Administração Pública

Vírus chinês: entre o marketing
do triunfalismo e a realidade

  DANIEL LIMA - 13/08/2020

Não existe incompatibilidade alguma entre duas verdades que só a política partidária e a ignorância podem negar ou deslocar para terrenos idiossincráticos de especulação.  

A primeira verdade é que São Caetano é detentora de infraestrutura física e de recursos humanos na área de saúde que, transposta para o Brasil, seria uma maravilha.  

A segunda é que o vírus chinês está fazendo um estrago em São Caetano que, transposto para o Brasil, seria uma catástrofe maior do que já é.  

Há quem prefira o marketing do triunfalismo, caso do prefeito José Auricchio Júnior. Falta-lhe assessoria de responsabilidade social para tratar o assunto com mais equilíbrio.  

Ego e mazela  

O desfile propagandístico de supostas qualidades de atuação da divisão de saúde da USCS (Universidade Municipal de São Caetano) e o descaso específico com o mapeamento detalhado dos casos letais do Coronavírus são vetores de uma mesma configuração institucional. Auricchio lustra o ego municipal em detrimento de uma mazela social específica.  

Trocando em miúdos: provavelmente por conta do calendário eleitoral e da premissa de que não deve abrir brechas, ou supostamente validá-las no campo de atendimento aos casos do Coronavírus, José Auricchio prefere a fanfarra de supostos fatos positivos porque provavelmente teme que do outro lado se entoe a marcha fúnebre.  

Enquanto isso, até porque é impossível esconder tanto a realidade, o bicho pega para valer nos hospitais.  

Pesos e medidas  

São Caetano que o vírus chinês arregaça nestes tempos circunstanciais não pode, portanto, ser confundida com a São Caetano de longeva construção de atendimento à saúde e aperfeiçoamento sanitário. Da mesma forma que uma São Caetano não pode negar a outra São Caetano. Mais que negar, escondê-la de olhares e análises de quem não tem nada a ver com a carruagem eleitoral.  

Todas as vezes que me referi ao comportamento do Grande ABC e particularmente, em outras situações, à situação de São Caetano durante a pandemia que insiste em permanecer, sempre o fiz relativizando indicadores incidentes em maior grau de letalidade.  

São Caetano incorpora três adversários que não podem ser refutados em qualquer análise sobre a letalidade do vírus chinês:  

1. Conta com densidade demográfica acima, muito acima, de qualquer média de municípios brasileiros, pouco abaixo de Diadema, no Estado de São Paulo. 

2. A incidência de população com 60 anos ou mais é muito superior à média regional e nacional.  

3. Está inserida no coração da Região Metropolitana de São Paulo, vizinha de uma Capital intensamente impactada pela pandemia entre outras razões porque a mobilidade urbana reduz dramaticamente o distanciamento tão necessário de combate ao vírus.   

Correlações obrigatórias 

Qualquer avaliação mais profunda sobre o impacto do vírus chinês no Grande ABC e particularmente em São Caetano que não leve esses fatores em consideração será uma avaliação torta, esquizofrênica, eticamente desonesta.  

Além desses pontos, também deve ser levado em consideração, quando em confrontos locais, como São Caetano versus Diadema (os dois municípios que, nessa ordem, lideram a mortalidade pelo Coronavírus) o coquetel de dados socioeconômicos. Tudo isso, rigorosamente, sempre ressaltei.  

Portanto, não há fundamento algum em eventuais tentativas de fundo político-partidário de tentar atribuir aos textos de CapitalSocial qualquer desvio do campo de responsabilidade social que se submeteria a interesses outros. Somente os canalhas de pai e mãe veem chifre de maliciosidades na cabeça de cavalo de informações isentas.  

Morfologia das mortes  

Isto posto, convém lembrar que existe o outro lado da moeda, esta da Administração de José Auricchio Júnior, que até agora não foi posta em prática. E já deveria ter sido. Mais que ter sido, repetida e aprofundada. Até mesmo como critério de transparência do Executivo. 

O que as pessoas de bem querem saber e têm todo o direito de saber porque saber faz parte da cidadania responsável é porque morre tanta gente em São Caetano quando se comparam os óbitos pelo critério mais ajuizado de casos letais em relação à população. Chamaria isso de morfologia da morte.  

Como são, por exemplo, as mortes por assassinato em qualquer mapa mundial e que leva em conta exatamente o total da população. Aquela conta de tantos casos por 10 mil habitantes, por 100 mil habitantes, por um milhão de habitantes.  

Oportunidade de ouro  

A gestão de José Auricchio está perdendo oportunidade de ouro para supostamente mostrar uma competência no tratamento dos casos letais do vírus chinês acima do esperado. E mesmo que esse raciocínio não seja o correto, porque é controverso, poderia ter uma postura mais objetiva e explicativa. 

Por que morre tanta gente em São Caetano por causa do vírus chinês tem várias explicações, como já expostas, mas ainda falta calibrar o peso principalmente da faixa de idosos com 60 anos ou mais.  

Se na média brasileira a letalidade do Coronavírus atinge 75% dos infectados dessa larga faixa etária (ou seja, três-quartos dos mortos têm 60 anos ou mais), quantos seriam esses mortos em São Caetano se São Caetano reúne 25% da população total dentro dessa faixa de idade, enquanto a média no Grande ABC é a metade e no Brasil não chega a 11%?  A resposta a essa pergunta ajudaria a explicar muitas coisas. Estariam esses óbitos correlacionados ao descolamento do percentual de idosos de São Caetano em relação à média nacional? Se não estiverem, como se explicariam as outras mortes que, portanto, se distanciariam do padrão?  

Minha sugestão à Administração de José Auricchio é que não se deixe levar pelos marqueteiros de sempre e de gente que só pensa naquilo que estarão abertas em novembro e que garantiriam mais quatro anos de mandato. 

Que o prefeito se reúna com especialistas na área de saúde. Que o prefeito faça mapeamento completo das especificidades das mortes por Coronavírus em São Caetano.  

Europeia duplamente  

A europeia São Caetano caminha celeremente para superar os piores indicadores de nações desenvolvidas, embora não faltem pelotões organizados para sufocar os fatos, tratando-os como descartáveis. São Caetano, portanto, pode ser duplamente europeia. Nos indicadores etários e na letalidade.  

Não se pode ignorar essa peculiaridade inclusive visando a possível reestruturação do sistema de atendimento público da saúde em São Caetano no pós-pandemia. Até porque não se sabe quando será o pós-pandemia. Há estudos que têm o vírus chinês como ameaça permanente. 

São Caetano é um endereço diferenciado no Grande ABC em vários aspectos, um dos quais pouco abordado porque existe na sociedade local tendência à acomodação. A cultura de São Caetano dá espaço ao que chamaria preliminarmente de autoproteção a qualquer custo.  

Autopreservação histórica 

O que isso significa? Que em nome do Município construído por imigrantes no século passado impera uma argamassa para controlar internamente as desavenças em geral, e, também, para impedir que as mazelas atravessem as fronteiras. Há um arranjo geral em São Caetano, sobretudo na política, que impermeabiliza eventuais processos de ruptura.  

O que tem o vírus chinês com isso? Admitir publicamente que São Caetano é tão vulnerável soa como um ataque à autoestima municipal. Situação e oposição fazem contorcionismos verbais para se manterem num patamar de inviolabilidade à regra de autopreservação.  

Por mais que os números do Coronavírus sejam impactantes em São Caetano, o ambiente não seria propício a observações mesmo que discretas sobre uma realidade que se opõe a outra realidade, a de que o Município é um oásis de qualidade de vida na Região Metropolitana de São Paulo, mas que nem por isso é paradigma de combate ao Coronavírus, como o prefeito pretende fazer crer.  

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