Administração Pública
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Luiz Marinho dá nota 1,5 para
Morando. Dei 5,5. Como fica?

  DANIEL LIMA - 24/09/2020

Em novembro do ano passado fiz análise macro-administrativa e política do prefeito Orlando Morando. Dei-lhe nota média de 5,5 para efeitos municipais e 3,4 em termos regionais, numa escala de zero a dez. O ex-prefeito Luiz Marinho concedeu uma Entrevista Desejada hoje ao Diário do Grande ABC utilizando métrica largamente eleitoral: deu 1,5 para o prefeito de São Bernardo. E disse que está sendo generoso.  

O que quero saber é o seguinte: em quem o leitor bota mais fé? Num jornalista independente ou num político que tem razões de sobra para agir como está agindo porque sabe que o eleitorado em geral é volúvel?  

Mais abaixo vou dar uma prova (como se fosse necessária) de que não entro em dividida que provoque rescaldos de contradições. Dou nota média de prefeito regional maior para Luiz Marinho do que para Orlando Morando. Nada que seja definitivo, claro. São oito anos do petista contra quatro do tucano. Ao final do primeiro mandato Marinho não teria nota maior que Morando na mesma situação.  

Panfletagem eleitoral  

A nota que Luiz Marinho atribui a Orlando Morando na página de Política do Diário do Grande ABC vai ser convertida em panfletagem que cobrirá São Bernardo inteira com uma versão tão estapafúrdia quanto aquelas que muitos fizeram num passado recente à gestão do petista à frente de um dos municípios mais cobiçados do País.  

No vale-tudo da política a menos de dois meses das eleições, muitos apostam que pesam mais as versões do que os fatos. A filtragem do jornalismo sem rabo preso sempre é valiosa. Assimila quem quiser.  

Ao término do primeiro mandato, iniciado em 2009, Luiz Marinho foi um prefeito de muitas iniciativas, de obras acabadas e não acabadas. O governo federal vivia êxtase da gastança fiscal movida a commodities.  

Primeiro-amigo do então presidente Lula da Silva, os dois últimos anos do segundo mandato do político mais popular do País neste século e os primeiros anos de Dilma Rousseff foram um ensaio geral que alimentava a pretensão de Luiz Marinho chegar ao governo do Estado. O segundo mandato de Dilma Rousseff fez um estrago geral às cores petistas e colheu Luiz Marinho no contrapé.  

Condições adversas  

Orlando Morando está no último ano do primeiro mandato. Pegou o País sob rescaldos dos desvarios fiscais do PT e de uma convulsão política alimentada e retroalimentada por tecnologias portáteis que dilaceram a classe política e colocam em xeque o conceito de fake news que a Grande Imprensa pretende impingir às redes sociais. Como se não bastasse o histórico punitivo da Operação Lava Jato, iniciada em 2014 e que eliminou a viabilidade de o PT continuar avançando no mapa nacional de ocupação de cargos no Executivo.  

Luiz Marinho fez um primeiro mandato de alheamento total à regionalidade. Tanto quanto Orlando Morando. Mas foi menos ruim.  Não participou ativamente das bases destrutivas do Clube dos Prefeitos. Preferiu, em seguida, no segundo mandato, potencializar a entidade. Deu-lhe valor participativo em forma orçamentária jamais visto. Mas fez tudo com viés excessivamente ideológico. O Clube dos Prefeitos tornou-se ramal petista. Foi tomado por sindicalistas. Discriminou o capital e a sociedade menos engajada politicamente. 

Orlando Morando repete Luiz Marinho em termos regionais no primeiro mandato. Com a diferença de que dinamitou as bases daquela instituição. Terá possivelmente uma oportunidade de ouro para dar a volta por cima em grande estilo e sob nova configuração de regionalidade.  

Formato esgotado  

A fórmula de atuação do Clube dos Prefeitos está saturada. Fracassou sem ter chegado ao menos a um grande triunfo. É um time pequeno que jamais teve o que comemorar. E foi ao rebaixamento sem dó nem piedade, embora alguns trôpegos digam o contrário. 

Portanto, do ponto de vista macropolítico e macroadministrativo, o primeiro mandato de Luiz Marinho e de Orlando Morando se equivalem. O petista completou obras e deixou obras a fazer porque teve o governo federal nadando em dinheiro até determinado ponto. Orlando Morando percorreu trajetória mais desafiadora, de saneamento fiscal e investimentos objetivos sobretudo na infraestrutura física de logística e de saúde. 

Na análise que produzi em novembro do ano passado, e que abordou os três primeiros anos da gestão de Orlando Morando, atribui nota 5,5 ao prefeito municipal e 3,4 ao prefeito regional. “Fosse observado apenas como prefeito de São Bernardo a nota média de Morando seria 5,5 pontos em 10 possíveis. Como São Bernardo está incrustrada na geoeconomia regional, e também na geopolítica, a nota média cai para 3,4, também em 10 possíveis.  

Regionalidade pesa  

O leitor provavelmente perguntaria se os nove meses desta temporada final de mandato e uma pandemia no meio do caminho alterariam a nota média municipal e também regional de Orlando Morando. A nota municipal seria mantida. A regional, como dos demais prefeitos, seria rebaixada. Faltou sobretudo coordenação regional no combate à pandemia. No caso específico de Morando, a nota média regional seria rebaixada apenas simbolicamente, porque ele recebeu zero naquela análise do ano passado.  

Ainda em novembro do ano passado escrevi: “O peso da regionalidade maltrata a média geral do prefeito de São Bernardo. Nem poderia ser diferente. Ele destruiu o que restava de supostamente produtivo no Clube dos Prefeitos. O tucano foi muito bem em Administração, não passou de razoável em Política, caiu pelas tabelas em Economia e fracassou em Regionalidade. Os pesos ponderados mais elevados em Economia e Regionalidade transformaram em decepção os primeiros 36 meses de mandato do principal político da região nos últimos anos” – escrevi. 

Convém registrar mais alguns trechos daquela abordagem crítica: “O resumo da ópera é que Orlando Morando tem tido mandato bastante satisfatório quando se trata de Administração no sentido restrito do termo, quanto à capacidade de colocar em ordem as finanças de São Bernardo, e, mesmo com erros gritantes que afetaram o vetor Regionalidade, tem resultado satisfatório em Política no âmbito municipal. Agora, quando sai da área de Economia e, principalmente, de Regionalidade, tropeça inescapavelmente. O resultado final leva em conta o peso ponderado de cada quesito em que dividi a gestão dos prefeitos mais importantes da região. Regionalidade vale 40%, Economia 30%, Administração 20% e Política 10%. Morando foi bem justamente nos quesitos de pesos inferiores.” -- escrevi. 

Vantagem provisória?  

Também expliquei naquele texto de novembro de 2019 a razão de atribuir notas segmentadas à gestão de Orlando Morando. Em Administração foi 10, em Política cinco, em Economia três e em Regionalidade, zero.  

No conjunto da obra de Luiz Marinho, antecessor de Orlando Morando, contabilizando os oito anos consumidos, e sem mergulhar em detalhamentos, mas apenas para traçar de imediato um paralelo com certa solidez passível de mudança, diria o seguinte: Luiz Marinho receberia nota sete em Administração, cinco em Política, três em Economia e cinco em regionalidade. Com os pesos ponderados aplicados, à exemplo do que se estabeleceu aos prefeitos atuais, Orlando Morando incluído, a nota média regional de Luiz Marinho teria alcançado 4,8 na escala de zero a dez. Superior, portanto, aos 3,4 de Orlando Morando sob o mesmo ângulo.   

As declarações de Luiz Marinho hoje aos leitores do Diário do Grande ABC batem em teclas mais que manjadas para o desgaste de um adversário que corre em direção à vitória em primeiro turno: fracasso da gestão tucana em zeladoria, derrocada econômica e sobremodo, segundo o ataque, à honestidade administrativa.  

Dividindo os ônus  

O PT quer dividir eleitoralmente a conta dos escândalos da Lava Jato que tanto estilhaçou o prestígio da agremiação e coloca em dúvida ou em franca decomposição a capacidade de gestão tipicamente municipalista de Orlando Morando.  

O argumento de que Orlando Morando só completou parte das obras deixadas pelo próprio Luiz Marinho pode ser interpretado como confissão de despreparado ao cronograma estabelecido, embora os leitores em geral não façam necessariamente esse raciocínio. 

A disputa eleitoral entre Morando e Marinho é a mais emocionante, por enquanto, no Grande ABC. Essa constatação resiste à perspectiva de que o jogo parece decidido depois que Rafael Demarchi sumiu de cena como frágil terceira via orquestrada para levar a disputa a um mais que improvável segundo turno de muitas negociações.  

O que torna a eleição em São Bernardo diferenciada é que o confronto tucano-petista simboliza muita coisa. Principalmente o poder de resiliência da liderança do ex-presidente Lula da Silva. Algo que, convenhamos, está cada vez mais estreito eleitoralmente. Fora Diadema, de peculiaridades sociológicas e políticas, o restante do Grande ABC se apresenta sombrio ao PT. Talvez nem tanto às esquerdas em Santo André.  

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