Imprensa

Nove meses de cinco anos que
transformariam o Diário (39)

  DANIEL LIMA - 08/07/2020

Estamos chegando ao fim da jornada desta série que retrata os nove meses que comandei a redação do Diário do Grande ABC, entre 2004 e 2005. Esse material é inédito. Mostra o dia-a-dia na redação do jornal mais tradicional da região. Acumulava este jornalista, até então, mais de 40 anos de experiência. Aplicava no Diário do Grande ABC metodologia que transformou a revista LivreMercado na melhor publicação regional do País. 

Reunimos hoje duas edições da newsletter Capital Digital Online, ferramenta que criei para manter mobilizado todo o efetivo de redação do Diário do Grande ABC. E também uma comunicação com outros setores daquela empresa, entre os quais diretores e acionistas. 

 Edição 55 – quarta-feira, 13 de abril de 2005 

Pergunta: Por que foram eliminadas as reuniões de pauta da manhã? 

Resposta: Num modelo de acordo trabalhista em que o banco de horas cristaliza-se como ferramenta explosiva, dizem o bom senso e a cautela administrativo-organizacional que a diagramação do tempo regulamentar dos profissionais deve ser a mais sábia possível. Chamar para o período da manhã editores-secretários, secretários-editores e secretários-secretários que deixaram o campo de ação por volta de meia-noite ou mesmo nas primeiras horas da madrugada é assinar atestado de espoliação da mão-de-obra valiosa que depende de descanso para sustentar ritmo de produtividade. 

Consagrados estudos já elucidaram o grau de desgaste de profissionais de comunicação. Transformá-los em máquinas é o suprassumo da ignorância gerencial. 

Mas não é só por isso que eliminamos a pauta das 11h. Introduzimos essa medida porque se mostrava contraproducente. A presença de um ou outro representante do Conselho de Redação a partir das 8h da manhã no front basta para o encadeamento à linha de montagem de informação jornalística. Desde que, eventualmente, esse profissional não estenda sua jornada de trabalho noite adentro. E é isso que se pratica. 

A profissional, no caso Lola Nicolás, deixa a Redação por volta do final da tarde. Sua entrada de manhã é escalonadamente seguida, ao longo do dia, por outros membros do Conselho de Redação. Até que por volta das 15h todo o efetivo dessa instância de gestão do jornal esteja espalhado por diversas editorias.  

A ação de um ou mais representantes do Conselho de Redação a partir das 8h não segue o ritmo do bumba-meu-boi como os pouco íntimos da industrialização da informação poderiam sugerir. Os editores-secretários, os secretários-editores e os secretários-secretários que têm a jornada estendida até tarde, ou mesmo às primeiras horas da madrugada, tomam o cuidado de organizarem respectivas tarefas discorrendo sobre série de medidas transmitidas por meio eletrônico ao efetivo funcional que no dia seguinte desembarca na redação. 

Quando assumimos a Redação do Diário do Grande ABC em julho de 2004 encontramos uma barafunda explicitada num banco de horas de três mil dias de dívida da empresa. Em negociação com representantes do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, conseguimos rebaixar um débito de R$ 950 mil para pouco mais que R$ 150 mil, pagáveis em 10 parcelas. 

Daí em diante, graças ao empenho e à determinação do Conselho de Redação, as diabruras de horas viraram museu. Há muito o banco de horas está sob absoluto controle. Ainda não chegamos à equação desejada porque agora temos mais colaboradores para repor horas à empresa do que a empresa em apuros. Situação, convenhamos, muito mais agradável e fácil de ser resolvida. 

A desmontagem da reunião de pauta das 11h, portanto, está ancorada na própria inutilidade prática. Em nome do conservadorismo de não se mexer, o que se tornou convencional era mantido apenas porque existia, como um quadro mal-acabado num dormitório de solteiro em que nenhuma peça de roupa ocupa o lugar certo. 

Jamais se questionou a racionalidade da chegada dos profissionais mais importantes da redação no período da manhã e os contratempos que essa antecipação da jornada de trabalho significava no dia-a-dia de cada um e, também, à própria empresa. Eficiência era o que menos importava. 

Além de suprimir do cronograma a reunião da manhã, deslocamos para as 17h30 a reunião de pauta que se iniciava geralmente por volta das 15h30. Por que o Conselho de Redação alterou essa rota? Porque no começo da tarde geralmente as pautas ainda estão cruas, imprecisas, reticentes. Por volta das 18h, quando efetivamente cuidamos do que vai sair no jornal no dia seguinte, todos já contam com o desenho mais bem-acabado dos fatos e não se corre o risco de chutar fora. 

Somente em casos excepcionais, como a morte do jogador Serginho, por exemplo, a manchete principal do jornal que sai da reunião do Conselho de Redação não se consolida na impressão do caderno por volta de duas horas da madrugada. 

Há também casos em que, mesmo encerrada a reunião de pauta, dois ou três acontecimentos continuam a disputar a manchete principal. O desenrolar dos fatos nas horas seguintes decidirá quem ocupará o topo da primeira página. 

Talvez a melhor figura de linguagem para explicar o que é a corrida pela manchete seja o fenômeno da vida. Os espermatozoides das editorias jogam o jogo da competitividade pelos melhores espaços da vitrine do jornal. Há dias em que a pauta está recheadíssima e é preciso levar em conta aspectos conceituais para a escolha da manchete principal. Há dias de escassez absoluta, mas que sempre são salvos pelo aperfeiçoamento da linha de montagem. 

Uma matéria aparentemente sem tanto impacto para manchete principal de primeira página acaba turbinada por informações contextuais e, com isso, ganha maior amplitude. São inúmeros casos como esses. 

Um veículo de comunicação move as peças de gerenciamento de recursos humanos de acordo com as características de seus comandantes, como é o caso atual do Diário do Grande ABC. 

Compete a quem lidera o grupo o bom senso de compartilhar a responsabilidade de tomar decisões que eventualmente possam conflitar com o tradicionalismo. Foi o que ocorreu com a supressão da reunião das 11h. 

O trabalho em cadeia dos integrantes do Conselho de Redação a partir das 8h é extraordinariamente produtivo na medida em que associa disponibilidade de recursos humanos e compatibilidade da carga horária contratual.

A prova cabal de que o sistema funciona bem melhor que o anterior está nas próprias páginas do jornal. Ainda estamos longe do nível de qualidade com que sonho e que, por exemplo, pela dinâmica própria de muitos anos, a revista Livre Mercado apresenta. Mas, se não houver quebra do ciclo de avanços por causa de idiossincrasias, haveremos de construir uma história diferente, recheada de bons exemplos de jornalismo competente. 

Aliás, em muitas edições o Diário tem conseguido chegar a esse objetivo, apesar de todas as armadilhas estruturais. E sem precisar da antiquada fórmula de reuniões formais de cada manhã.

 Edição 56 – segunda-feira, 18 de abril de 2005 

Caros diretores, acionistas e colaboradores em geral: 

Estamos confirmando para esta terça-feira, dia 19 de abril, o workshop do Conselho de Redação do Diário do Grande ABC. O evento está programado para o período das 9 às 12h no Hotel Plaza Mayor, em Santo André, ao lado do Pentágono. O objetivo básico é compor um painel de análise dos membros do Conselho de Redação sobre o estágio técnico, material, conceitual e institucional do Diário do Grande ABC de modo a abastecer os quadros diretivos e acionários quanto ao futuro da organização. 

Lembramos a todos que neste 21 de abril estaremos completando o nono mês de implementação do Planejamento Estratégico Editorial. O ritmo que imaginávamos sofreu contratempos nos últimos 30 dias. Esse é um dos assuntos de que trataremos amanhã. O emeio enviado pelo secretário-editor Eduardo Reina aos integrantes do Conselho de Redação, aos diretores e aos acionistas é uma janela providencial que se abriu sobre o assunto.

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