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Ombudsman não autorizado
mais abrangente? É possível

  DANIEL LIMA - 15/03/2019

Aviso aos saudosos ou aos detratores do ombudsman não autorizado que me tornei em várias jornadas: não tenho tempo, disposição, paciência e tudo o mais para retomar o passado e, novamente, me converter, por vontade própria e juízo de menos, ombudsman não-autorizado dos veículos de comunicação da região, especialmente o Diário do Grande ABC. Mas se um dia me der na cabeça de voltar por algum período a situar os leitores sobre o que se passa com os jornais impressos (e eventualmente com algumas revistas e alguns sites), iria abranger de forma sistemática a Folha de S. Paulo e o Estadão. 

O Diário do Grande ABC já foi uma excelente fonte de análises. Tanto que, além de atuar como ombudsman não autorizado durante bom tempo, em seguida virei ombudsman oficial público. 

Não sei o que diretores e acionistas tinham na cabeça quando me chamaram à função. Sabiam que não iria tergiversar. Hoje o Diário do Grande ABC não tem matéria-prima em densidade suficiente para ser submetido a avaliação por especialista. Seria chover no molhado, como, aliás, já o fora antes, embora em condições mais férteis. 

A missão do ouvidor perde toda a graça quando as mesmas correções técnicas ou conceituações se repetem. O Diário do Grande ABC é um terreno estéril. Nada que surpreenda. Sustentar um veículo impresso diário na região é um milagre.  A Província não comporta um produto com essa periodicidade nem mesmo acrescido de qualidade editorial. O Diário do Grande ABC se sustenta no fio da navalha. Não há retorno para um bom produto. Muito menos para um produto como se lê diariamente. 

Revista também inviável 

Para não dizer que estou falando de terceiros, a revista LivreMercado, que dirigi editorialmente durante quase duas décadas completas, não teria resistido mais tempo do que resistiu nem se a área de publicidade contasse com o grau de profissionalismo da Redação nem se o sócio majoritário, Diário do Grande ABC, a apoiasse para valer, algo que jamais ocorreu. O tempo de sobrevida da revista, descontinuada sem cair na esparrela do sucateamento ético, já se esgotara naquele dezembro de 2008.

A existência mesmo que esporádica do ombudsman não autorizado que sou quando quero se deve ao fato de que a maioria dos leitores, por mais astutos que sejam alguns, não sabe ler a mídia tradicional e seus desdobramentos em outras plataformas. Mal percebem os leitores os jogos jogados com interesses distantes de qualquer ética republicana. Basta citar o quanto a mídia em geral é omissa, quando não protetora, no tratamento do mercado imobiliário. 

A sociedade paga muito caro à sanha de bandidos sociais dessa atividade. Eles mentem, vendem ilusões e agora não vão ter mais risco, porque a bomba de efeito retardado de rompimentos de contratos passou para o colo e o bolso dos marinheiros de primeira viagem, ou seja, os adquirentes de imóveis. 

Bárbaros diplomados 

A invasão de bárbaros especialistas de outras áreas, sobretudo de Humanas, como articulistas de publicações impressas e digitais revela que o jornalismo, em várias situações, foi entregue a militantes político-ideológicos. 

Essa turma da pesada que joga o jogo sempre tendo um único lado a criticar, e que se omite ante escândalos do outro lado, ganhou espaços nobres para destilar caudal de suposta e inquestionável sapiência em nome de cada organização jornalística. Esses militantes indisfarçados retroalimentam editoriais (opiniões oficiais da casa) como se contassem com o respaldo da sociedade. Douram a pílula da falsa pluralidade. Não passariam, jornalistas fossem, por qualquer programa de seleção de pessoal que considerasse a sociedade como bem sagrado. 

Poderia produzir uma edição pontual de uma nova versão, de versão explicativa, do ombudsman não autorizado em que me converteria. Situaria os leitores nesse emaranhado de interesses geralmente amoitados a olhos e mentes despreparados. Deixo para outro dia. Mas não refugo um avanço no que até neste ponto do texto poderia parecer teórico demais.

Folha é exemplo claro 

Vou me dirigir especialmente à Folha de S. Paulo, uma de minhas leituras diárias juntamente com Estadão, Valor Econômico e Diário do Grande ABC. Leio também todas as revistas semanais. Sites não escapam da lista. Livros ficam para cada fim de semana. 

Outro dia a ombudsman da Folha de S. Paulo fez um diagnóstico do jornal. Chapa branca integral. A Folha de S. Paulo conta com ombudsman de características semelhantes a ombudsman ou ouvidores em geral que as administrações públicas inventaram para fingir que são democráticas no trato da informação pública, dos serviços públicos. 

A seleção de especialistas não jornalistas da Folha de S. Paulo se divide em várias frentes. Vai de política à economia, passando por sociedade, costumes, variedades e tudo o mais. A quase totalidade da área política tem o mesmo viés ideológico. Traduzindo: os leitores que não comungam com os insumos desistem de renovar assinaturas ou insistem porque têm algum motivo especial. 

No meu caso, jornalista que sou, leio tudo. Só poderei chegar à conclusão que Reinaldo Azevedo é uma besta quadrada ilustrada porque o leio sistematicamente. Vladimir Safatle é um fóssil anarquista. Delfim Netto dá um show de bola a cada intervenção. Marcos Lisboa é craque comedido. Juca Kifouri é excelente como cronista esportivo, mas se perde quando o socialismo o incorpora e o coloca em contradições éticas.  

A terceirização parcial das redações, povoada por especialistas não jornalistas em sincronia com o esvaziamento das mesmas redações de jornalistas de verdade, é desenlace natural da situação econômico-financeira das publicações mais tradicionais. 

Recorre-se a gente sem anteparos técnicos para ocupar espaços. Alguns são brilhantes porque ultrapassam os limites pedagógicos da profissão e vendem os respectivos peixes com maestria, independentemente do ponto de vista partidário e ideológico. Outros são patéticos. Exercitam proselitismo ideológico escancarado. Distorcem fatos. Aniquilam o senso comum. Não fundamentam proposições. São rasos. 

Decidisse me travestir de ombudsman da Folha de S. Paulo, ombudsman não-autorizado, colocaria a ombudsman oficial em situação incômoda. O oficialismo em defesa da empresa não esconde a impureza de objetivos. 

A Folha de S. Paulo é um jornal de centro-esquerda imperdível entre outras razões porque confessa os próprios crimes editoriais na corrida maluca de perseguir quem ousa desafiá-la. 

É um direito da Folha de S. Paulo adotar a política editorial que mais lhe convém, mesmo quando seu ramal de pesquisas, o Datafolha, revele o quanto se excede e se equivoca, como o que se deu nas últimas eleições. 

A Folha de S. Paulo só não pode acreditar discriminadamente que a suposta concentração de inteligências do País está à esquerda do espectro político-partidário. Há idiotas juramentados à direita e à esquerda. As próprias edições diárias da Folha provam isso. 

Conjunto da sociedade 

Nas duas oportunidades em que exerci a função de ombudsman nomeado do Diário do Grande ABC pude provar aos leitores que não atuei na publicação da Rua Catequese com o fim precípuo de fazer amigos ou inimigos, de agradar e ser simpático aos acionistas e diretores do jornal ou ao eleitorado, sobretudo os assinantes. 

Sempre enxerguei o leitorado do Diário do Grande ABC como o conjunto de agentes sociais. Se a sociedade regional é, em resumo, um caudal de frouxos, cujas individualidades qualificadas se perdem em meio à barafunda de oportunistas em postos-chave, os chamados mandachuvas e mandachuvinhas, como posso escrever sobre esse território se não utilizar os mandamentos sagrados do bom jornalismo? 

Está aí no acervo desta publicação digital boa parte do que produzi na primeira temporada de ombudsman oficial, em 2004. E aos poucos estamos completando aquele ciclo de exposição pública das análises. Chegaremos logo-logo à última edição do OmbudsmanDiário, o capítulo 36. 

Depois disso, em 2014, voltei à experiência de atuar como ombudsman do jornal, agora de forma pública, oficial, ocupando inclusive espaço impresso da publicação. 

Essa ressalva se faz necessária porque anteriormente, 10 anos antes, minhas intervenções como ombudsman ficaram restritas ao público interno, de acionistas, diretores e editores. 

Em nenhum momento sofri qualquer tipo de pressão da direção do jornal e tampouco fui questionado no sentido desrespeitoso por jornalistas. 

Qualquer observador atento que decida esmiuçar cada uma daquelas edições, da primeira jornada e da segunda, há de observar que nenhuma publicação no País que decidisse enfrentar a opinião pública e seus próprios pecados expondo mútuas vísceras chegaria a tanto. 

Bati com rigor onde tinha de bater. E enalteci os pontos que considerava positivos. Tudo sob a lógica de que ombudsman não é uma brincadeirinha. A sociedade merece respeito de todas as instâncias. Inclusive do jornalismo.

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