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Política
Desmanche geral
DANIEL LIMA 28/11/2007
Para entender o desmanche geral da administração Celso Daniel-João Avamileno, anunciado ontem com a renúncia coletiva do secretariado que apoiou a candidata derrotada Ivete Garcia nas prévias do Partido dos Trabalhadores, sugiro aos leitores que descartem qualquer declaração conciliatória ou contemporizadora.
Tudo não passará de encenação. A realidade nua e crua é que as chamas mais que chamuscaram o partido e a administração municipal. As labaredas atingiram também a sociedade como um todo, que pagará o preço de uma transição forçada.
Os reflexos se estenderão muito além do que imaginam os mais céticos. Vão chegar tranquilamente às eleições municipais do ano que vem. O advogado Raimundo Salles e outros oposicionistas menos potencialmente votáveis comemoram. Sem mexer uma única palha, ganharam um presente antecipado de Papai Noel de 2007, quem sabe até de 2008.
O que mais surpreende em todo o episódio é a incapacidade de o PT como agremiação política não ter se antecipado ao desastre. Até que ponto os caciques municipais, regionais, estaduais e mesmo federais perderam a sensibilidade para detectar o terremoto? Será que Santo André é tão desimportante assim para não contar com um grupo pensante para situações especiais?
A tragédia petista foi mais que anunciada. Qualquer interlocutor minimamente inteligente e bem informado sabia o que poderia acontecer após a apuração dos votos em segundo turno. Principalmente porque o prefeito João Avamileno acenou com demissões de alguns secretários supostamente insubordinados assim que as prévias determinaram a vitória do deputado estadual. Antes disso e com exclusividade (que os jornais copiaram na edição seguinte) alertamos aqui na semana passada que havia a perspectiva de renúncia coletiva do secretariado caso Avamileno partisse para retaliações.
Goste-se ou não, o fato é que cabe a João Avamileno a parcela majoritária pelo esquartejamento do PT.
A diferença de 22 votos a favor de Vanderlei Siraque foi comemorada e até mesmo saudada por alguns jornais como vitória do prefeito. A avaliação é descabida e insensata tanto quanto dizer que o Santo André se safou com folga do rebaixamento à Série C do Campeonato Brasileiro só porque terminou a competição seis pontos acima do degolado Paulista de Jundiaí. Como se sabe, a equipe só se livrou da queda na última rodada.
Disse ontem João Avamileno em entrevista coletiva que se surpreendeu com a retirada unânime dos secretários fiéis ao grupo de origem da cúpula do governo Celso Daniel. Mais uma confissão tácita de despreparo em analisar o terreno gerencial, político e eleitoral. E de que também não contava com assessoria para assuntos bélicos.
Disse também o prefeito que jamais afirmou em reunião do secretariado que Vanderlei Siraque estava fora de seus planos nas prévias. Não é verdade. Ouvi de vários secretários a afirmativa em contrário. Até mesmo para corrigirem uma informação que transportei para este espaço. Afirmei na semana passada que João Avamileno se declarou favorável à candidatura de Ivete Garcia numa das reuniões com o secretariado. De fato, de fato, o apoio à candidatura da mulher de Mário Maurici foi indireto, decorrente da negativa em apoiar Vanderlei Siraque.
Os sismógrafos do PT deixaram escapar até mesmo o princípio da derrocada partidária quando João Avamileno deu sinais de que apoiaria Vanderlei Siraque antes de anunciar a decisão numa edição de sexta-feira do Diário do Grande ABC. João Avamileno só se decidiu em tornar público o que já praticava nos bastidores, tanto quanto os secretários que apoiavam Ivete Garcia, depois de obter a garantia sobre algumas questões que julgava importantes e relacionadas ao tratamento que a principal mídia (porque diária) do Grande ABC daria ao caso.
Um almoço com Ronan Maria Pinto tratou de assegurar a neutralidade de pisar em ovos do jornal. Entenda-se neutralidade como preferência de rota informativa que se baseia principalmente nos cuidados ao se caminhar sobre um cabo de aço a 100 metros de altura, sob vento intenso e sem direito a interromper a caminhada trôpega até o outro lado.
Imparcialidade é outra coisa, como se sabe ou deveria saber o leitor menos atento. Trata-se de desafiar os obstáculos, lutar intensamente pela informação qualificada, doa a quem doer, e não se deixar levar por ameaça de espécie alguma, muito menos por eventuais vantagens.
A reconstrução do PT em Santo André é obra para alguns pares de anos porque a louça foi quebrada e a recomposição deixa marcas indeléveis. Sem juízo de valor sobre os novos secretários da administração João Avamileno, o grupo dissidente que se foi e muitos outros funcionários de segundo e terceiro escalões levaram mais que lembranças e pertences materiais. Eles carregam insumo básico que qualquer corporação, por menor que seja, custa a reconstruir porque está diretamente relacionada ao capital humano.
Trata-se de cultura profissional, no sentido mais amplo e profundo da expressão. Atributo que a maioria dos maus empresários desconhece e que administradores públicos descuidados sempre encontrarão justificativas para jogar na lata do lixo.
Os melhores quadros do funcionalismo público de primeiro escalão das prefeituras do Grande ABC, tanto pelos valores individuais como pelo entrosamento coletivo, deixaram o prefeito João Avamileno a ver navios.
Santo André vive, depois da morte de Celso Daniel, sua maior tragédia. O terceiro assassinato está consumadíssimo.
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