Sociedade

Sensatos e idiotas são fontes
permanentes de inspiração

  DANIEL LIMA - 14/08/2020

Não sei o que seria de mim como jornalista se não contasse com dois tipos de assessorias especiais: os sensatos e os idiotas que frequentam as redes sociais. Sem eles tenho a impressão de que a inspiração sofreria danos.  

Está certo que faço reflexões diárias quando passeio de manhã com minhas cachorras, mas a fonte de meus fazeres são mesmo os sensatos e os idiotas com os quais convivo diariamente.  

Bons tempos estes. Antes, quando não havia nada disso, me jogava nos braços do então melhor veículo impresso da praça, o Jornal da Tarde, no qual, inclusive, trabalhei.  

Todos nós temos macetes para pegar no tranco. Ler um texto criativo sempre foi minha chave de ignição intelectual. O Jornal da Tarde era inovador. Virou uma escola do jornalismo de profundidade. Saiu do armário da informação burocrática. Era revolucionário na forma e no conteúdo.  

Quem não se lembra do nariz de Paulo Maluf crescendo na primeira página de cada edição em que nada de petróleo nos mares prometidos pela Paulipetro?  

Botando o pé na estrada  

Não vou dizer que seria um deserto de produção e produtividade jornalísticas se não pudesse dispor das duas listas de transmissões que mantenho no aplicativo Whatsapps. Nada disso, claro. Sempre encontro uma maneira sobressalente de botar o pé na estrada de reproduzir o que me vem à telha, desde que o que me vem à telha seja o somatório ou o multiplicatório de algo que chamaria de autocuradoria.  

Entretanto, garanto que sensatos e idiotas ajudam muito. Eles são, muitas vezes, meu Jornal da Tarde do passado, com a vantagem de que são mais abrangentes.   

Nos tempos de jornalismo tradicional, em que o mundo digital nem pintava no pedaço, as referências eram menos imediatas, impactantes e mesmo importantes.  

Politicamente incorreto  

Ter idiotas e sensatos como inspiradores não é ofensa, como algum poderão imaginar à primeira leitura. É apenas uma constatação exposta. Pouco me lixo se corro o risco de me meter em encrenca do politicamente correto.  

Todos que me conhecem sabem que estou andando e correndo para o politicamente correto. Querem um exemplo em que tanto o desdém ao politicamente correto como o mantra da sensatez me expuseram à sanha dos leitores da lista do Whatsapp? 

Pois vamos lá. Houve quem reprovasse (e é natural que assim o seja) quando emiti uma mensagem curta e grossa (no sentido que o leitor entender) a um determinado leitor, jornalista por sinal. Escrevi que, por mais que me sensibilizasse com as mortes provocadas pelo Coronavírus, não entendia que o empilhamento de casos letais (como o que se vê nestes dias) iria provocar no futuro tantos estragos eleitorais na conta do presidente Jair Bolsonaro.  

Sobremodo porque a concorrência em termos de responsabilidade vai muito além da Presidência da República. Está aí o Supremo de tantas lambanças para não me deixar mentir.  

Resumi a resposta ao dizer que, exceto as mortes próximas, de quem amamos muito, de pessoas que nos fariam muita falta, as outras mortes pouco alterariam nossa rotina diária após a pandemia. 

Seletivo e temporário  

Disse mais: que o sentimento de perda é seletivo, além de temporário. Fui além: disse também que ninguém está preocupado para valer com o destino da vovozinha de Paraisópolis, assim como a vovozinha de Paraisópolis não está nem aí, na contabilidade final, com quem não compartilha convivência.   

Nesse caso específico, portanto, tive um diálogo através de mensagens com um leitor sensato, desses que nos retiram do piloto automático e que, portanto, nos inspira a buscar respostas igualmente sensatas.  

Os leitores desta revista digital podem não gostar do que respondi, porque supostamente vilipendiaria o ambiente de tristeza que impacta o País, mas não retiro uma vírgula: estamos muito preocupados com a pandemia porque pode atingir nossos próximos. Os distantes também pesam na equação humanitária, principalmente se os distantes se tornam próximos por alguma razão circunstancial, mas os distantes sempre serão distantes.  

Distante vira próximo  

Um Rodrigo Rodrigues, por exemplo, que se foi outro dia, me emocionou um bocado. Um distante que vira próximo é traumático, mas não é exatamente o mesmo impacto do próximo-próximo que se vai. É assim que funciona. E quem argumentar em contrário possivelmente é hipócrita ou santo. Chorei dias por Airton Sena, mas choro muito hoje pela viagem de meu pai, de minha mãe, de meu irmão e de vários outros próximos. É assim que funciona.  

Quem imagina que os sensatos são sempre sensatos e os idiotas sempre idiotas desconhece nuances do comportamento social nestes tempos de tempestade política, insanidade sanitária e empobrecimento no Grande ABC.  

Aqui tudo é possível. Mas a incidência probabilística de um idiota ser mais idiota por mais tempo do que sensato circunstancialmente é expressiva. Tanto quanto um sensato ser muito mais vezes sensato do que idiota.  

Vovozinha de Paraisópolis  

Citei o caso da vovozinha de Paraisópolis, já conhecido no aplicativo Whatsapp, porque é emblemático da postura que exponho aos leitores de todos os cromos ideológicos. Minhas listas de transmissão são pluralistas. Não tem aproximação com o perfil geral da Grande Mídia, por exemplo, avessa a tudo o que o governo federal oferece. Inclusão nas situações em que há evidentes rastros de perseguição. Que, também em várias situações, se consolidam na deliberada ausência de contextualização dos fatos. 

Querem um exemplo do que significa isso? Ainda hoje de manhã (acordo antes das seis e às oito, nove, já li mastigadamente todas as informações mais importantes dos quatro jornais que recebo) repassei aos leitores do Whatsapp uma foto de página do Estadão cujo manchete sintetiza o descaso com o meio ambiente no País. A notícia dá conta que o Ibama perdeu 55% dos fiscais nos últimos 10 anos.  

Qualquer jornalista minimamente honesto (e boto o Jornal Nacional nessa parada ética como símbolo de distorções movidas pelo dinheiro, sobretudo) tem obrigação de, ao condenar as políticas do governo federal destes tempos, acrescentar esses dados e, mais que isso, contextualizar, também, a derrocada econômica do País no governo de Dilma Rousseff, cujos estragos se rivalizam com os provocados pelo vírus chinês.  

Vírus chinês contraditório 

Fora isso, ou seja, sem que se coloquem as pedras de informações nos devidos lugares, qualquer análise sobre o governo Bolsonaro na área ambiental carregará sempre um viés de fake news específico dos jornais tradicionais. Sobre os quais, aliás, escrevi um texto nesta semana para chamar a atenção de que demonizar as redes sociais e sacralizar as falcatruas dos veículos tradicionais são o suprassumo de fake news.  

Como uma coisa puxa a outra, eis que mencionei o tal de vírus chinês. Há idiotas juramentados e também sensatos mal-informados ou excessivamente críticos, mas respeitáveis, que me condenaram pelo uso da expressão. Não adianta dizer que não existe resíduo ideológico no “vírus chinês”, apenas uma constatação geográfica, do nascedouro mais que reconhecido desse maldito destruidor de vidas.  

Continuo a utilizar “vírus chinês” sistematicamente não só pela razão exposta, mas também porque se há algo de que não tenho medo nas redes sociais é de pressões. Que se lasquem os idiotas e mesmo os sensatos. Cito vírus chinês como já citei vacina chinesa e tantas outras identificações jornalisticamente corretas.  

Contra depressão  

Pode haver um exercício acrobático de sensatos e idiotas a imputar discricionariedade ideológica por conta de argumentação científica. Refuto-a exatamente porque sou jornalista, não cientista.  

Vírus chinês equivale a craque japonês, a artilheiro italiano, a zagueiro brasileiro e tantas outras formulações do dia a dia de quem lida com informação em todas as áreas. Se o argumento não serve, que se danem os sensatos e os idiotas.  

O bom de lidar com sensatos e idiotas é que, além de me motivarem pela estupidez ou pela racionalidade, é impossível sentir qualquer coisa que tenha relação com depressão nestes tempos de enclausuramento físico.  

Tanto os sensatos quanto os idiotas não são categorias estanques. Além de se misturarem nas próprias individualidades que representam, tanto uns quanto outros são também colaborativos, críticos, inspiradores, preconceituosos, mentirosos, manipuladores e provocadores, entre muitas especificidades circunstanciais ou arraigadamente intocáveis.  

Entre o céu e o inferno  

As redes sociais são o céu e o inferno ao mesmo tempo. Como o jornalismo tradicional que se pretende, ainda, mantenedor de algo que já perdeu faz tempo: o controle e o monitoramento da opinião pública. Esse pessoal ainda não acordou. Querem mais um exemplo, para terminar? 

Não é que assistindo a um programa de TV fechada, uma mesa-redonda, do SporTV, dei gargalhadas enquanto pedalava minha ergométrica. Sabem por que? Porque os rapazes, todos bons por sinal, gente de qualidade, estavam revoltados com um atacante do Flamengo (Bruno Henrique) que, no dia anterior, perdera um gol feito contra o Atlético Mineiro em pleno Maracanã e, como o time foi derrotado, a torcida, nas redes sociais, não lhe deu folga.  

Solução encontrada? O jogador pediu desculpas num dos canais das redes sociais em que mantem conta. Os moços da televisão ficaram indignados. Ou seja: reivindicavam implicitamente o poder da crítica, usurpado pelas redes sociais. E condenaram a atitude do jogador ao ceder à pressão dos torcedores.  

Esse pessoal do jornalismo esportivo não acordou para uma realidade irreversível. Com sensatos e idiotas, a digitalização tecnológica portável colocou todo mundo no jogo da liberdade de expressão. Que tratem, portanto, de entender os sensatos e os idiotas. 

Leia mais matérias desta seção: