Sociedade

Que tal espalhar Pobrestômetro
nas principais avenidas da região?

  DANIEL LIMA - 28/09/2020

Está no Diário do Grande ABC de hoje que as prefeituras locais contabilizam 79.785 moradores na linha de pobreza extrema nos sete municípios. Lamento informar que os números são muito mais inquietantes porque pobreza não é métrica matemática inquestionável.  

Por conta disso, imaginei num delírio de revolta -- a que todo cristão tem direito -- sugerir a criação de uma réplica social do Impostômetro da Associação Comercial de São Paulo, ferramenta que mede diariamente o tamanho da gulodice do Estado na arrecadação de impostos. Que tal o Pobrestômetro do Grande ABC? Vou explicar, para horror de quem sempre quer tapar o buraco de desigualdades e iniquidades da região.  

Os dados das prefeituras da região estão subestimados quando se observa o estado natural das coisas em forma de exclusão social. Entre pobres e miseráveis, somos 560.718 numa população total de 2,8 milhões de habitantes. “Somos”, no caso, antes dos efeitos deletérios do vírus chinês. Arredondando, são 20% da população total da região.  

Distância se reduz  

Detemos uma marca assombrosa, embora seja menor que a média brasileira, de 28,3% de pobres e miseráveis. O problema é que a distância já foi muito maior. Estamos cada vez mais caminhando rumo à média nacional que melhora gradualmente, mas está longe de país civilizado.  

O encurtamento da distância entre o Grande ABC e o Brasil como um todo é um desastre social irrebatível para uma região pioneira na industrialização. Nossa mobilidade social foi para o ralo. Industrializamos pobreza e miséria e cortamos a cabeça de ricos e de classes médias.  

A população regional de pobres e miseráveis segundo dados oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) metabolizado pela Consultoria IPC, do pesquisador Marcos Pazzini, equivale à soma dos moradores de São Caetano e Diadema.  

Mapa da miséria  

Peguem o mapa do Grande ABC, tirem as divisas municipais e pintem um quinto com as cores de pobres e miseráveis. É nossa realidade nua e crua. Portanto, os 80 mil das contas das prefeituras são apenas um sétimo da realidade nua e crua. Se pegarem as camadas de ricos e classes médias, como mostrarei abaixo, vai aparecer um pontinho quase insignificante. Essa desigualdade é a pior desigualdade possível. Satisfaz apenas anacrônicos ou fossilizados.  

Contabilizar apenas os deserdados de extrema pobreza, portanto, é muito pouco, sabem bem os prefeitos de plantão. Os mesmos prefeitos que têm apenas parte da culpa no cartório de notas de empobrecimento regional e de regressão da mobilidade social.  

O descalabro vem do passado em forma de desindustrialização que, vejam só, tem no socialismo privilegiador de castas de sindicalistas ligados ao setor automotivo matriz de desmandos e insensibilidade com o conjunto da população, embora heróis corporativos. Situação que desmorona com a chegada da pandemia como pá de cal de uma estrutura de baixa competitividade.    

Pobrestômetro inviável  

Chego à ideia provocativa e inviável do Pobrestômetro com o argumento de que, fosse um território com responsabilidade social, portais com esse indicador de alarme econômico e institucional deveriam ser espalhados por pontos estratégicos dos municípios com dados consolidados anuais da situação de pobreza e miséria. Os números seriam escandalosamente fixados nos cruzamentos mais intensos de tráfego. Precisamos cair na realidade que a maioria esconde.  

Nenhum administrador público com juízo no lugar iria aceitar a proposta do Pobrestômetro, claro. Mas a sociedade poderia chegar a tanto. Bastaria que exercesse a cidadania supostamente à mão para pressionar os Legislativos locais. Já imaginaram os vereadores, quase todos puxadinhos dos prefeitos, tendo de aprovar uma medida legal que possibilitasse a criação do Pobrestômetro? Seria um chute na canela da hierarquia de araque de poderes constituídos.  

Equilíbrio com exceção  

Falta equilíbrio há muitas coisas públicas e privadas no Grande ABC deste século de empobrecimento ainda maior que as três últimas décadas do século passado, mas em matéria de composição de quadros de pobreza e miséria praticamente há um desenho lógico do qual somente São Caetano com 16,8% de deserdados foge discretamente.  

Os demais municípios são parelhos. Santo André conta com 19% de famílias de deserdados, São Bernardo com 20,2%, Diadema com 21,6%, Mauá com 20%, Ribeirão Pires com 18,9% e Rio Grande da Serra com 22%.  

Quando o mapa dos pobres e miseráveis é confrontado com o de famílias de classe rica, temos um revertério no discurso de desigualdade social que supostamente seria endossado com o contraste por cima, não por baixo. Vou explicar. Mais que desigualdade social no Grande ABC, o que temos é o chamaria de dupla catástrofe. Não seria a primeira abordagem que faço sobre o assunto. Nossa desigualdade social virou metástase antes do vírus chinês.  

Uma dupla catástrofe  

Dupla catástrofe é o volume de famílias de deserdados em crescimento, como nos últimos anos de recessão no País e agora, provavelmente, com o movimento acelerado pelo Coronavírus, e, por outro lado, o emagrecimento das famílias de classe rica e também de classe média.  

Esse é o fenômeno que impacta o Grande ABC de forma acentuada neste século. Pelos critérios obsoletos de acadêmicos de planilhas, a desigualdade social no Grande ABC foi reduzida, porque há menos ricos em proporção à população geral. Uma estupidez sem tamanho.  

Quem conta com maior universo de ricos em proporção às famílias em geral no Grande ABC é São Caetano, com participação de 6,6%. Já foi mais de 13% no começo do século. Santo André tem 3,7%, São Bernardo 3,4%, Diadema 1,7%, Mauá 1,8%, Ribeirão Pires 2,7% e Rio Grande da Serra 0,9%. 

O que pergunto reto e direto é simples: não seria muito melhor se, em contraponto ao contingente de pobres e miseráveis, contássemos com mais famílias de classe rica (e também de classe média alta, igualmente em processo de decapitação) para atenuar os dilúvios sociais?  

Dinheiro e mobilidade  

Uma sociedade proporcionalmente com mais gente endinheirada sugere a possibilidade de manutenção da mobilidade social por meio da construção de riqueza. O Grande ABC definha em número de famílias de classe rica e de classe média alta enquanto pobres e miseráveis abundam.  

Pobres, miseráveis, ricos e classe média alta deveriam se unir e botar os vereadores na luta contra a desigualdade social reversa no Grande ABC. Só a prosperidade de todos minimizaria o discurso socialista retrógrado de discriminação social.  

A insensibilidade geral e irrestrita está nos levando ao fundo do poço. Uma toada que vem do passado de fastio e de individualismos temperados de proselitismo político.   

O Pobrestômetro é um grito de sarcasmo de quem está cansado de usar o megafone do jornalismo para retirar as instituições do Grande ABC do sono profundo de indiferença, de descaso e de irresponsabilidade.  

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