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Regionalidade
Universidade produtiva
DANIEL LIMA 13/03/2005
De fato, de fato, não interessa a identidade da escola que virá para o Grande ABC, se novinha em folha e chamada de Universidade Federal do Grande ABC, ou se já experiente, setentona, denominada Ufesp, Universidade Federal de São Paulo.
Há uma nítida disputa pelos ganhos político-institucionais da medida. Para o PT, interessa mais mesmo a UFABC, porque ficariam registradas as digitais do presidente Lula da Silva e também de deputados federais e prefeitos petistas da região. Nada mais natural que se pretenda obter dividendos políticos. Para os demais, a transferência da reitoria e do campus da Ufesp da Capital para o Grande ABC seria um atalho, com a possibilidade prática de acrescentar ao viés tradicional de saúde que consagrou aquela instituição novas diretrizes curriculares.
E são as diretrizes curriculares que devem ser consideradas de forma prioritária. O problema todo é que tentam reinventar a roda e o núcleo do debate fica para terceiro plano. Mais precisamente desde o ano passado, quando a então prefeita de Ribeirão Pires, Maria Inês Soares, cometeu o duplo pecado de discriminar os empreendedores locais no chamamento para debater o perfil da instituição e também de privilegiar o assembleísmo de fóruns populares, para dar uma roupagem democrática.
Sugiro ao relator do projeto de lei que cria a UFABC, deputado federal Ivan Valente, da ala esquerdista do PT, que leia com atenção uma entrevista publicada em outubro de 1998 pela revista LivreMercado com o especialista Cláudio Moura e Castro, economista brasileiro então chefe da Divisão de Programas Sociais do BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento). Ele respondeu às indagações de Livre Mercado à época diretamente de Washington, nos Estados Unidos.
O convite a Ivan Valente é uma sugestão séria e respeitosa, porque, se repassar para o projeto de lei as idéias que propagou pela Internet e mesmo nos bastidores sempre que o assunto é o Ensino Superior gratuito na região, estaremos em maus lençóis. Teremos a industrialização de diplomados que engrossarão a já gigantesca relação de mais de 240 mil desempregados da População Economicamente Ativa da região.
À época da entrevista da jornalista Malu Marcoccia com Moura e Castro, falava-se no Grande ABC sobre a Universidade do Trabalhador, um sonho que o empresário Abraham Kasinski, fundador da Cofap, acalentava para elevar o nível de qualidade principalmente dos metalúrgicos num momento em que a abertura econômica metralhava milhares de vagas liberadas pelos investimentos tecnológicos.
Vale a pena reproduzir alguns trechos da entrevista temporalmente indestrutível. Moura e Castro só fez uma ressalva: não pronuncia o verbete universidade. Prefere Ensino Superior.
“Recebi um maço de exemplares de LivreMercado. Dando uma olhada, vejo pelas matérias apresentadas que você já tem a resposta (sobre as dificuldades que o Grande ABC encontra para ganhar competitividade tecnológica). É juntar o povo para lutar pragmaticamente por uma causa comum. É esquecer a ideologia, ajudar o governo e não esperar que resolva o problema. Um exemplo brilhante foi o Vale dos Sinos (no Rio Grande de Sul), que levou uma trombada na abertura econômica e quase levam a breca. Mas a alemaozada se juntou, pôs de lado a rivalidade, pôs de lado o cada-um-por-si, arregaçou as mangas e meteu mãos à obra. Está bem adiantada a tarefa de salvar a indústria de calçados. Acho que valeria a pena examinar com cuidado o processo de recuperação daquela indústria e daquela região”.
“Só prosperidade e crescimento criam emprego. Há que se preservar e desenvolver a atratividade econômica da região. Isto se faz facilitando a vida das empresas. A paz social é um dos facilitadores mais importantes. É preciso contar com o pragmatismo e a maturidade do movimento sindical do Grande ABC. É preciso um pacto para tornar a região atraente. (…) O caminho é fazer o Grande ABC mais atrativo, capitalizando na experiência e nas vantagens de escala e de infra-estrutura. Afinal, a indústria não se localizou na região por engano, por equívoco”.
Como se observa por esses fragmentos retirados da entrevista com Moura e Castro, ainda estamos longe da força-tarefa que deveria pressionar o deputado Ivan Valente a deixar de lado o romantismo acadêmico de modo a colocar o projeto de lei na trilha desenvolvimentista.
Voltaremos dia destes a um assunto sobre o qual escrevemos fluvialmente nos últimos três anos na newsletter Capital Social Online. Mais que contar com uma universidade federal, precisamos desenhá-la para o desenvolvimento econômico, conectada com as demandas do mercado de trabalho, sem trafegar pela mesma via das instituições que de uma forma ou de outra já estão na praça.
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