Economia
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Auricchio precisa preparar
o futuro para São Caetano

  DANIEL LIMA - 14/03/2019

São Caetano precisa contar com um futuro menos traumático, porque o presente sinaliza complicações. Um futuro sem sobressaltos causados pela ameaça velada de a General Motors abandonar o campo de jogo. Um futuro sem depender tanto do dinheiro de impostos do terminal de combustíveis. Nem do que teria sobrado de recursos fiscais da Casas Bahia com novos controladores. 

São Caetano não tem rumo nem prumo econômico confortável quando se olha adiante, num futuro de médio e longo prazo. Está certo que tem presente, um presente que vem do passado, mas não há presente que o futuro não modifique. Para o bem ou para o mal. No caso de São Caetano o passado parece mais frondoso que o futuro. Não o passado recente, claro. No caso, “recente” são as últimas décadas. 

O prefeito José Auricchio, em terceiro mandado, com possibilidades de um quarto, o que seria inédito no Grande ABC, demora demais a reagir. Mas precisa reagir. A Administração que lidera é discreta demais e ambiciosa de menos.  

Piloto automático 

O mais experiente dos prefeitos da região age com excesso de cautela também fora da órbita municipal. O Clube dos Prefeitos, por exemplo, praticamente não o tem como peça de evidências colaborativas, embora o faça nos bastidores em apoio ao agora prefeito dos prefeitos Paulinho Serra, de Santo André. As escaramuças com Orlando Morando, então prefeito dos prefeitos, o afastou da entidade. 

Se algum ilustrador de jornal decidisse traduzir em imagem o que seria o prefeito José Auricchio Júnior à frente de São Caetano, sugeriria que reproduzisse a cabine de um avião de médio porte, com tecnologia embarcada exuberante, e um piloto em posição de mero espectador do espaço aéreo. Claro que não estou sugerindo que Auricchio não faça nada para garantir a tranquilidade dos passageiros e tripulantes. Apenas faz o trivial. Está no piloto automático. 

O desempenho da economia de São Caetano neste século é um escândalo complementar à última década dos anos 1990, comprometida com esmero pelo governo Fernando Henrique Cardoso e o extermínio das pequenas indústrias impactas com importações de corporações e produtos. 

As quase duas décadas já apuradas deste século não condizem com a imagem de cidade de Primeiro Mundo. Quem perde tanta participação no PIB Geral do Grande ABC, no PIB Geral da Grande São Paulo e também no PIB Geral do País não pode se sentir confortável. 

A modernidade industrial bateu asas, a tecnologia de serviços não é lá essas coisas, o dinamismo comercial segue encruado – eis algumas conclusões óbvias. Não seria um shopping center que mudaria a situação. Aliás, só agravou pelo processo de canibalismo. 

Craque acomodado 

É verdade que os indicadores sociais continuam luminosos na Região Metropolitana de São Paulo. A comparação não é lá uma Brastemp, convenhamos, porque a metrópole está um escárnio. Mas, para ser justo, são indicadores que conflitam com a própria realidade nacional. 

Talvez porque seja tão disparadamente craque em qualidade de vida São Caetano negligencie o futuro. É um craque que treina pouco, que não se aperfeiçoa. Não é um Zico, um Rogério Ceni, um Pelé, a treinar cobranças de faltas à exaustão após os treinamentos convencionais. 

São Caetano cresceu apenas 10,01% no PIB Geral desde o ano 2000, com fita de chegada em 2016. É um dos piores resultados entre os 39 municípios da metrópole. O crescimento médio anual, quando se consideram os números ponta a ponta, não chega a 0,65%. A vizinha Osasco registrou 15,72%, Barueri mais de 2% e Guarulhos um pouco menos. Ou seja: São Caetano está perdendo de goleada o jogo anual de avanços econômicos. Na última década o resultado geral é negativo. E comprometedor.

Está evidenciado que São Caetano derrapa ao custo de um setor industrial fragilizado, independentemente de contar ou não com a General Motors do Brasil, e de um setor de serviços sem valor agregado. Até parece que estou escrevendo sobre Santo André, que já foi ao inferno da desindustrialização e hoje parece estável, embora também muito aquém da concorrência.   

Mercado de trabalho 

Uma das variáveis do comportamento econômico é o mercado de trabalho. A recessão atingiu em cheio São Caetano. Como já mostrei, desde 2014 e até outubro do ano passado (a atualização não mudaria em nada a conclusão final) o setor industrial de São Caetano perdeu quatro a cada 10 empregos com carteira assinada. Um recorde regional. 

Foi por conta disso e de tantas coisas mais que, em 14 de novembro do ano passado (portanto, antes da bombástica aparição da GM na parada de preocupações), escrevi “São Caetano precisa descobrir por que perdeu tanta riqueza”. 

Esperava-se reação. Cobrei inclusive do prefeito José Auricchio Júnior a convocação dos “sabichões” da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), sobretudo o departamento que recentemente lançou série de estudos. 

Estava me referindo ao chamado Conjuscs, essa nomenclatura horrorosa que agrega dezenas de acadêmicos da Universidade de São Caetano. Ali se fazem muitos estudos interessantes, outros nem tanto assim e também bobagens. 

Proposta onírica 

Instalo no patamar de bobagens uma chamada nota técnica assinada por Daniel Vaz sob o título “Um caminho alternativo para o desenvolvimento econômico de São Caetano do Sul, a partir da experiência do Parque Austral, na Grande Buenos Aires”. 

Trata-se de apanhado de informações e conclusões precárias sobre o que o autor chamou de proposta de criação de um parque empresarial em São Caetano, utilizando o Parque Austral, localizado na Grande Buenos Aires, “à luz da possibilidade de que a General Motors do Brasil suspenda sua atuação na cidade”. 

Essa nota técnica do profissional da Universidade de São Caetano acabou de sair do forno da quinta Carta de Conjuntura do Conjuscs. Repasso alguns trechos elucidativos para classificá-los como pregação explícita da falta de objetividade ditada pela premência de ações: 

 O Parque Austral, localizado na cidade de Pilar, distante cerca de 55 quilômetros de Buenos Aires, é o primeiro parque científico, tecnológico e empresarial do gênero na Argentina. Ele foi inaugurado em 2010 pela Universidade Austral, a primeira universidade da América Latina com menos de 50 anos de vida a integrar o Ranking Top 50 Unde4r 50. O desenvolvimento e a operação do Parque Austral estão a cargo da Taurus Investment Holdings, uma empresa alemã de atuação global (...) com três bilhões de dólares em ativos imobiliários e mais de 1.860.000 metros quadrados em escritórios, indústrias, residências, hotéis e outras propriedades adquiridas no mundo. Somente nesse investimento argentino a empresa tem programado investimentos que chegarão a 150 milhões de dólares. – escreveu Daniel Vaz, da USCS.

Mais Parque Austral

 O Parque Austral está alojado dentro do campus de 96 hectares da Universidade Austral, situando-se a apenas 40 minutos do Aeroporto Internacional de Ezeiza. Com seus 21 hectares, o Parque se constitui em uma oferta interessante para empresas interessadas em se deslocar para fora da capital argentina, em um ambiente favorável à produtividade, troca de conhecimento e qualidade de vida. No parque estão instaladas atualmente 75 empresas. – escreveu. 

Não vou me estender sobre a nota técnica do professor da Universidade de São Caetano, embora a tenha consumido cuidadosamente. Trata-se de algo completamente fora do esquadro de viabilidade. Rivaliza, na edição da Carta de Conjuntura da Universidade de São Caetano, com a maluquice de construir um aeroporto em São Bernardo, noticiado mais uma vez pela mídia sempre descuidada e repassadora de besteiras.

Está certo que desta vez não se tipificou o tamanho do aeroporto, possivelmente porque o Aeroportozão tão criticado por este jornalista se converteu mesmo numa frustrante obsessão de Luiz Marinho, então prefeito de São Bernardo.

Plano Crefisa

Mas, voltando ao professor Daniel Vaz, para que sua ideia prospere seria necessário, por mais que a miniaturização de plantas produtivas seja uma verdade no mundo dos negócios, que São Caetano seja fisicamente de plástico ao sabor de esticamentos para acomodar a proposta. Mais que isso: que uma espécie de Crefisa tupiniquim decida investir horrores numa área já naturalmente explorada ao máximo pelo mercado imobiliário. 

Mais ainda: São Caetano precisa superar a concorrência de municípios à Leste e à Oeste da Grande São Paulo, cujas condições de infraestrutura material e intelectual mobilizadora de ganhos de produtividade são tremendamente superiores. Como, aliás, prova o comportamento do PIB de Serviços dos Municípios Brasileiros.

O que o prefeito José Auricchio Júnior precisa fazer antes de encerrar o terceiro mandato é reunir gente com pragmatismo, experiência e senso de urgência para projetar uma São Caetano factível no futuro próximo. 

A ausência de uma cara econômica mais confiável está evidenciada. A General Motors pode escafeder-se a qualquer momento neste mundo automotivo em que veículos elétricos e digitais já ensaiam revolução com perdas e danos imensuráveis em todos os quadrantes do mundo. A Ford está aí para comprovar e a Volkswagen também, agora com anúncio de que vai reduzir drasticamente os custos em todos os cantos. 

São Caetano provavelmente jamais deixará de ser um endereço internamente agradável de viver, uma espécie de oásis no inferno metropolitano, mas seguirá roteiro em que mais e mais se consolidará como cidade-dormitório que, ao longo dos tempos, sofrerá perda da própria identidade. Afinal, só quem vive no ambiente municipal em gerações contínuas sabe distinguir o local do entorno, no caso bastante hostil em qualidade de vida. 

Quando me refiro a ambiente “internamente agradável”, quero dizer que a vida de quem mora em São Caetano é melhor quando se está em São Caetano, mesmo com o inferno de mobilidade urbana. O restante metropolitano é bastante agressivo em tudo que se coloque como referencial de civilidade e conforto. 

É claro que excluo dessa conclusão mais que histórica os moradores do Bairro Fundação, parte esquecida ao longo de administrações públicas e sobre a qual as enchentes fazem estragos periódicos. 

Fosse prefeito de São Caetano não teria dúvida em dar um chega-pra-lá na turma de intelectuais da Universidade de São Caetano. Existe um grupo de profissionais a produzir as Cartas de Conjuntura que poderia ser muito mais útil ao perscrutar o futuro que José Auricchio precisa deixar de legado às próximas gerações de titulares do Paço Municipal. 

Entretanto, para tornar aqueles acadêmicos parceiros de uma jornada de glória, sem, entretanto, incidir em fantasias retiradas de pesquisas na Internet ou de compartilhamentos acadêmicos, o titular do Paço Municipal precisa ser assertivo, contundente e comprometido com a própria biografia.

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