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Regionalidade
Sociedade sem alma
DANIEL LIMA 28/04/2008
Liderança de verdade é isto: o presidente da Bridgestone Firestone no Brasil, o mexicano Humberto Gómez, afirma na Reportagem de Capa de LivreMercado de abril que a corporação que dirige precisa ganhar alma.
Sei lá a repercussão entre conservadores deste Grande ABC provinciano. Detenho informações sobre reações naquela corporação: o presidente foi muito bem compreendido. Mais que isso: o presidente foi compreendido, respeitado e metabolizado. E os colaboradores entenderam o significado do recado.
Transponho a declaração do dirigente da segunda maior unidade mundial dessa multinacional de capital japonês para o ambiente da administração pública: já imaginaram se qualquer um dos prefeitos dos municípios da região dissesse o mesmo?
Seria um auê danado, porque invariavelmente poucos estão preparados para a crítica.
Está certo que Humberto Gómez pode dizer o que disse sem que alguém mais afoito o considere um falastrão porque estava se referindo a uma empresa que tem alcançado resultados operacionais, econômicos e financeiros extraordinários. A reestruturação pela qual passou a Bridgestone Firestone em Santo André é um case de sucesso em qualquer geografia mundial.
Mas é exatamente por isso que o mexicano que comanda a BF merece duplo aplauso: embora pudesse omitir o buraco mais que científico que suas antenas e uma consultoria especializada captaram na empresa, preferiu transformar o desvio em informação pública que longe está de macular a imagem da corporação.
Pelo contrário: ao balizar objetivos à frente da companhia, incluindo relacionamento interno e externo mais participativo, Humberto Gómez mandou também um recado a corporações e instituições de todos os gêneros: o automatismo funcional tanto no chão de fábrica quanto nas áreas de gerenciamento pode sim estabelecer uma cadeia de produção e de produtividade que lubrifique as engrenagens do negócio, mas não aquece o relacionamento pessoal intramuros e extramuros.
E, infelizmente, esse é o roteiro que fez do Grande ABC industrial senão uma selva de interpessoalidade, no mínimo um ambiente de omissão nos mais diferentes campos sociais. Quando muito, o que aqui instalamos ao longo de décadas foram grupelhos fechados, insensíveis ao conjunto da obra de esquartejamento da cidadania que é baixíssima e que só os incautos e despreparados endeusam. Pobres coitados: eles não conseguiram ao longo dos tempos entender que tudo não passava de corporativismo. De metalúrgicos a associações empresariais.
Já escrevi sobre as fragilidades institucionais do Grande ABC ao longo dos tempos. O livro “Complexo de Gata Borralheira” é um chute bem dado nos fundilhos de um autarquismo municipalista que se agrava por conta da compartimentação dos mais diferentes agentes sociais, econômicos, culturais, acadêmicos e políticos. Somos um região que se deleita com a burrice do jogo de perdas contínuas, do jogo em que se parte e reparte e todos ficam com a menor parte.
O executivo Humberto Gómez chegou apenas recentemente ao Brasil, provavelmente desconhece minúcias da cultura regional, mas a mensagem que enviou à corporação que preside em Santo André é inspiradora à retomada da pauta da integração regional. Mas quem se preocupa com isso por aqui? Ainda mais em ano eleitoral!
Somos uma sociedade sem alma e, em relação à Bridgestone Firestone, perdemos de goleada porque aquela empresa é eficiente, gera riquezas, multiplica tributos.
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