Regionalidade
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Bancada do ABC é anedota que
se repete a cada quatro anos

  DANIEL LIMA - 18/03/2019

Salvo engano, apenas o Diário do Grande ABC, entre as mídias do Grande ABC, insiste em chamar de Bancada do ABC a tropa de deputados estaduais que assume postos na Assembleia Legislativa a cada quatro anos. E se o equívoco se consolidar, na medida em que nada se materializará de associativismo dos eleitos em defesa da região (ou muito pouco, que não pode ser catalogado como sinônimo de regionalidade), a publicação acabará cedendo à realidade, lamentando o uso da expressão. Mas como a memória do jornal é curta, bastará um movimento maroto e enganador da “bancada” para que, de novo, a alce ao Olimpo. 

A inexistência da Bancada do ABC ou da Bancada do Grande ABC, como quiserem, é tão límpida e clara quanto a completa ausência de regionalidade. Somos uma ficção de integração dos sete municípios, mesmo quando Celso Daniel era vivo e pretendia mudar a história.

Fossem minimamente respeitosos com a expressão Bancada do ABC, os deputados que acabaram de assumir os mandatos porque tiveram base eleitoral na região teriam se juntado antes da formalidade da cerimônia de posse e delineado algumas linhas de ações em forma de termo de compromissos. 

Mas os próprios deputados eleitos confessam à reportagem do Diário do Grande ABC que não tiveram uma reunião sequer desde que eleitos. E se tivessem, pouco significaria. As durezas e as molezas dos prélios individuais e partidários nos próximos anos os afastarão. 

Dourando a pílula 

Uma ou outra iniciativa para dourar a pílula da enganação geral será fomentada entre alguns dos deputados eleitos pela região. Alguma coisa vai aparecer no radar de marketing que os colocaria em sintonia fina. Mas tudo não passará de embromação. O dia a dia em busca de voto (é disso que cada um vai tratar de agora em diante, para se manterem na Assembleia Legislativa) os afastará compulsoriamente. 

Não vou particularizar algumas iniciativas já tomadas pelos deputados estaduais, antes mesmo de tomarem posse. Há um aparato que pretende antecipar ações que já constam das perspectivas de carreira de cada um. Todos sonham um dia chegar ao comando do Paço Municipal a que estão atrelados ou não politicamente. Nada que fazem fogem a essa projeção. 

Sempre recorro ao passado de jornalista que conhece muito bem as peças do tabuleiro da baiana desastrada da região para consolidar prognósticos que, de fato, são diagnósticos em quinta dimensão. 

Base robustecida

A base de leitores desta publicação e deste jornalista sempre se renova ou se robustece nestes tempos de tecnologia digital que invade bolsos e bolsas de consumidores de informação. 

Por isso recorro a análises do passado para melhor compreensão do presente. E também para os leitores antigos sem memória e os novos sem conhecimento entendam que não está aqui um escriba malvado, destruidor de reputações individuais e coletivas. 

Distante disso: está aqui um maluco beleza que sabe muito bem quanto custa enfrentar as feras de procrastinadores, enganadores, ufanistas e tantos outros pecadores capitais quando se lida com a credulidade da sociedade.

Fiz esse parêntesis porque decidi recorrer a um texto que publiquei na revista LivreMercado de agosto de 2007 sob o título ”Clube, não bancada”. Fazia referências tanto ao Consórcio de Prefeitos quanto à suposta Bancada do ABC. Leiam alguns parágrafos para entenderem aonde pretendo chegar: 

 Quando decidi repassar aos leitores da revista LivreMercado identidade mais palatável e didática do Consórcio Intermunicipal de Prefeitos, imprimindo a marca “Clube dos Prefeitos” na Reportagem de Capa de julho, acabei por invadir um campo que se apresenta bastante fértil em retórica explicativa e objetiva. Sim, porque ao Clube dos Prefeitos adicionei o Clube dos Deputados, que vem a ser os parlamentares que supostamente representam a região tanto na Assembleia Legislativa quanto na Câmara Federal.

Por que acho que Clube dos Prefeitos e Clube dos Deputados são marcas mais interessantes e, do ponto de vista jornalístico, muito mais recomendáveis? (...) Clube dos Deputados porque se contrapõe com mais clareza e sensibilidade instigante à alternativa lançada já faz tempo, chamada de Bancada do Grande ABC. Até porque, como se sabe, Bancada do Grande ABC não passa de projeção por demais otimista, para não dizer ufanista, de sugerir que, embora divididos e subdivididos em várias instâncias partidárias, os parlamentares da região algum dia formariam de fato base de operação conjunta. Bancada do Grande ABC transpira engodo ao destilar algo que de fato não existe. É um jogo de palavras que anestesia o senso crítico e torna válido um movimento de valorização da regionalidade que jamais se integrou de fato.

Dissecando clubismo

Notaram os leitores que naquele texto de 2007 minha preocupação foi explicar em detalhes o conceito de cada clube em questão? 

Mal poderia imaginar que um dia um juiz de Direito, despreparado para entender o trabalho jornalístico, me condenaria à prisão, entre outras questões exclusivamente de comunicação, de liberdade de expressão com responsabilidade social, porque utilizei a expressão “Clube dos Construtores do Grande ABC”, referindo-me, como me referi, àquela entidade sediada em São Bernardo e que por 25 anos foi congelada pelo presidente de então Milton Bigucci.  

Mas, voltando ao que alguns chamariam de azedume em relação ao Clube dos Deputados quando de fato o que temos é a exumação de um fracasso coletivo que se repetiu a cada quatro anos, procurei, em seguida, naquele texto de 12 anos já completou, esmiuçar as expressões utilizadas. Leiam:

 (...) Clube dos Deputados não pressupõe que exista entre os parlamentares e a sociedade regional relacionamento estreito, tanto quanto não existe entre o Clube dos Prefeitos e essa mesma sociedade regional. Clube dos Deputados é um agrupamento de origem geográfico-domiciliar-eleitoral dos chamados representantes do Grande ABC na esfera legislativa. Goste-se ou não, admita-se ou não, eles estão umbilicalmente compromissados com a vida social, econômica e política da região. Podem até um e outro estar equidistantes do balanço deste navio de complicações ditadas pela globalização ensandecida, mas de alguma forma, mais cedo ou mais tarde, principalmente quando as águas das eleições lhes batem nas nádegas da sobrevivência política, eles se perfilam individualmente em defesa das respectivas cores dos municípios que mais lhes dão sufrágios. Como essa participação é intermitente na melhor das hipóteses, nada mais correto do que introduzi-los no Clube dos Deputados, em vez de lhe entregarem de bandeja a sustentação marquetológica de Bancada do Grande ABC.

Falta comprometimento

Para não repetir neste texto, mesmo com alguma criatividade e formulação diferenciada de explicação, de que se trata o Clube dos Deputados, ao invés de Bancada do Grande ABC, sigo com aquele texto de 2007 da revista LivreMercado:

 Clube dos Deputados pressupõe grupo de parlamentares com objetivos eventualmente em comum, mas sem representatividade efetiva do Grande ABC, exceto quando de fato apresentar resultados concretos, coletivamente ou não. Bancada do Grande ABC pressupõe grupo de parlamentares com total delegação e interação com o Grande ABC, espécie de conquista de um título sem disputar nenhum jogo. Clube dos Deputados é um campeonato de acesso à Bancada do Grande ABC, assim como Clube dos Prefeitos é um campeonato de acesso ao Consórcio Intermunicipal – escrevi.

Feitos esses esclarecimentos, contextualizando-os à nova-velha formação do Clube de Deputados do Grande ABC, o que lamento é o buraco negro que os distancia da sociedade. Fossem previdentes e fosse a sociedade mais participativa, das duas uma: ou eles não teriam sido eleitos ou se eleitos fossem carregariam a obrigatoriedade tácita de seguirem à risca uma cartilha rígida de demandas urgentes para sensibilizar o governo estadual. 

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