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Política
Por que São Caetano deu
tantos votos a Enéas?
DANIEL LIMA 11/10/2002
Como pode a badalada São Caetano, Capital da Qualidade de Vida na Grande São Paulo, um quase oásis de tranquilidade em meio à selva de violência e exclusão, registrar 12,4% dos votos válidos ao candidato a deputado federal Enéas Carneiro? Vasculhei a votação de Enéas Carneiro por tudo quanto é município e não há caso similar ao de São Caetano.
A média de votos para o exótico candidato do Prona — o rinoceronte Cacareco de outros tempos e o seu Creysson destes tempos eletrônicos — é simplesmente 50% maior que a média no Estado de São Paulo. Supera em mais de 20% o índice de 10,1% que os eleitores da Região Metropolitana de São Paulo dedicaram ao 5656 metralhado autoritariamente no vídeo.
Por que Enéas foi avassalador na pequena e confortável São Caetano se em Ribeirão Preto não passou de 7% dos votos válidos, em Guarulhos de 8,8%, em São José dos Campos de 4%, em Sorocaba de 5,2%, em Bauru de 3,8%, em São José do Rio Preto de 7,5%, em Santos de 3,3% e em Guararapes, onde nasci, de 8,4%?
Parte da explicação está no fato comum de a Região Metropolitana de São Paulo, periferia da Capital, não contar com programação eleitoral gratuita própria nas emissoras abertas de televisão. Com isso, os eleitores são submetidos à pregação concentrada dos candidatos que dominam os partidos e distribuem o tempo regulamentar a si próprios e a seus protegidos, a maioria dos quais, portanto, domiciliada na Capital. Enéas, como todo mundo sabe, é o dono do Prona e faz do Prona o que bem entende. Faz de alguns metros quadrados latifúndio ou de alguns segundos, horas de exacerbação.
Então, estamos combinados: São Caetano é recordista na bizarrice de votar em Enéas Carneiro porque está na penumbra televisiva da Região Metropolitana de São Paulo e, como os demais municípios periféricos, gataborralherescos, foi bombardeada pelos comerciais explosivos de Enéas Carneiro.
Mas isso é apenas parte da verdade porque Santo André, com 9,2% de votos válidos para Enéas, São Bernardo com 8,5%, Ribeirão Pires com 9,5%, Mauá com 7,7%, Rio Grande da Serra com 8,3% e Diadema com 8% também fazem parte da RMSP e, como se observa, não chegaram a número tão proeminente.
Portanto, quais são as outras explicações?
O perfil do morador de São Caetano poderia ajudar a desvendar o aparente mistério. Dona da população mais idosa do Estado depois de Santos, São Caetano pode ter predileção conservadora arraigadamente forte. Se esse enunciado tem fundamento, por que então a Santos de idosos só registrou 3,3% dos votos válidos para o detentor da marca Prona? Parte da explicação é que Santos tem emissoras locais de TV aberta, afiliadas das principais redes, e o horário eleitoral gratuito é dominado pelos caciques políticos locais, o que amplia a possibilidade de massificar nomes domésticos. Mas, mesmo assim, a diferença em relação a São Caetano é enorme e também pode ser explicada pela tradição centro-esquerdista da Capital da Baixada Santista. Lá, os idosos e seus descendentes são diferentes dos idosos e descendentes de São Caetano.
Será que uma parte mais expressiva da população de São Caetano está dando uma banana para a democracia política do País e escolheu acentuadamente Enéas Carneiro para mandar o recado, recrudescendo um sentimento do eleitorado estadual que sufragou o concorrente do Prona? Sim, porque a exumação dos votos a Enéas indica que são eminentemente de protesto com pouca substância ideológica. Protesto que resvala no deboche ou, melhor ainda, deboche que resvala no protesto.
São Caetano não tem perfil de engajamento político-ideológico de uma Diadema, por exemplo, para enxergar em Enéas Carneiro apenas o que alguns sociólogos que se projetam inocentemente no eleitorado enxergam: que se trata de um alinhamento à direita conservadora de discurso grave. Está certo que o prefeito Luiz Tortorello é de direita, mas em nada mais se parece com o exotismo de Enéas. É inconcebível imaginar que parte dos 12,4% votou em Enéas Carneiro de olho em Luiz Tortorello. Fosse o discurso direitista uma boa argumentação ao sucesso do deputado federal mais bem votado no País, a esquerdista Diadema o teria simplesmente dinamitado e não lhe reservado 8% dos votos válidos.
Outra provável explicação para o recorde de Enéas Carneiro em São Caetano é que o nível de insatisfação financeira da população desse Município de 15 quilômetros quadrados de área é maior do que se imagina. Sim, porque a classe média-média que prevalece em São Caetano se soma à longevidade domiciliar também em média mais elevada que a dos demais municípios da RMSP como elementos pragmáticos na avaliação das políticas econômicas do governo federal que, como se sabe, aniquilou boa parte da riqueza regional, à sombra da indústria automotiva.
Trocando em miúdos: por ter uma população mais uniforme na distribuição de renda e que reside há mais tempo no Município, a ponto de torná-la largamente a mais bairrista da região, São Caetano acumula massa crítica semelhante nos condimentos socioculturais e econômicos que se retroalimenta e se transforma num caldeirão específico de baixa ideologização. Entenderam?
A cara de Enéas Carneiro que emergiu das urnas eletrônicas em São Caetano, portanto, não é obra do acaso. É provável que uma apuração das urnas em bairros assemelhadamente socioeconômicos de Santo André e de São Bernardo em relação ao conjunto quase padronizado de São Caetano chegue à conclusão de que Enéas Carneiro também foi sufragado largamente. Na média, com a inclusão de diferentes bairros de perfis variados, o Enéas Carneiro de Santo André e de São Bernardo acabou ganhando novo formato. Isoladamente, o Bairro Jardim, em Santo André, e o Jardim do Mar, em São Bernardo, reproduziriam o perfil comportamental do contribuinte-eleitor de São Caetano.
São tantas as alternativas de explicação que, finalmente, posso chegar à conclusão mais próxima da verdade e que, no fundo, é um agregado das anteriores: São Caetano expressa uma classe média insatisfeitíssima com o governo federal, porque foi tremendamente penalizada com as mudanças macroeconômicas nos últimos anos, desde o Plano Real. Como tal, ao dirigir-se às urnas, tratou em larga escala de desprezar qualquer outro candidato que simbolizasse racionalidade eleitoral, preferindo aquele barbudo sobre o qual poucos sabem tratar-se de um médico respeitadíssimo.
Enéas foi uma espécie de luva de boxe que parte da classe média dos centros urbanos mais atingidos pelo rebaixamento econômico decidiu fazer uso sem maiores incursões ideológicas. Mesmo em São Caetano, cuja população se gaba de altos indicadores sociais mas, dado o esvaziamento econômico, procura outros municípios para exercer atividades profissionais e, com isso, sente as dores das mazelas mais pronunciadas na Grande São Paulo.
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