Esportes

Nem árbitro impede vitória
do São Caetano no clássico

  DANIEL LIMA - 21/08/2020

O futebol do Grande ABC pode entrar na fase decisiva da Série A-2 do Campeonato Paulista com dois concorrentes entre os oito. O passo decisivo para aumentar a possibilidade de pelo menos se substituir o Água Santa de Diadema na Série A-1, por conta de rebaixamento neste ano, teve o São Caetano como grande protagonista ontem no Estádio Anacleto Campanella.  

A vitória de quatro a três no clássico contra o São Bernardo foi heroica e modesta. Heroica porque o árbitro assaltou o time da casa no primeiro tempo. Modesta porque a diferença de um gol não reproduz o que se deu em campo.  

O resultado colocou o São Caetano na terceira colocação na fase classificatória ao faltarem duas rodadas para o encerramento. O São Bernardo começou a rodada como líder e mesmo com a derrota não se comprometeu, porque está agora apenas atrás do Taubaté. Os oito primeiros colocados jogam a fase decisiva em confrontos que levam em conta as respectivas colocações. 

O clássico regional exibido pelo SporTV foi um bom espetáculo para uma tarde de frio e chuva. E sobretudo surpreendente. O São Caetano apresentou um milagre ao vivo e em cores.  

Massacre em campo  

Ameaçado até de perder o elenco inteiro por conta de salários atrasados, com perspectivas diretivas erráticas, sondado por grupos que pretendem assumir o controle acionário, e retornando de cinco meses de inatividade por conta do vírus chinês, a equipe jogou um futebol acima de qualquer expectativa mais otimista.  

Não há exagero em constatar que o São Caetano massacrou o São Bernardo. Em todos os sentidos. Mesmo prejudicado pela arbitragem a equipe do técnico Alexandre Gallo não arredou pé da determinação de continuar na zona de classificação que escapuliria caso não ganhasse os três pontos. O padrão de comedimento técnico-tático de equipes ameaçadas passou longe da preparação do São Caetano. Não faltaram coragem e ousadia. O São Bernardo foi burocrático, passivo, decepcionante. 

Guardadas as devidas proporções, que não são assim tão gigantescas se a comparação for com equipes de porte pequeno e médio que disputam o futebol brasileiro, o São Caetano fez uma exibição de gala. Sobretudo porque resistiu a tudo durante os 90 minutos. Foi desafiada psicologicamente, fisicamente, taticamente e tecnicamente. Passou por todos os corredores possíveis. E ultrapassou todos os obstáculos. 

Apenas 15 minutos  

Tanto que somente nos últimos 15 minutos, quando ficou com 10 jogadores por conta de expulsão, o São Caetano perdeu o controle do jogo e o adversário não só fez um gol como poderia ter empatado. De resto, ou seja, durante quinto-sexto do jogo, só deu São Caetano.  

Mais ainda no segundo tempo do que no primeiro. O São Bernardo, até a expulsão de um adversário, não conseguia sair da zona de defesa. Procurou safar-se da pressão a qualquer preço. No primeiro tempo a equipe ainda teve espaço para contragolpe e por duas vezes esteve à frente no placar. E é nesse ponto que o São Caetano mostrou força psicológica, física e técnica.  

O domínio completo do São Caetano expressou uma filosofia de jogo de dinamismo, versatilidade, ofensividade e contundência que o técnico Alexandre Galo repassou aos jogadores. Bem diferente de Marcelo Veiga, de um São Bernardo reticente, lento, estático, conservador.  

Contradição empresarial  

O atropelamento mostrou um São Caetano aparentemente mais competitivo para a etapa decisiva do campeonato. Mesmo com infraestrutura empresarial bem mais modesta. O São Bernardo conta com a retaguarda de agentes esportivos que têm um olho no gramado e outro na conta bancária. O São Caetano tem um olho no drama de vácuo diretivo e outro nos salários que chegam atrasados. 

As qualidades que o São Caetano mostrou no clássico não podem ser desprezadas. E a principal talvez tenha sido a vocação ofensiva. Os volantes não se deixaram cair no lero-lero de que só devem assegurar a segurança defensiva, os meias atacantes fizeram da grande área adversária um objetivo permanente, os atacantes pelas beiradas procuraram individualizar as jogadas e o centroavante não só se meteu entre os zagueiros como voltou para servir de pivô em jogadas previamente elaboradas. 

Além disso tudo, ofensivamente, o São Caetano contou com duas armas fatais em bolas paradas: o lateral Alex Reinaldo e o meia-atacante Anderson Rosa põem a bola onde querem. Alex Ribeiro o faz com muita força e veneno; Anderson Rosa usa a habilidade e a sutileza dimensional de quem poderia fazer com os pés quantos três pontos quisesse se uma cesta de basquetebol substituísse as traves do futebol.  

Reparos defensivos   

Defensivamente o time do técnico Gallo precisa de reparos no posicionamento frontal, com indecisões, e nas bolas em diagonal, de desalinhados zagueiros. Além disso, comete falha comum no futebol brasileiro: os zagueiros insistem em colar na grande área e a oferecer, com isso, espaços letais entre os volantes. Subir a marcação e compactar mais são medidas que custam treinamento intensivo.  

O São Bernardo decepcionou e não justificaria a posição no campeonato, mas é preciso levar em conta que certamente foi surpreendido com a avalanche adversária. Possivelmente a liderança durante os cinco meses da pandemia contaminou o São Bernardo com certo desdém pelo São Caetano de noticiário inundado de desencontros diretivos.  

O São Caetano do clássico de ontem foi mesmo um milagre de futebol cuja dimensão precisa ser exaltada como mensagem de que possivelmente conte com fatores internos, entre equipe técnica e jogadores, que podem dar impulso ainda mais surpreendente na competição. 

Seria muita ironia do destino se o São Caetano, assaltado por uma interpretação medonha do regulamento da Série A-2 do ano passado, volte ao posto do qual foi apeado na mão grande, ou seja, à Série A-1, justamente no lugar do Água Santa de Diadema, rebaixado nesta temporada depois de subir irregularmente.

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