Sociedade

Quantos já morreram em casa
e nas ruas, senhores prefeitos?

  DANIEL LIMA - 08/07/2020

Claro que o Clube dos Prefeitos não tem a resposta. Quem não tem assessoria competente (e o secretário-geral da entidade, Edgard Brandão Júnior, é um estorvo quando se trata de cuidar para valer da regionalidade) jamais terá resposta.

Em quatro capitais do País houve acréscimo de 53% no número de mortos em casa e nas ruas por conta do Coronavírus. No Grande ABC, ao qual propus varredura sistemática bairro por bairro tendo à frente servidores públicos, ninguém jamais saberá. Mas que houve muita morte, disso não tenham dúvida. Não somos uma ilha, embora não faltem candidatos e ativistas a desfraldar bandeiras isolacionistas.

Deu na Folha de S. Paulo de ontem que o epidemiologista Jessem Orellana, da Fiocruz Amazônia, fez uma pesquisa e constatou que os óbitos por causas naturais em domicílios ou vias públicas entre 15 de março e 13 de junho saltaram de 6.378 no ano passado para 9.773 neste ano em quatro capitais brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Manaus e Fortaleza.  Um acréscimo de 53%, portanto, ainda maior do que todas as mortes naturais no período.

(O que pergunto é o seguinte: quantos já morreram em casa e nas ruas, senhores prefeitos?)

Segundo a Folha de S. Paulo, foi possível fazer a comparação apenas nesses municípios, que representam cerca de um terço do total de óbitos confirmados pelo vírus no Brasil. Os números são compatíveis com a contagem de mortalidade do Ministério da Saúde, que tem informações completas apenas até abril.

Segundo a reportagem, Manaus registrou 1.290 mortes em casa ou na rua e teve o maior salto, de 120%. Em seguida vem Fortaleza com aumento de 74% (1.814 mortes), Rio de Janeiro com 48% (3.029 mortes) e São Paulo com 34% (3.640 mortes).

(O que pergunto é o seguinte: quantos já morreram em casa e nas ruas, senhores prefeitos?)

O pesquisador da Fiocruz foi enfático à reportagem da Folha de S. Paulo: “Mortes em casa ou em via pública por causas naturais, por princípio, são quase todas evitáveis. São um indicador clássico de déficit ou precariedade de atenção à saúde. Em tempos de pandemia, mortes dessa natureza atestam falhas graves no planejamento e implementação de ações”, afirmou Jessem Orellana.

Fala-se tanto nos erros do presidente da República no combate ao Coronavírus, mas a mídia militante esquece questões centrais como a intervenção indevida, afoita e irresponsável do Supremo Tribunal Federal que, na ânsia de mandar mais que todo mundo, dividiu as funções de enfrentamento entre União, Estados e Municípios. Fragmentou o que deveria ser induzido à articulação federal com compartilhamento consensual de medidas junto às demais esferas. 

(O que pergunto é o seguinte: quantos já morreram em casa e nas ruas, senhores prefeitos?) 

Demais esferas, inclusive ou principalmente municípios que deveriam lançar mão de iniciativas que tanto o governador quanto o presidente da República não teriam como contrariar.

No caso específico do Grande ABC, a proposta que enviei no dia primeiro de maio ao Clube dos Prefeitos foi objetiva e consta desta publicação digital em forma de contagem progressiva à espera de atendimento (que de antemão sabia que não haveria).

Botem os servidores públicos (notadamente as levas de comissionados) nas ruas. Treinados, preparados, organizados e solidários.

Enquanto os incompetentes que assessoram os prefeitos naquela entidade nada fizeram ou fazem nesse sentido, acrescentei um exemplo do governo italiano que, com voluntários, forrou as ruas para orientar turistas e a população sobre os riscos do vírus chinês.

(O que pergunto é o seguinte: quantos já morreram em casa e nas ruas, senhores prefeitos?)

Não satisfeito com as duas abordagens, apresentei ainda outro dia uma solução para colocar ordem na bagunça do combate à pandemia. Sugeri que se instalasse uma força-tarefa com gente mais que habilitada entre os 25 mil funcionários da Fundação do ABC, e também alunos e professores da Faculdade de Medicina do ABC. Gente do ramo, especialistas. Qual nada: a ignorância de quem estaria supostamente no controle tático e estratégico do Clube dos Prefeitos é muito maior que qualquer obviedade resolutiva.

No jornal Diário do Grande ABC de ontem (uma publicação que está sendo generoso demais com o descaso de tratamento regional da pandemia, como todos os demais veículos de comunicação da região), o consultor Munir Ayub, da Sociedade Brasileira de Infectologia, revelou o quanto o Clube dos Prefeitos é trapalhão no encaminhamento de decisões. Vou reproduzir exatamente o que diz a reportagem: 

 (...) afirma que, na Capital, o número de pessoas infectadas pelo novo Coronavírus está desacelerando, se aproximando do chamado platô. No entanto, ele destaca que o mesmo não está acontecendo na região. “A impressão é que o Grande ABC não está nesta situação (de estabilidade dos casos). A flexibilização só se deu porque houve pressão dos prefeitos para que aqui fosse feito como na Capital”, disse, referindo-se ao fato de que no mesmo dia em que o Grande ABC batia recorde diário de mortes (40), iniciava-se a aplicação de nova fase (amarela) do Plano São Paulo, flexibilizando a abertura de bares, restaurantes, salões de beleza, além de ampliar o tempo de funcionamento de outros estabelecimentos, como comércio de rua e shopping.

(O que pergunto é o seguinte: quantos já morreram em casa e nas ruas, senhores prefeitos?)

O especialista ouvido pelo Diário do Grande ABC, cujas declarações deveriam ganhar manchetíssima de primeira página para mostrar à sociedade o quanto o Clube dos Prefeitos, mais que inútil, é um perigo à solta, disse o seguinte à repórter:

 (...) Inclusive, para o especialista, os primeiros reflexos da Fase 2 (laranja) da flexibilização – liberação que aconteceu dia 15 de junho – já podem ser sentidos no alto número de mortes diárias, ainda que os principais efeitos devam ser sentidos no decorrer desta semana. Ayub explica que não há média de tempo entre o dia que a pessoa apresenta os primeiros sintomas e evolua ao óbito. Porém, normalmente, as complicações costumam aparecer entre o quinto e o oitavo dia após os principais sinais da Covid.  “Tudo depende as condições de saúde do paciente, de que maneira a equipe médica irá conduzir o tratamento e outros fatores”, assinala.

O balanço de mortes no Grande ABC segue em frente. Até ontem foram contabilizadas 1.275 vítimas fatais. Não perco tempo dando destaque aos casos de infecção porque a subnotificação é gigantesca e retira qualquer objetividade científica do horizonte. Letalidade é o que mais interessa para medir os passos do Grande ABC. Temos 44,90 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes.

(O que pergunto é o seguinte: quantos já morreram em casa e nas ruas, senhores prefeitos?)

Vamos confluindo celeremente em direção a mesma métrica, que é a mais ajuizada, de países europeus cuja participação de idosos é muito superior à média regional. Somente São Caetano, com um quadro da população acima de 60 anos, assemelha-se ao Primeiro Mundo. Não é à toa que, reconhecidamente detentora de infraestrutura física e social fora da curva de marginalidade brasileira, São Caetano lidera o ranking regional de óbitos.

Qual será o limite de letalidades no Grande ABC? Essa é uma pergunta que vale um milhão de dólares. Afinal, quando se parte da premissa de que é impossível diagnosticar os desdobramentos temporais do Coronavírus (os quais poderão invadir o primeiro trimestre do ano que vem, conforme vários especialistas), o inferno pode ser o limite.

Isso quer dizer, repito, que ainda há tempo para o Clube dos Prefeitos deixar a incompetência crônica e histórica de lado e, quem sabe, com humildade, tomar providências básicas no campo pandêmico: entregue a rapadura para quem é do ramo e coloque principalmente os comissionados nas ruas, capilarizando uma ação que dará transparência e valoração da ação pública. E que, como já escrevi, se fixe nas ações de cunho político junto ao governo do Estado. Quem sabe assim, evite mais derrapadas econômicas e sociais.

Estamos à deriva num mundo de paradoxos: o engajamento das redes sociais é uma falácia quando se trata de pautas potencialmente consensuais. A divisão e a diversidade imperam. E a mídia tradicional está tão debilitada e esquartejada a ponto de deixar o barco de emergências ao sabor da correnteza de conveniências e limitações operacionais.

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