Economia

Grande ABC era muito mais
feliz com militares no poder

  DANIEL LIMA - 08/06/2021

Calma, calma e muita calma, muitas horas de calma. Não é o que o leitor está pensando. A manchetíssima de hoje é provocativa. Não trata necessariamente de política, de ideologia, dessas coisas todas. Trata de economia. Especificamente de emprego. O Grande ABC era feliz em empregabilidade no período militar e não sabia. Isso é um juízo de valor econômico. Às favas outras interpretações.  

Os números oficiais estão aí. Estavam todos em forma bruta. Metabolizei-os para dar o tratamento que se segue. Acalmaram os ânimos? Deixaram de me chamar de tudo a que se tem direito? Então vamos ao que interessa.  

Fiquei em dúvida se mantinha a manchetíssima em questão ou procurava fórmula mais apropriada nestes tempos de intolerância geral. Refleti muito.  

Como não devo ideologicamente nada a ninguém, como não tenho agremiação partidária, como sou franco atirador da classe política, como não tenho o rabo preso com quem quer que seja, decidi manter a manchetíssima. E está acabado. Os apressados que se ferrem. Os maldosos que se lixem. Gostaram?   

Formatos de desindustrialização 

Falando sério: fiz umas contas interessantes para concluir que com os militares o Grande ABC era economicamente muito mais poderoso. O dirigismo estatal acentuadamente concentrador de investimentos, e a escolha do setor automotivo, são provas disso e nos deixaram em situação confortável perante a concorrência nacional. Mas caímos do cavalo a partir da democratização, com o fim do Regime Militar. Como politicamente não somos nada, só tínhamos mesmo que amontoar prejuízos.  

E estamos colecionando derrotas a cada temporada. Com direito a recuperações parciais e temporárias, além de escassas.  

A desindustrialização em vários formatos, inclusive no formato de emprego com carteira assinada, arrombou nossas divisas. Estamos num mato de interrogações vocacionais sem cachorro de luminosidade estratégica. E, como bato sempre na mesma tecla, seguimos órfãos de autoridades públicas municipais com capacidade de traduzir tudo isso em emergências de planejamento e deliberações.  

Períodos complementares 

Para saber os efeitos econômicos em forma de empregos industriais formais em três períodos emblematicamente especiais, decidi dividir o comportamento da região a partir de 1985 – exatamente no ano seguinte à chamada Nova República.  

Os dados oficiais são do Ministério do Trabalho. Foram publicados quase que em estado natural, de números propriamente ditos, pela USCS, Universidade Municipal de São Caetano, mais especificamente pelo Conjuscs, precioso, embora complexo, centro de estudos que reúne dezenas de acadêmicos. 

A USCS forneceu em detalhes setoriais o que sempre contei nos arquivos de LivreMercado e de CapitalSocial em forma conjunta, ou seja, sem discriminação de atividades. O trabalho que tive e estou tendo é pegar a numeralha toda e partir para um ataque de agregar valores analíticos.   

Dividir em três largos períodos o estoque de empregos industriais formais da região é o que chamaria de criatividade jornalística. O desmembramento não interessou aos acadêmicos. Mas é mão na roda do imperdível.   

Os três compartimentos temporais em que dividi o enfraquecimento do tecido econômico do Grande ABC, com reflexos na classe trabalhadora mais apetrechada, somam 31 anos.  

Tudo pós-militares 

O primeiro tem como base os números de 1985 e segue até 1994, quando se implantou o Plano Real no País, o mais bem sucedido projeto para atenuar o processo inflacionário destruidor do futuro e aniquilador do presente. O segundo período abrangeu os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso. E o terceiro abarcou os 14 anos do PT de Lula da Silva, entre 2003 e 2016.  

Antes de revelar os números gerais de macrotemporadas sobre as quais me debrucei (não vou entrar em detalhes de atividades setoriais nem municipais, por enquanto) convém ressaltar que é impossível sob o ponto de vista de definição de valores de responsabilidade gerenciais dos ocupantes do Palácio do Planalto dizer que cada um tem os tentáculos restritos aos respectivos períodos de governo.  

Quero dizer com isso e de forma simples que não se deve atribuir os resultados exclusivamente a cada período escolhido. São inúmeras as influências macroeconômicas e macropolíticos ao longo do tempo que incidem num determinado período de gestão. Mas é claro que o naco maior de comprometimento é mesmo de quem estava no poder nos respectivos períodos.  

Acumulando derrotas  

Entre a base de 1985 e o teto de 1994, quando o Plano Real foi implantado, o Grande ABC perdeu 60.659 empregos industriais formais. Dividindo-se o passivo pelos nove anos do período, a média anual alcançou 6.740 desempregados como saldo líquido entre contratações e demissões. Mais que duas fábricas da Ford que recentemente deixou São Bernardo. O dirigismo do Estado já fazia água. O Grande ABC começava a ficar para trás. Notadamente com a abertura dos portos no breve governo de Fernando Collor de Mello.  

Já nos oito anos subsequentes, sob o controle do tucano Fernando Henrique Cardoso, entramos em parafuso. Perdemos 73.012 empregos industriais formais nos oito setores mais importantes. Exatamente 9.126 por temporada. Quase quatro fábricas da Ford em São Bernardo por ano. FHC destruiu pequenos industriais na região com uma abertura econômica insana. Protegeu as montadoras e deixou as autopeças à sanha internacional. Deu no que deu. Entre outras barbaridades. É claro que o sindicalismo mais arredio colaborou bastante.   

Escrevemos muito sobre isso na revista LivreMercado. Enquanto isso, o Diário do Grande ABC e acadêmicos dos quadros públicos, principalmente, negavam o óbvio. Falavam em descentralização. Uma coisa tem tudo a ver com a outra. Descentralizam-se investimentos industriais à custa da desindustrialização localizada. Foi também o preço da guerra fiscal. Amontoaram-se inimigos deste jornalista. Nada melhor que o tempo. E pior para quem tem a região no coração.  

Velocidade cai  

Com o governo Lula da Silva e de Dilma Rousseff, entre 2003 e 2016, perdemos apenas 6.600 empregos industriais. “Perdemos apenas” é força de expressão. Seria impossível mesmo que em uma década e meia sofrer mais reveses contundentes.  Chegamos ao fundo do poço com o governo Fernando Henrique Cardoso. Além disso, o Brasil nadava de braçadas com as commodities. O consumismo explodiu. A indústria automotiva, nossa Doença Holandesa, bombou.  

A probabilidade de reduzir a velocidade de quebra do emprego industrial era tão lógica durante o governo petista quanto diferenciar a velocidade média de uma corrida de 100 metros rasos e a velocidade média numa maratona. A desindustrialização do Grande ABC é inevitável. Não é uma penalidade máxima. É um processo vagaroso e insidioso que os analfabetos econômicos não enxergam.  

A esquerda mais aguerrida que está no centro da desindustrialização regional, com um sindicalismo tão legitimamente corporativo quando desastrado à sociedade, liderou o processo de fuga ou desaparecimento de unidades industriais. Fernando Henrique Cardoso deu uma tremenda ajuda. O desastre era incontrolável mesmo. Mas ganhou mais tração. O Grande ABC perdera a competitividade que o mercado nacional assegurava. Abertas as comportas da globalização, babau! 

Sem Temer e Bolsonaro 

Nesses três ciclos diferentes da economia e da política brasileira, perdemos 139.271 empregos industriais formais. No total de um período ligeiramente mais amplo, que começa também em 1985 e se estende a 2019, já durante os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, vimos aumentar o déficit de trabalhadores industriais com carteira assinada para 153.622 postos de trabalho.  

Viram que coloquei o Regime Militar apenas como pegadinha para chamar a audiência? Não é um paradoxo, um grande paradoxo, que justamente no período de redenção democrática, de conquistas insofismáveis da classe trabalhadora, o Grande ABC tenha vivenciado as durezas do prélio de muitas perdas que redundaram no empobrecimento sistêmico em nossas cidades?  

Mais que isso: caímos em desgraça econômica na medida em que fabricamos uma das principais lideranças nacionais em todos os tempos, o ex-metalúrgico Luiz Inácio Lula da Silva?  

Até imagino o que leitores à esquerda e à direita do espectro político-ideológico estão a comentar ao completarem essa leitura. Por isso vou cair fora.

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