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Economia
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Viramos uma fábrica de pobres
e miseráveis. E de poucos ricos

  DANIEL LIMA - 12/04/2018

Sei que a expressão mobilidade social não é de compreensão plena, por mais que prevaleça gente qualificada como consumidora desta revista digital. Por isso não custa explicar, de forma didática, que mobilidade social é o miserável que vira pobre, o pobre que vira classe média-baixa, o classe média-baixa que vira classe média-média, o classe média-média que vira classe média-alta e o classe média-alta que vira rico. Isto posto, vou explicar o título desta matéria: a região perdeu fôlego no aquecimento das turbinas de geração de riqueza que se traduza no avanço das camadas mais altas do estrato socioeconômico e no rebaixamento dos quadros de excluídos sociais.

Há diversas formas de medir a mobilidade social da região e dos municípios que a compõem. Uma das quais – outras poderão ganhar espaço aqui em artigos vindouros – é aferir a distância que separa as famílias ricas das famílias pobres e miseráveis. Traduzindo: quanto temos de famílias ricas na região em relação aos domicílios ocupados por pobres e miseráveis?

Uma região como essa, forjada pela protegidíssima indústria automotiva, teria tudo para brilhar sem confundir-se com falso brilhante, como tantos a confundem. 

Entretanto, como já expliquei e volto a explicar, o sindicalismo conduziu tudo de maneira a privilegiar ações nas montadoras de veículos, em primeiro lugar, nas sistemistas (que alimentam as montadoras na linha direta de produção), em segundo lugar e nas demais metalúrgicas que transitam nas autopeças, principalmente, em terceiro lugar. 

3,2% versus 6.15%

Deixo de lado inicialmente nesta análise qualquer um dos municípios desta Província e desloco baterias em direção ao conjunto do bicho de sete cabeças. Nosso estoque de famílias ricas -- conforme estudos oficiais de diversos organismos federais que alimentam o banco de dados da Consultoria IPC -- é muito menor do que deveria ser. 

Temos apenas 3,2% dos domicílios de classe rica na região, correspondentes a 29.984 famílias entre quase um milhão (exatamente 937.436 mil) de residências. Numa classificação geral do G-22, grupo dos 20 maiores municípios do Estado de São Paulo (menos a Capital), completado por Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra para que a região fique representada na totalidade dos municípios, não passaríamos do 13º lugar. Ou seja: entre 23 participantes (a região participaria do ranking como uma megacidade, além das sete formais) ocuparíamos a parte de baixo da tabela. 

Vou procurar ser mais pedagógico para que os leitores entendam o tamanho da encrenca em que nos metemos desde que o sindicalismo de Lula da Silva, no final dos anos 1970, fez eclodir um terremoto social e econômico na região. Juízo de valor à parte (o sindicalismo ofereceu também pontos positivos, lamentavelmente consumidos no tempo pelo radicalismo), é inegável que o movimento que marcou o início da trajetória de Lula da Silva no cenário nacional converteu-se em fator desestimulador a investimentos na região. Mais que isso: azeitou as engrenagens da debandada industrial que os oito anos do governo Fernando Henrique Cardoso agravaram com a política alfandegária do setor automotivo. 

Perdendo terreno 

Comemos poeira e definhamos em mobilidade social porque não tivemos institucionalmente, em qualquer organização coletiva, sobretudo nas administrações públicas, a menor capacidade de organizar a bagunça regional. Contamos com uma família de ricos para cada 6,15 famílias de pobres e miseráveis. Somos 29.984 domicílios de bem com a vida e 184.499 ao deus-dará de migalhas financeiras. 

A proporção de pobres/miseráveis versus ricos na região é muito superior à de vários municípios que integram o G-22. É verdade que São Caetano lidera o ranking com o melhor índice. Para cada família de ricos, moram na cidade apenas 1,43 família de pobres/miseráveis. Santo André vem em seguida, na sexta colocação na classificação geral, com uma família rica para cada 4,59 de pobres/miseráveis. São Bernardo, Capital Econômica da região, ocupa apenas o nono lugar, na proporção de uma para 5,35. 

Na metade inferior do ranking, as representações da região vão de mal a pior, o que contribui para o rebaixamento dos números gerais. Ribeirão Pires é 17ª colocada com a proporção de uma para cada 8,52. Ou seja: uma família rica para cada 8,52 de pobres e miseráveis. A média de Mauá, 19ª colocada, é de uma para 13,73, enquanto Diadema, 21ª classificada, é de uma para cada 17,10 de pobres e miseráveis. Rio Grande da Serra é a lanterninha do G-22 com uma família de ricos para cada grupo de 32,10 de famílias de pobres e miseráveis. 

Desta forma e sem exagero, não é pecado capital afirmar que o ainda chamado Grande ABC conta com três categorias distintas de municípios em matéria de mobilidade social dentro do G-22: São Caetano na Primeira Divisão; Santo André e São Bernardo na Segunda Divisão; Diadema, Mauá, Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra na Terceira Divisão. Talvez fosse mais correto instalar Rio Grande da Serra numa Quarta Divisão. 

Capitalismo enrascado 

O fato histórico que poucos perceberam e nenhum acadêmico descobriu é que o capitalismo tutelado pelo sindicalismo enganosamente socialista de um lado e pelo Estado mentirosamente previdente de outro não deu certo na região nem mesmo quando se comparam os resultados de mobilidade urbana com concorrentes do universo paulista. 

A grandiosidade demográfica da região não pode servir de biombo, por mais que fatores como o crescimento acelerado da população e o transbordamento da pobreza na Região Metropolitana de São Paulo devam ser considerados. Campinas, capital de uma metrópole interiorana, também é gigantesca em população e nem por isso tão sofrida em mobilidade social. Quando demografia e desenvolvimento econômico entram em rota de colisão, as reverberações sociais recrudescem. 

Em Campinas existiam no ano passado, segundo a Consultoria IPC, uma família rica para cada grupo de 3,92 famílias pobres e miseráveis. Individualmente Campinas só perde para São Caetano, Santos e Jundiaí no ranking do G-22. Quando comparada à região, o resultado significa quase a metade do índice da divisão das famílias pobres e miseráveis por famílias ricas. São 36,26% de diferença favorável a Campinas, onde há 19.111 famílias ricas ante 74.927 famílias de pobres e miseráveis.  

Mais exemplos 

Pegue-se também São José dos Campos, outra capital metropolitana do Interior de São Paulo, e as desventuras da região se confirmam: são 3,96 famílias pobres e miseráveis para cada família rica. Não esqueça o leitor: nesta Província de três divisões classificatórias contamos com 6,15 domicílios de pobres e miseráveis para cada domicílio de ricos. O desempenho de Jundiaí é melhor ainda, com proporção de 3,49 de pobres/miseráveis para cada família de ricos. Em Santos, segunda colocada no ranking, a proporção é de 2,76%. Menos da metade, portanto, em relação à região. 

Somente a partir da 14ª colocação de Barueri (nesse caso, sem contar a região como um todo de forma distinta dos sete municípios) encontramos uma barreira que nos favorece. O índice do Município da Grande São Paulo cujo PIB (Produto Interno Bruto) tem avançado de forma exponencial é de 7,79 famílias de pobres e miseráveis para cada família de ricos. Barueri é uma cidade repartida entre a riqueza exuberante de Alphaville, gigantesco condomínio de avançadíssimas matrizes econômicas, sobretudo de Tecnologia da Informação, e uma classe média-baixa que se soma a pobres e miseráveis. Há muita semelhança urbana, além de econômica, entre a parte baixa de Barueri, de indústrias antigas, e municípios da região. 

Que Primeira Divisão? 

Também nesse enfrentamos de famílias ricas versus famílias pobres e miseráveis a região dá mostra irrefutável de que não passa de pasmaceira triunfalista de gente irresponsável, mal-intencionada ou mal informada, a afirmação de que vivemos espécie de Primeira Divisão no âmbito nacional. Não o somos, como já revelamos, sequer numa amostra de 22 municípios. Ou alguém é capaz de sustentar, sem deixar cair a máscara de um politicamente correto que trafega na mesma pista do abuso intelectual, que uma região de desigualdade social tão pronunciada é digna de constar de qualquer lista de qualidade de vida? 

A gravidade da situação que talvez pudesse ter priorizada como mote na abertura deste artigo é que não contamos com número suficiente de famílias ricas em relação a tantos outros municípios do G-22. Além disso, acumulamos estoque elevadíssimo de pobres e miseráveis. 

Desta forma, construímos em décadas dois mundos igualmente horripilantes, os quais acentuam o desconforto não apenas por conta de uma coisa e outra, mas sobretudo em razão de termos perdido excepcional oportunidade de moldar uma região mais equilibrada diante da fartura de riqueza produzida. 

Uma riqueza cujo ciclo evolutivo há muito foi comprometido predominantemente pela ação sindical dos metalúrgicos que, insisto, sempre miraram os próprios umbigos, massa de manobra legítima ou não, isso não interessa aqui, de voos político-partidários. O restante da sociedade produtiva foi jogado às traças. Deu no que está aí. Sem conserto no horizonte de médio prazo.  

Ranking do G-22

1. São Caetano com 7,1% de ricos (4.230 famílias) e 10,2% de pobres e miseráveis (6.052 famílias).  

2. Santos com 5,5% de ricos (9.053 famílias) e 15,2% de pobres e miseráveis (24.949 famílias) 

3. Jundiaí com 4,6% de ricos (6.413 famílias) e 16,1% de pobres e miseráveis (22.371 famílias). 

4. Campinas com 4,6% de ricos (19.111 famílias) e 18,1% de pobres e miseráveis (74.927 famílias). 

5. Paulínia com 4,0% de ricos (1.329 famílias) e 13,3% de pobres e miseráveis (4.413 famílias). 

6. Santo André com 4,0% de ricos (9.955 famílias) e 18,3% de pobres e miseráveis (45.742 famílias).

7. São José dos Campos com3,8% de ricos (8.688 famílias) e 15,1% de pobres e miseráveis (34.408 famílias). 

8. Ribeirão Preto com 3,7% de ricos (9.046 famílias) e 12,0% de pobres e miseráveis (29.023 famílias). 

9. São Bernardo com 3,7% de ricos (10.500 famílias) e 19,8% de pobres e miseráveis (55.561 famílias).

10. Piracicaba com 3,2% de ricos (4.286 famílias) e 12,4% de pobres e miseráveis (16.384 famílias). 

11. Sorocaba com 3,2% de ricos (7.073 famílias) e 12,9% de pobres e miseráveis (28.301 famílias). 

12. São José do Rio Preto com 3,2% de ricos (5.103 famílias) e 13,5% de pobres e miseráveis (21.444 famílias). 

13. Taubaté com 3,0% de ricos (3.011 famílias) e 13,9% de pobres e miseráveis (13.852 famílias). 

14. Barueri com 3,0% de ricos (2.597 famílias) e 23,1% de pobres e miseráveis (20.248 famílias). 

15. Mogi das Cruzes com 2,6% de ricos (3.549 famílias) e 22,5% de pobres e miseráveis (30.133 famílias). 

16. Osasco com 2,5% de ricos (5.774 famílias) e 23,8% de pobres e miseráveis (55.250 famílias). 

17. Ribeirão Pires com 2,3% de ricos (908 famílias) e 19,3% de pobres e miseráveis (7.739 famílias). 

18. Sumaré com 2,0% de ricos (1.810 famílias) e 15,9% de pobres e miseráveis (14.379 famílias). 

19. Mauá com 1,5% de ricos (2.277 famílias) e 20,6% de pobres e miseráveis (31.397 famílias). 

20. Guarulhos com 1,5% de ricos (6.471 famílias) e 24,6% de pobres e miseráveis (107.664 famílias). 

21. Diadema com 1,4% de ricos (1.990 famílias) e 24,4% de pobres e miseráveis (34.027 famílias). 

22. Rio Grande da Serra com 0,8% de ricos (124 famílias) e 24,5% de pobres e miseráveis (3.981 famílias). 

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