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Regionalidade
Clube dos Vereadores
DANIEL LIMA 27/10/2009
Não bastasse o Clube dos Prefeitos, agora temos também o Clube dos Vereadores. A chamada Frente Parlamentar do Grande ABC surge no teatro de operações político-administrativas da região para fazer parceria com o Consórcio Intermunicipal de Prefeitos.
Calma lá, porque não vou destilar ceticismo exagerado.
Querem saber o que penso de verdade? Nada mais providencial que a chegada do Clube dos Vereadores, porque, por essas circunstâncias da vida, aporta no Grande ABC justamente no momento em que o Clube dos Prefeitos está prestes a ganhar ossatura de formalidade, como anuncia o prefeito José Auricchio Júnior, titular da entidade.
O que muda, afinal? Teoricamente, bastante. Ao sair do compartimento de comodismo de entidade sem fins lucrativos e ganhar a ribalta de autarquia, as portas de avanços estarão abertas à formação de convênios tanto com o governo estadual quanto com o federal, além de captar recursos, organizar concursos públicos, entre outras atribuições que colocariam o Clube dos Prefeitos longe de qualquer proteção à inoperância histórica, estabelecendo mais desafios.
Inoperância histórica sem dúvida, porque há quase duas décadas o Clube dos Prefeitos está aí e os resultados são pífios, muito aquém das virtudes individuais dos prefeitos que o formam e o formaram.
Um simples digitar no espaço de busca deste site, tanto em “Consórcio Intermunicipal” quanto em “Clube dos Prefeitos” captará série de análises que este jornalista fez da entidade. Aliás, acabo de partir da sugestão à prática e eis que, só sob “Clube dos Prefeitos”, há 72 artigos. E olhem que ainda não postei pelo menos duas dezenas de textos que vou retirar de meus arquivos digitais.
Exatamente porque está às portas da operacionalidade técnica respaldada pela legislação, o Clube dos Prefeitos não pode deixar de gozar da companhia do Clube dos Vereadores. A reprodução da constitucionalidade federativa no âmbito municipal, de Poder Executivo e Poder Legislativo, é a pedra de toque para que o Clube dos Prefeitos e o Clube dos Vereadores explicitem a vontade popular das urnas. Mas não é tudo. Ou está longe de ser quase tudo.
A reestruturação do Clube dos Prefeitos não pode se limitar às prerrogativas de autarquia e suas variáveis. É preciso que a instituição vá muito mais longe, inclusive no chamamento da sociedade à composição de espécie de Conselho Consultivo, como tanto defendia o então prefeito Celso Daniel, principal idealizador da instituição.
A semântica perniciosa e exclusivista de que a sociedade já estaria representada por conta dos votos obtidos pelos chefes de Executivo e também pelos titulares de cada uma das casas parlamentares não chega a ser um jogo sujo, mas beiraria a isso. Trata-se de protecionismo corporativista sem cabimento quando o que está em jogo é o planejamento do futuro regional, já que o presente e o passado foram inacreditavelmente improvisados ao sabor primeiro da ocupação industrial e, em seguida, dos desarranjos sociais metropolitanos.
A democratização desse espaço que, bem instrumentalizado, poderia contribuir grandemente para alterar a face árida de integração regional, é condição mínima para o espraiamento de conceitos de regionalidade. Os atuais e escassos nichos de estudos de intersecção municipal não passam de territórios de sonhadores ou teimosos.
Não sei o que o ex-vereador, ex-secretário municipal e discípulo de ouro do prefeito Celso Daniel, o professor e arquiteto Klinger Souza, andou aprontando na reunião da semana passada com representantes dos legislativos locais. As notícias que li a respeito da palestra proferida a 22% dos 108 vereadores do Grande ABC que participaram do encontro não reproduzem detalhes da intervenção de Klinger Souza, apenas os efeitos do encantamento provocado.
Como conheço a argamassa ideológica e acadêmica do homem que seria o substituto de Celso Daniel na Prefeitura de Santo André, não fosse tudo aquilo que ocorreu, não tenho dúvidas de que ele atingiu o âmago das expectativas.
Klinger de Souza é convincente entre outros motivos porque é competente e tem muito a colaborar para proporcionar o encaixe doutrinário e técnico de que tanto o Clube de Vereadores como o Clube de Prefeitos carecem. Aliás, não por acaso participou das duas edições históricas de “Nosso Século XXI”, a maior obra coletiva que o Grande ABC já editou.
Resta saber se a ciumeira natural do mundo político não cortará as pernas de Klinger Souza. O que seria um despropósito com o Grande ABC. Clube de Prefeitos e Clube de Vereadores não são um paraíso antes do pecado capital, mas também não precisam ser Sodoma e Gomorra.
Sei também que andaram citando o nome deste jornalista como elemento a reforçar os quadros de integracionismo regional. Agradeço penhoradamente, mas acredito que o foro adequado a minhas participações é exatamente este, neste site. Por força da obrigação profissional de conhecer o chão em que vivo, reúno farto material do Clube dos Prefeitos e também da primeira versão do Clube dos Vereadores, deflagrada em meados da última década do século passado pelo então vereador Vanderlei Siraque.
Por falar em Vanderlei Siraque, deputado estadual em terceira legislatura, o Clube dos Deputados seria igualmente bem vindo no organograma de institucionalidade do Grande ABC.
Ou alguém defende tese em contrário, de que os nossos deputados estaduais (parece que são oito) não têm nada a ver com o cheiro da brilhantina dos arranjos regionais? Em 19 de julho de 2007, portanto há mais de dois anos, escrevi o último artigo específico sobre o Clube dos Deputados, disponível neste site — exatamente em defesa de participação no Clube dos Prefeitos.
Tanto os deputados estaduais quanto os federais (no caso, em Brasília, o Grande ABC só conta com Vicentinho Paulo da Silva) não podem ser excluídos do processo. Mais que isso: devem também ser escalados como titulares desse jogo em que acumulamos série de derrotas, situação condensada em dados estatísticos que — apesar da reação sob o governo Lula da Silva — nos coloca como a região mais problemática do País sob as rubricas de impactos decorrentes da abertura econômica e de sequelas da guerra fiscal.
Qualquer dia desses alinhavarei algumas ideias que poderiam ser levadas em conta pelo Clube dos Vereadores, mas a principal mesmo é a aproximação com o Clube dos Prefeitos. Não uma aproximação qualquer, diplomática, de boa vizinhança. Clube dos Prefeitos e Clube dos Vereadores são pedaços da mesma laranja de institucionalidade do Grande ABC que se completará com a representação de cabeças pensantes da sociedade, além do Clube dos Deputados.
Cabeças pensantes? Sim, temos gente qualificada nas áreas social, cultural e econômica que só precisa ser pinçada do anonimato, porque é recomendadíssima nos meios em que atua. Há excelências regionais desconhecidas do grande público ou das grandes decisões porque prevalece um grupo esfomeado demais por espaços midiáticos, numa combinação acomodatícia com produtores de informações que não saem das mesmices.
O Grande ABC tem também uma vocação insuperável a desprezar os pratas da casa e a encher a bola de celebridades externas que estão longe de notabilidade. O nosso Complexo de Gata Borralheira é uma tranqueira comportamental que só será minimizada quando formadores de opinião e tomadores de decisões resolverem exorcizá-lo sem o mecanismo frouxo do triunfalismo.
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