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Política
Página virada ou em branco?
DANIEL LIMA 20/10/2009
O deputado estadual Vanderlei Siraque, ouvido por este site em entrevista que segue constando da página inicial, deu o tom do que já vem sendo a disputa entre situação e oposição municipal em Santo André. Ao devolver ao prefeito Aidan Ravin em forma de réplica com tonalidade fiscalizatória o fantástico mote do segundo turno da campanha eleitoral que levou o petebista à vitória contra o petista, a tal “Página virada”, Siraque não caiu na esparrela da falta de criatividade e no ranço oposicionista de ataque rasteiro tão comum na política. “Página em branco” é uma sacada e tanto para quem também observa política como arte publicitária e de marketing — até porque não faltam publicitários e marquetólogos nos partidos.
Mais que isso, “Página em branco” é cortante e desafiador. Que Aidan Ravin se prepare para desatar os naturais nós do governo que se iniciou em janeiro. E não acredite que bastará o apoio logístico de parte da mídia impressa para safar-se de eventuais pecadilhos, porque política é mesmo assim. Não há veículo impresso em circunstâncias normais de tiragem que tenha massa crítica suficiente para alterar profundamente a percepção dos contribuintes sobre qualquer coisa, inclusive gestão pública. Quanto muito apropria-se com algum grau de tutela de uma parcela da classe média sempre pronta a terceirizar acriticamente determinadas responsabilidades.
Até que ponto a bomba do “Página em branco” que Vanderlei Siraque impôs na entrevista à Aidan Ravin terá força ao longo da administração do petebista?
Eis uma pergunta cuja resposta também só o tempo dará. Certo mesmo é que os marqueteiros de Aidan Ravin, que estão muito além do território do Paço Municipal, e que também passam por prédio próximo, não são amadores.
Eles estão sempre atentos. Para preencher os espaços em branco atribuídos por Vanderlei Siraque, o prefeito que Santo André elegeu num segundo turno impressionantemente sem paralelo no Brasil, terão de trabalhar um bocado. Ou alguém duvida que o PT, mesmo subdividido em facções, une-se para valer quando na oposição?
O maior problema do PT é controlar suas feras quando está no poder, principalmente às vésperas de eleições. Quando está desalojado de um Paço Municipal, como em Santo André, a tendência é de solidariedade. Pelo menos de uma certa solidariedade que se confunde com instinto de sobrevivência.
Nesse ponto, Vanderlei Siraque dá exemplo de desprendimento. Afinal, com o cacife de uma votação expressiva em Santo André, apesar da derrota, poderia ditar as regras do jogo eleitoral do ano que vem. Preferiu a paz. Aceitou a candidatura a deputado federal e abriu espaço para o ex-prefeito João Avamileno à Assembléia Legislativa. Siraque poderia bater o pé e provocar rupturas mas, até onde se sabe, optou por encaminhamento conciliatório. O favoritismo de Vanderlei Siraque à legenda petista em 2012 em Santo André pode até ser contestado por um ou outro, mas é a consequência lógica de uma série de variáveis que, agora, não precisam ser expostas.
A presteza com que Vanderlei Siraque respondeu às 21 questões elaboradas por este jornalista mostra uma das faces do escolhido pelo PT às eleições em Santo André no ano passado: ele não costuma deixar a bola de informações quicar por muito tempo. Em menos de 24 horas estava lá no computador o conjunto de respostas do deputado.
Como não sou de frequentar bastidores políticos, rotina dos setoristas dos jornais, e como também não dou muita bola para os corredores dos Paços Municipais, costumo diagnosticar os entrevistados com o casamento de contatos telefônicos e encontros pessoais nada apressados.
Tanto numa situação quanto noutra, concentro-me mais do que alguns imaginam na captura de pontos frágeis e fortes, segundo minha ótica particular. Vanderlei Siraque é melhor do que parece, diria sem medo de errar. A simplicidade do petista obscurece muitos pontos fortes, inclusive a formação acadêmica. Mas é no campo da praticidade, de trabalho, de determinação, que Vanderlei Siraque impressiona mais.
É claro que para construir mesmo que provisoriamente o perfil de quem quer que seja costumo ouvir pessoas ao redor, a circunvizinhança. Tanto a favor como contra. Mas o que mais pesa mesmo são minhas observações em pontos nevrálgicos e declarações de terceiros que não se deixam influenciar com facilidade ou por interesses inconfessos. Gente com um mínimo de capacidade de reflexão, diria.
Por isso, chego à conclusão que Vanderlei Siraque é mesmo melhor do que parece. Quando acrescentar ao brilho nem sempre reconhecido um pouco mais de charme nas declarações, um pouco mais de metodologia nas exposições, principalmente ao público de classe média, enfeixará novas camadas de popularidade.
Vanderlei Siraque não tem o mesmo carisma de Aidan Ravin, que é um campeão nessa modalidade de mensuração intangível, mas transmite a sensação de que tem mensagens consolidadamente mais duradouras e confiáveis. Esta é apenas uma impressão, com base em observações, repito. Nada definitivo, mas também nada desprezável ou desprezível.
Uma avaliação aprofundada das respostas de Vanderlei Siraque a este CapitalSocial talvez ainda se dê, mas há algo que salta à vista e que não é surpresa alguma: Siraque é mesmo um dos herdeiros da regionalidade liderada no âmbito público por Celso Daniel.
Talvez não o seja no grau desejado e necessário porque há uma década está preso à agenda da Assembléia Legislativa e também porque o temário é quase imperceptível na maioria da Imprensa do Grande ABC. Mas está a léguas de distância da quase totalidade dos legisladores locais que atuam tanto na Câmara de Vereadores quando na Assembléia e em Brasília.
Vanderlei Siraque não é oportunista quando se refere ao legado de Celso Daniel. Diferentemente, portanto, de tantos outros que, sempre às vésperas de eleições, se entregam às mensagens dos eleitores, captadas em pesquisas de opinião pública.
Página virada e Página em branco ainda vão dar muito o que falar em Santo André, acreditem. Provavelmente o petebista já esteja preparando uma tréplica. Esse jogo começou e parecia ter terminado com a tirada marquetológica fenomenal do segundo turno no ano passado. Vanderlei Siraque demorou mas lançou uma réplica de peso. O jogo promete.
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