Regionalidade
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Quanto pesa ser um bom
prefeito apenas municipal?

  DANIEL LIMA - 19/07/2018

Pesa muito pouco, mas muito pouco mesmo, na historiografia regional, ser prefeito municipal. Um bom prefeito apenas prefeito municipal não quer dizer muita coisa diante das obrigações extraterritoriais de ser prefeito. Ser um bom prefeito entre prefeitos é outra história. Aí, pesa muito. Mas muito mesmo. Um bom prefeito regional significa que o prefeito integrante do Clube dos Prefeitos colaborou ativamente para soluções ou encaminhamento de soluções de que precisamos. 

Um bom prefeito apenas prefeito municipal, ou seja, fora da órbita da regionalidade, passará para a história como um prefeito qualquer. Como a quase totalidade eleita ao longo de décadas. Não há cidadão municipal na região. Todos são de alguma forma cidadãos regionais. Vivem na região entrelaçada. As divisas são ilusões de ótica para o motorista, para o estudante, para o eleitor, para o leitor, para o consumidor, para todos. 

É por ter sido prefeito regional que Celso Daniel se destacou isoladamente ao longo dos tempos. Quando o perdemos, perdemos quase tudo em regionalidade. Seus seguidores no ambiente público dispersaram-se. Sobraram alguns falsos pregadores e outros esforçados apenas. No conjunto da sociedade, os regionalistas seguem isolados. 

Encantamento demais 

Quando leio manchetes entusiasticamente favoráveis às atuais administrações – notadamente de Santo André e de São Bernardo, tucanos mais que queridos da mídia regional, como foram os petistas até que a Lava Jato fez estrago de lascar – fico a meditar sobre o quanto devo levar em conta informações nem sempre transparentes. 

Qual é a importância de cada uma ao conjunto da obra regional. Até que ponto vai fazer alguma diferença no presente e, principalmente, no futuro? 

Querem um exemplo? Nesta semana o Diário do Grande ABC e o Repórter Diário abriram espaços generosos aos recursos financeiros (uma parte substancial emprestada por organismo internacional, o Banco Mundial) que serão aplicados na Avenida dos Estados, em Santo André, mais especificamente no Viaduto Antônio Adib Chamas e Viaduto Castelo Branco, além de um corredor de ônibus no Centro, bem como a criação de um plano de mobilidade. 

Esse tipo de notícia não me provoca emoção. É algo como torcer sem compromisso numa final de Mundial entre Croácia e França. Uma torcida que só ganhou algum sentido e que me levou a torcer um pouco para os croatas por conta dos dois primeiros gols franceses, verdadeiros assaltos desconsiderados por boa parte da crônica esportiva nacional. Fosse o Brasil vítima da arbitragem, a choradeira não teria fim. Como injeção em bumbum alheio não dói, tivemos cronistas mais realistas que o rei. Mas eles se desmoralizam porque em situações semelhantes já prescreveram diagnósticos totalmente antagônicos. 

Isolamento municipalista 

Voltando à Administração Paulinho Serra e ao Banco Mundial, os valores programados têm repercussão midiática muito maior que a importância final ao ecossistema urbano de Santo André e, também, da região. Há tantos vetores a influenciar a fluidez do trânsito em saúde e economia que a simplificação de resoluções por conta de obras como as anunciadas chega a ser um disparate. 

Baba-ovos que trataram o prefeito Paulinho Serra, nesse caso, com o encantamento dos ingênuos, deveriam fazer uma lista de prioridades em mobilidade urbana para readequar a importância do investimento que vai custar perto de R$ 200 milhões aos cofres públicos ao longo de anos. 

O tratamento isolado de Santo André na equação de logística interna de uma região sem competitividade na área já seria a prova provada de voluntarismo. Quando se coloca Santo André no tabuleiro da logística regional, tudo fica ainda mais deslocado do eixo resolutivo que se dá ao investimento. O nó logístico de Santo André, que não se restringe às áreas que serão atendidas, é muito maior. E contamina o restante do território municipal e regional.

Para especialistas 

Fossem viadutos e corredores de ônibus seletivamente escolhidos solução para a mobilidade urbana de Santo André, a Capital do Estado há muito estaria festejando espetacular salto de qualificação. Querem mais obras assemelhadas do que na pujante e escandalosamente vagorosa vizinha? 

É bobagem acreditar que o dinheiro do Banco Mundial somado ao dinheiro da Prefeitura de Santo André (cujos valores cairão no colo dos próximos prefeitos, dado o prazo de carência) vai instalar o debilitadíssimo viveiro industrial na rota de investimentos privados. Não há futuro algum em qualquer projeto de mobilidade urbana, de medição de força por melhores condições de produtividade em serviços, comércio e indústria, se não houver planejamento muito bem estruturado, de especialistas no ramo. 

Ocupação de solo 

Um viaduto aqui, outro viaduto complementado ali, um corredor de ônibus acolá, nada disso pesará na balança de resolutividade urbana. De que adiantará tudo isso, por exemplo, se os mercadores imobiliários continuarem a frequentar corredores do Paço Municipal e intervierem em legislações que concedem mais e mais facilidades, aumentando sem dó e piedade coeficientes de uso e ocupação do solo? 

É uma pena que não se tenha disponível tanto em Santo André como em São Bernardo e São Caetano (os maiores mercados de imóveis da região) e também para Diadema (que entrou na rota de especulação por estar colada à Capital) documentação aerofotográfica dos principais corredores urbanos por volta de 2011 e nestes tempos pós-especulação imobiliária intensa. 

Os espigões que saltaram sem regras, ludibriando legislação e autoridades públicas que deveriam zelar pela mobilidade urbana, neutralizariam qualquer iniciativa como a anunciada pelo prefeito Paulinho Serra. Como neutralizarão num futuro próximo, considerando-se as obras concretizadas. Basta nova fase de verticalização imobiliária industrializadora de financiamentos eleitorais espúrios. 

Mais transparência 

Fosse a Administração Paulinho Serra competente na arte de se comunicar com a sociedade, os investimentos anunciados com suporte do Banco Mundial não ficariam restritos à divulgação sumária e auto bajuladora nos jornais.  Tanto auto bajuladora que (se entendi uma declaração do prefeito, embora dúbia) Paulinho Serra chegou ao exagero de afirmar que, com os investimentos, Santo André se equivaleria à suposta competitividade proporcionada pela Via Anchieta e a Rodovia dos Imigrantes. Uma barbaridade!

Não houvesse o que chamaria de enorme ponto de interrogação a permear a utilidade prática, mesmo que doméstica, das obras, o tucano chamaria os técnicos que supostamente fundamentaram os projetos entregues ao Banco Mundial e os colocaria em contato com convidados da sociedade, inclusive jornalistas, para que questionamentos fossem ferramenta a esclarecimentos. Será que a montanha de dinheiros que vão lastrear as obras terá correspondente efetividade produtiva? 

Não exagero um tiquinho quando afirmo que o conjunto da sociedade regional desta segunda década do século XXI está muito aquém dos formadores de opinião e dos tomadores de decisões das duas últimas décadas do século passado. 

Descarto nessa contabilidade o prefeito Celso Daniel, que tornaria tudo ainda mais desequilibrado. Tirem Celso Daniel da média geral dos prefeitos anteriores do século passado e mesmo assim a média será superior, bastante superior, aos prefeitos deste século. Não que aqueles tenham sido fenomenais; são estes, na média, que mal ultrapassam os limites da mediocridade. 

Por essas e outras situações atuais (o prefeito Paulinho Serra é apenas uma das sete peças que se movem de forma autárquica, sem compromisso com o bicho de sete cabeças regional) se chega à linha de fundo da sensatez quando afirmo que, pelo andar da carruagem, nenhum dos prefeitos municipais da safra atual ficará para a posteridade como exemplo de prefeitos regionais. Jamais serão prefeitos de respeito fora dos limites dos próprios territórios, independentemente do que venham a ser entre os seus. 

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