valer.

Muito mais LivreMercado sofreu desse mal. A experiência de frustrações é uma advertência à instalação da cautela no topo de avaliações que chegam à sociedade em forma de análise.

Não cansarei de abordar questões múltiplas que envolvem a regionalidade do Grande ABC. Nosso arquivo conta hoje com 1.036 matérias que tratam direta ou indiretamente de aspectos centralmente regionais. Explico: praticamente todo o acervo de LivreMercado e de CapitalSocial trata de questões regionais, mas o verbete regionalidade está especificamente presente em 1.036. Como esta, por exemplo.

Somente agora, inspirado pelo medo da Covid-19, encontrei um vírus semelhante que destrói as estruturas do Grande ABC. A Covid-7 precisa ser combatida. Precisamos de ajuntamento de gente competente, comprometida, saudavelmente ética.

O Fórum da Cidadania, lançado em 1994 e do qual participei inicialmente como penetra, foi uma nuvem passageira, um antídoto que parecia programado para combater o vírus do individualismo do G-7.  Não durou muito por razões variadas, mas, sobretudo porque não chegou às bases sociais. Algo que a Covid-19 o faz com poder destruidor.

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