Imprensa

30ANOS: Grande ABC vive
criminalidade sem freios

  DANIEL LIMA - 04/11/2020

O Grande ABC daquele setembro de 2000 retratado por este jornalista nas páginas de papel da revista LivreMercado era uma sinistra combinação de criminalidade em alta e economia em processo de derretimento que vinha do passado. Relendo hoje aquela análise de 20 anos detecto um ponto de avanço regional:  sofremos muito com o empobrecimento que segue, mas contamos com a vantagem de que o Estado resolveu intervir para valer na Segurança Pública, mesmo que ainda aquém da demanda. 

Esta é a centésima-sexagésima-sétima edição da série 30ANOS do melhor jornalismo regional do País, de LivreMercado e de CapitalSocial. Não dá para não ler.   

República Sindical,

República Criminal  

 DANIEL LIMA - 05/09/2000 

A máscara do rebaixamento da qualidade de vida do Grande ABC caiu de vez e nem de longe tem semelhança com o estardalhaço festivo que marcou a queda de outra máscara, da deslumbrante Feiticeira, nas páginas de Playboy.  O fechamento do comércio e de escolas de cinco bairros de São Bernardo em represália à morte de um traficante na cadeia pública ganhou o noticiário de jornais, rádios e emissoras de televisão provavelmente com o mesmo impacto com que no final dos anos 1970 os metalúrgicos comandados por Lula revolucionaram as relações trabalhistas.   

Entre a República Sindical e a República Criminal existe um histórico de desvios e omissões institucionais e socioeconômicos que ultrapassa a superficialidade do desmantelamento dos quadros policiais. Simplificar o cenário caótico da segurança pública que abala a autoestima de 2,3 milhões de habitantes de uma região ainda cantada em prosa e verso como referência de potencial econômico é acreditar que com um simples binóculo será possível enxergar o mundo.   

Herói-vilão   

Na verdade, não foi a primeira vez e nem terá sido a última que cerrar as portas de estabelecimentos comerciais, suspender aulas e trancar os portões de residências são rituais de pura sobrevivência. O Grande ABC, principalmente São Bernardo e Diadema que concentram o maior naco do PIB e do desemprego regional, já vive essa situação faz tempo. Muitos casos seguem no anonimato e na impunidade. Poucos aparecem na mídia impressa e eletrônica, como o de novembro do ano passado, quando cerca de seis mil pessoas passaram pelo Cemitério do Jardim da Colina, em São Bernardo, durante o funeral de Euler Vidal da Silva.   

Embora tivesse nome de jogador de futebol, Euler era conhecido mesmo por ser apontado pela polícia como traficante e principal criminoso com atividade na área. Quando seu corpo desceu ao túmulo, foi aplaudido freneticamente. Havia tanta gente que o corpo do traficante teve de ser velado ao ar livre. No dia anterior, quando explodiu a notícia sobre a morte de Euler, cinco bairros de São Bernardo foram fechados para o comércio por ordem dos traficantes dos morros da Vila São Pedro. O herói-vilão era espécie de protetor daquela comunidade. Onde a polícia não marca suas pegadas, onde o desenvolvimento econômico tropeça, os bandidos carimbam impressões digitais a bala.   

O que mais dói no peito do Grande ABC não é propriamente o agravamento do nível de criminalidade patente em cada esquina e nos registros policiais, por mais que a população deixe de oficializar queixas de percalços rotineiros em delegacias geralmente tão abarrotadas quanto lentas no atendimento.   

O problema é que não há mais como esconder para o público externo que a região vive espécie de guerra de guerrilhas, com bandidos cada vez mais ousados. Eles abandonaram as ações exclusivamente noturnas, de quem sabe que na penumbra todo gato é pardo. À luz do dia arrancam motoristas dos veículos diante da incredulidade e do temor dos demais. A impunidade garante sob a luz do sol o que a iluminação deficiente assegura à noite.  

O que fere fundo o orgulho provinciano do Grande ABC, principalmente os construtores de artificiais cenografias de prosperidade, é que agora não dá mais para enganar. A região ainda opulenta na economia está despudoradamente nua em segurança pública perante todo o País. De República Sindical, com sua veia corporativa, mas democrática, transformou-se em República Criminal.   

Por mais que tentem transformar a Polícia Militar e a Polícia Civil em protagonistas da explosão de ocorrências no Grande ABC, o que de fato exala cheiro de podridão do tecido institucional é a constatação de que são os bandidos as estrelas dos espetáculos de assaltos, furtos, roubos, latrocínios e tantas outras infrações ao Código Penal. À polícia está reservada toda carga de antipatia dos vilões de telenovelas.   

Baixada Fluminense   

Eleger a Polícia de um Estado historicamente perdulário a grande vilã do fortalecimento da indústria da bandidagem na região, e no País, é tática que serve para desviar a atenção sobre os próprios fracassos das instituições que gravitam no entorno das administrações públicas. Não é de hoje que o Grande ABC ingressou definitivamente no clube de alto risco no Brasil. A Baixada Fluminense já é aqui há muito tempo.   

A periferia do Grande ABC vive em convulsão há muitos anos. Quadrilhas de assassinos e traficantes tomaram conta de cada metro quadrado de exclusão. Transformaram populações inteiras em refém. Caminhões de entrega de alimentos e de eletrodomésticos só ingressam em muitos dos bairros do Grande ABC mediante sinalização codificada de subalternos dos líderes da bandidagem.   

A diferença dos últimos tempos é que agora assaltantes e traficantes descem o morro com mais frequência.  Não há reduto de classe média que não esteja sobressaltado. O Parque dos Pássaros, bairro de classe média-alta de São Bernardo, já superou o estágio de assaltos, furtos e roubos. Chegou aos sequestros, típicos de quadrilhas de traficantes colombianos.   

O rombo no marketing do Grande ABC provocado pelo mais recente incidente policial em bairros de São Bernardo -- e foram tantos que o antecederam, como o caso da Favela Naval -- exuma uma reflexão que poucos se atrevem a formular, porque não é politicamente correto. Trata-se da insofismável avaliação de que a imagem institucional da região vive provavelmente um de seus momentos mais agudamente sofríveis.   

Não bastasse todo o acúmulo de dificuldades que colocam o Grande ABC como periferia da Capital, agora se tem, definitivamente, a face da criminalidade como contraponto a um sindicalismo nem sempre bem entendido, nem sempre maduro, mas reformador de costumes trabalhistas e políticos e, pelo menos, de forte impacto positivo junto à intelectualidade formadora de opinião.   

Efeitos combinados   

Mais polícia nas ruas do Grande ABC vai ter efeito terapêutico importante, como comprovam as estatísticas. Diadema, por exemplo, está conseguindo diminuir a incidência de assassinatos depois que a Polícia Militar passou a colocar mais homens, veículos e equipamentos em áreas de maior risco.   

No primeiro semestre deste ano houve queda de 28% no número de homicídios. Em relação ao mesmo período do ano passado, houve 54 assassinatos a menos este ano. Mesmo assim, 140 corpos tombados em seis meses é um número extravagante. Seriam 280 mortes em 12 meses. Ou perto de 90 homicídios para cada grupo de 100 mil habitantes. Quase quatro vezes a média nacional.   

O problema é que só policiamento nas ruas não resolve. A violência no Grande ABC, como em todas as regiões metropolitanas, é sistêmica. Deriva principalmente dos efeitos combinados de globalização econômica recente e administradores públicos inconsequentes ao longo de décadas. Mais do que qualquer outra região do País, o Grande ABC sofre fundo com as transformações macroeconômicas.   

Nenhuma outra área econômica de tanta densidade populacional acusou tantos golpes de reestruturação produtiva, porque a indústria automotiva e de autopeças foi duramente colocada à prova internacional. Dezenas de milhares de empregos industriais desapareceram no ritmo da competitividade.   

Além das contrações industriais, o comércio foi invadido por grandes empreendimentos sem que nenhuma autoridade pública ousou projetar e enfrentar o impacto da concentração dos negócios gigantes nos estabelecimentos familiares de subsistência.   

O pior de tudo é que ainda não se chegou ao fundo do poço de rebaixamento da qualidade de vida. A reestruturação operacional das indústrias da região não terminou. Ainda há muita água para correr sob a ponte da mundialização dos negócios industriais. A queda do potencial de consumo da região na década de 1990 não chegou a 21,5% por obra do Espírito Santo. O refluxo do poderio industrial oferece o contraponto do debilitamento social.   

Criminalidade crescente   

A criminalidade no Grande ABC vive escalada crescente. Já houve final de semana em que 27 vidas desapareceram -- um recorde histórico. Chacinas antes raras fazem parte do noticiário policial. Roubo de veículos -- isto é, com a presença do motorista -- teve crescimento de 42,5% no ano passado em relação ao mesmo período do ano anterior. Foram 29.174 veículos roubados. O número de furtos -- ação praticada sem a presença do proprietário -- também cresceu na região, com 22.625 registros. Um dos pontos negros do genoma da criminalidade viária do Grande ABC é a Avenida Lions, transformada em corredor do medo. O trecho do Anel Viário é o preferido pelos assaltantes.   

A violência não é, evidentemente, ônus exclusivo do Grande ABC. Tanto que nos últimos 20 anos o número de homicídios no País aumentou 273%, sete vezes mais do que o percentual de crescimento da população brasileira, de 37% entre 1979 e 1998. Houve, nesse período, 515.986 pessoas assassinadas. Quase uma Santo André inteira de cadáveres e o equivalente à população do Acre. A estatística, da Secretaria Nacional de Segurança Pública, registra 11.194 casos de homicídios em 1979, contra 41.802 em 1998. Há aumento médio anual de 1,5 mil crimes.   

No Grande ABC, segundo dados da Polícia Militar, o número de homicídios aumentou 42% entre 1995 e 1998. De 788 assassinatos em 1995, atingiu 1.119 em 1998. Número extraoficial do fechamento de balanço de 1999 aponta 1.250 mortes. Um salto de quase 70% nos últimos cinco anos.   

A falta de preparo e o número reduzido de policiais são faces da mesma moeda para o entendimento da equação da criminalidade. Também faltam equipamentos, logística e melhores salários. Mas no fundo o que pesa mesmo é o subdesenvolvimento. PIB e criminalidade correm na mesma raia. O aumento de um ponto percentual no Índice Gine, um dos principais indicadores usados na medição da concentração de renda, eleva em 3,7% o número de homicídios e em 4,3% o de roubos.   

Recente estudo do Bird (Banco Mundial) conclui que o aumento de um ponto percentual do Produto Interno Bruto reduz, a curto prazo, em até 2,4% o número de homicídios e em 13,7% o de roubos.  "O impacto negativo do crescimento do PIB nas taxas de crimes violentos  indica que a incidência de crimes é contracíclica e que a atividade econômica estagnada reforça a atividade criminal" -- afirma o trabalho elaborado sob coordenação do economista Daniel Lederman, do Bird, e dos pesquisadores Pablo Fanjzylber, da Universidade Federal de Minas, e Norman Loayza, do Banco Central do Chile.   

Como se observa, não há nada de acidental entre o tobogã econômico do Grande ABC e o alpinismo criminal. Até quando as questões envolvendo a economia regional vão estar em segundo plano na pauta dos administradores públicos? 

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