Política

Auricchio ou Filippi? Quem
está mais próximo do tetra?

  DANIEL LIMA - 15/09/2020

Se tivesse que fazer uma aposta, uma aposta para valer, dessas que a gente se põe a campo para ganhar seja lá o que for apenas pelo simples prazer ou pela convicção ou por qualquer razão de vencer, juro que apostaria na vitória de José de Filippi em Diadema, nas eleições de novembro. Ele tem mais possibilidades de ser o primeiro tetraprefeito do Grande ABC na história. Mais que José Auricchio Júnior, em São Caetano. Isso não quer dizer que os dois não possam ultrapassar essa barreira. Podem sim.  

Vou explicar a diferença entre o petista e o tucano, os únicos que concorrem ao que chamaria de título histórico. Ou alguém imagina que ser quatro vezes prefeito de uma cidade no Grande ABC é pouca coisa?   

Celso Daniel foi triprefeito e morreu no meio do mandato. Newton Brandão também foi triprefeito em Santo André. A cronologia da vida em descompasso com a legislação eleitoral impediu que chegasse ao quarto mandato.  

Tetras ou tretas? 

O instituto da reeleição, portanto, torna a lista restrita. E o potencial ao tetra, ainda mais. Se acabarem com o processo de reeleição em todas as esferas de governo, os tetras vão desaparecer de vez. Desaparecer de vez no sentido de potencialidade, porque não se encontra ninguém por estas bandas com tal atributo. Filippi e Auricchio têm oportunidade de ouro.  

Abro parêntese: o corretor gramatical de meu computador é mais malandro (ou verdadeiro?) do que se imagina. Vejam que ao escrever “tetras” logo aí em cima, o computador insistiu em apontar como erro de digitação e sugeriu a correção em forma de “tretas”. Talvez alguém ligado à Lava Jato tenha se manifestado à revelia de minha ejaculação mental. Fecho parêntese.  

Em situação normal, sem que houvesse qualquer nuvem espessa no horizonte próximo, José Auricchio seria potencialmente mais tetraprefeito em São Caetano do que José de Filippi Júnior em Diadema. 

A bem da verdade, os dois são favoritos, mas o tucano de São Caetano seria mais, porque está no cargo e concorre, portanto, com a força da máquina e praticamente com o controle da narrativa na mídia tradicional.  

Capital não ajuda 

Filippi é concorrente forte, mas está fora do poder e não terá a colaboração externa de um prefeito competitivo na Capital, cuja tração midiática se daria no chamado horário eleitoral gratuito. Jilmar Tatto não é o que se chamaria de concorrente para valer do petismo.  

O que reverte esse jogo de favoritismo entre o petista de Diadema e o tucano de São Caetano é a pendência de José Auricchio no âmbito da Justiça Eleitoral, na qual está quase enforcado depois de derrotado em duas instâncias.  

Se escapar da defenestração legal, Auricchio embala de vez a candidatura ao tetracampeonato porque sairia da enrascada como espécie de vítima.  

A leitura crítica do eleitorado estaria em conformidade com a premissa do marketing de José Auricchio. Ou seja: a oposição teria preparado tese desclassificatória porque tem interesses que não batem com a realidade dos fatos e, portanto, atende a estranhos objetivos. Não é o que o Judiciário Eleitoral determinou até agora.  

Troca-troca  

Entretanto, se José Auricchio perder a parada no Tribunal Superior Eleitoral, dificilmente escaparia de uma dificuldade cavalar que consiste em contornar o estouro da boiada do eleitorado em direção principalmente ao jovem Fabio Palacio. O tapa-buraco de Auricchio teria complicações enormes pela frente. E pelas costas.  

Fabio Palacio é um opositor que ainda está para produzir currículo político condizente com o que lhe estaria à espera, ou seja, dirigir um dos municípios mais importantes do Estado de São Paulo e o mais impactado economicamente pelo empobrecimento neste século. 

Talvez o maior atributo de Fabio Palacio nesta altura do campeonato seja ter incorporado à chapa um dos responsáveis pelo sucesso da Casas Bahia. O Samuel Klein tão reverenciado (mais que justamente) teve o sortilégio de contar como dois filhos especialistas no ramo de comércio, o primogênito Michael e, exatamente o escolhido por Palacio para o cargo de vice-prefeito, Saul Klein.  

O mesmo Saul Klein que colocou o futebol de São Caetano no topo da hierarquia nacional e até internacional durante um bom tempo.  

Empreendedorismo 

A chapa Fabio-Saul seria infinitamente mais poderosa com a troca de posição. Um troca-troca que emitiria à sociedade de São Caetano a ideia de que o empreendedorismo ganharia opção eleitoral mais acentuada.  

Esse (o empreendedorismo privado) é o calcanhar de Aquiles de José Auricchio. Tanto que o reserva imediato, no caso de inegibilidade, é o ex-reitor da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), Marcos Bassi, hoje executivo de produtos digitais do Diário do Grande ABC.  

Marcos Bassi seria o mensageiro reserva de empreendedorismo de José Auricchio, mas, a rigor, jamais o foi à frente da USCS quando se considera a atuação externa, em combinação com o Paço Municipal. Tanto que a USCS assistiu passivamente à passagem da banda de uma nova onda de desindustrialização em São Caetano e seguiu platitude acadêmica reprovável.  

São Caetano sempre pareceu uma terra proibida aos acadêmicos da USCS. O vendável econômico que varreu o Município neste século não provocou nenhuma reação programática e acadêmica. Algo que é muito grave. A USCS tem o umbigo, o coração e a mente relacionados aos cofres públicos.  

Efeitos do lavajatismo 

O obstáculo jurídico-eleitoral de José Auricchio Júnior não consta da empreitada de José de Filippi Júnior na corrida rumo ao Paço de Diadema. Seu problema é outro, mas ao mesmo tempo não tão grave, ou quase nada grave, ante petistas que se metem a tentar virar prefeitos em novembro: os escombros ainda visíveis das infelizes jornadas morais e éticas do PT na presidência da República.  

O lavajatismo ainda atinge fortemente os petistas, mas há o conforto de que se tornou mais democrático. Tanto que os tucanos paulistas foram abatidos nos últimos tempos. Já não se concentra sobre o PT todas as crueldades administrativas de quem se refestelou na corrupção, mas o pioneirismo punitivo pesa mais sobre os vermelhos do que sobre os azuis.  

As tormentas eleitorais de José de Filippi Júnior por conta do lavajatismo não têm as mesmas dimensões de outras praças importantes no calendário eleitoral desta temporada (e que são bem menos intensas que nas eleições de 2016 e 2018) porque o reduto vermelho do passado aos poucos vai recuperando a viscosidade.  

Bolsonarismo em queda  

Tanto é verdade que nas eleições presidenciais de 2018, faltou pouco, muito pouco, para a vitória de Fernando Haddad ante Jair Bolsonaro. Foram redondos 52% a 48% dos votos válidos no segundo turno. Nos últimos dois anos é preciso reconhecer que o desgaste da presidência da República torna Bolsonaro menos aprovado em Diadema.  

A luta pelo tetramandato no Grande ABC promete emoções. É um condimento a mais do sarapatel democrático que viveremos em novembro. Um sarapatel permeado pela polarização nacional de esquerda versus direita com pitadas pandêmicas de lascar. A narrativa do “fica em casa” parece fadada a estragos monumentais. Está aí o governador João Doria que não me deixa mentir.  

Os casos letais do vírus chinês recuam na inversa proporção da avalanche do povo nas ruas. Vai ser difícil explicar o bordão de confinamento sem cientificismo aplicado.

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