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Política
Dib é o Marinho de Serra?
DANIEL LIMA 29/09/2009
Quem com o ferro das circunstâncias fere, com o ferro das circunstâncias será ferido. Não está fora de cogitação, nas estripulias da política, que o ex-prefeito de São Bernardo, William Dib, seja o Luiz Marinho do governo José Serra. Explico: o novo tucano que está na praça, agora sem trucagens porque de fato sempre foi tucano na prática, pode virar ministro do possível presidente da República José Serra e, com isso, dar o troco nos petistas que, abençoados pelo presidente Lula da Silva, elegeram Luiz Marinho prefeito de São Bernardo.
Não me venham dizer que isso é ejaculação mental porque em política tudo é possível, inclusive o impossível, e essa conjectura está longe de especulativa.
William Dib não resolveu ir de mala e cuia para o PSDB apenas em troca de uma legenda a deputado federal, porque isso ele também teria no PSB, no qual era íntimo da cúpula. Também não foi embora apenas porque o PSB estará com o candidato presidencial do PT, Dilma Roussef ou Ciro Gomes. Dib sabe que precisará de mais votos como tucano do que como estrela do PSB para chegar a Brasília. Dib foi para o ninho tucano porque quer ser o Luiz Marinho amanhã. É o chamado efeito Orloff nas eleições de 2012 em São Bernardo.
Se o poder de fogo de José Serra para ajudar a eleger William Luiz Dib Marinho em São Bernardo seria proporcional ao de Lula da Silva é outra história. Provavelmente nem será preciso. O ex-sindicalista e ex-ministro da Previdência Social e do Trabalho saiu de base de eleitores modesta quando anunciou candidatura, enquanto William Dib governou São Bernardo durante seis anos. Marinho jamais havia se submetido a uma disputa eleitoral fora do ambiente sindical.
Que Luiz Marinho coloque as barbas de molho porque por melhor que venha a ser o desempenho à frente da Prefeitura de São Bernardo, por mais que tenha o controle da máquina pública nas eleições de 2012, por mais que encontre razões para considerar-se favorito, um William Dib ministro de um presidente José Serra não será adversário qualquer. Muito pelo contrário.
William Dib ainda não esqueceu a derrota de seu candidato Orlando Morando em São Bernardo. Muito menos a campanha que uma facção mais destrutiva de reputações do PT imprimiu muito tempo antes de sequer se definir o candidato do Paço Municipal. Algo muito semelhante ao que o então candidato Aidan Ravin contou no segundo turno em Santo André, numa operação de emergência que não mediu esforços para esfolar a imagem de Vanderlei Siraque.
A guerra de guerrilhas que o PT impôs a William Dib em São Bernardo ajudou a minar a candidatura de Orlando Morando. Dib não esquece. O transbordo para o PSDB o coloca intimamente no mesmo barco do possível presidente da República e, mais que provável, novo governador do Estado, Geraldo Alckmin, que, como tantos outros tucanos de rica plumagem, compareceu à cerimônia de filiação de William Dib.
O que mais satisfaz nesse enredo todo é que na noite desta segunda-feira de lotação total do salão de festas da Associação dos Funcionários Públicos de São Bernardo quem ganhou foi o Grande ABC, território tão maltratado por políticos de outras paragens. Reunir o governador do Estado, o prefeito da Capital, Gilberto Kassab, o ex-governador Orestes Quércia e tantas outras figurinhas carimbadas tem significado emblemático do qual precisamos extrair dividendos sociais e econômicos. Os orçamentos das prefeituras locais estão muito aquém das demandas da sociedade, principalmente das periferias.
Com quase dois milhões de eleitores, o Grande ABC não é um espaço territorial qualquer para ser atirado às feras do desinteresse partidário. A atratividade do eleitorado, entretanto, não pode ser utilitária apenas.
A representatividade ideológica do Grande ABC, metade vermelha, metade azul, muitas vezes é instrumentalizada como ponta de lança de conquista de outros territórios. Explico: nas pesquisas eleitorais que virão, os números que envolverão petistas e tucanos nas disputas para o governo do Estado e a presidência da República poderão dar o tom de aprovação ou de reprovação tanto de uns quanto de outros. Ou estou enganado quando escrevo que um resultado de pesquisa que aponte eventual domínio de José Serra sobre a candidatura de Dilma Roussef em São Bernardo teria efeitos colaterais além território do Grande ABC?
Quem não acreditar nisso subestima o glamour com que foi tratada a filiação de William Dib ao PSDB. A maior liderança regional do espectro político opositor do PT no Grande ABC foi paparicada o tempo todo. Os tucanos sabem muito bem que sair na frente nas pesquisas eleitorais no Grande ABC passou a ser também importante para transmitir garra e maior empenho do partido em outros endereços.
Não vou chegar ao ponto de reproduzir uma bobagem de uma jornalista que nas últimas eleições presidenciais atingiu o extremo de afirmar que as pesquisas eleitorais do Grande ABC dispensavam outras sondagens porque o desenho socioeconômico regional era um repeteco do País. Fosse tão simples assim os institutos de pesquisas não precisariam distribuir entrevistadores por diversos endereços brasileiros, de acordo com a metodologia mais adequada para conhecer o sabor de um prato de sopa sem precisar tomar toda a sopa.
Há quase uma obrigação do PT, por conta dos movimentos históricos a partir de São Bernardo, de superar os tucanos no Grande ABC. A derrota de Vanderlei Siraque para Aidan Ravin não significou apenas uma imensa zebra depois de o candidato petista ficar a menos de um ponto percentual da vitória no primeiro turno. O resultado, consequência de ação de bastidores riquíssima em recursos financeiros e em maliciosidade para capturar o eleitorado, garantiu uma maioria dos tucanos e aliados no Clube dos Prefeitos, entidade que pode não ser lá essas coisas em resolutividade, mas tem peso político que possibilitou supremacia numérica estratégica.
Os tucanos começaram melhor a disputa presidencial no Grande ABC porque conseguiram transformar o que já era uma realidade, a adesão de William Dib ao candidato José Serra, em algo muito especial, de convocação ao engajamento explícito do eleitorado mais conservador.
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