Economia

Afinal, quantos empregos
vamos perder para o vírus?

  DANIEL LIMA - 07/07/2020

Vamos direto ao ponto. Ponto e contraponto, para ser mais preciso. O professor Jefferson José da Conceição declarou ao Diário do Grande ABC que a região perderá 147 mil empregos com carteira assinada neste ano por conta do vírus chinês. Acho um exagero.

As justificativas do professor de ramificações sindicais são frágeis. Prefiro alguns dados macroeconômicos combinados com a realidade local. É claro que levo vantagem nesse confronto. Afinal, 147 mil é uma senhora pancada. Um chute e tanto.

Qualquer número que interponha ao do professor de forma comedida será uma baita vantagem nesse confronto. Em última instância, diante de uma catástrofe ainda maior do que imagino, prefiro errar com juízo do que acertar com chutometria.

A precisão matemática do representante do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura da Universidade Municipal de São Caetano) é fundamentada no preciosismo acadêmico, mais que no suporte empírico.

Reincidência de erros

Não é a primeira nem será a última intervenção de Jefferson da Conceição na produção de cenários. O problema é que erra sempre. Parece que tem a síndrome do egocentrismo institucional como suposta abertura de portas para ganhar manchetes e manchetíssimas do Diário do Grande ABC. Mais abaixo, exponho alguns desses desvarios estatísticos.

O resumo da ópera do professor da USCS é que 20% do efetivo de trabalhadores com carteira assinada em 2018 seriam degolados pelo vírus chinês. Do estoque de 736.374 trabalhadores em todos os setores sobrariam 589.099. Jefferson da Conceição especifica os abates em cada atividade produtiva.

Que os leitores não percam a objetividade. São empregos formais, com carteira assinada. Os informais não entram na contabilidade.

Jefferson da Conceição disse o seguinte de relevante e supostamente estrutural para a projeção diabólica, segundo publicou o Diário do Grande ABC: 

 Na avaliação de Jefferson da Conceição, coordenador do Conjuscs e autor da pesquisa, a baixa nos empregos pode ocorrer porque a crise está prejudicando todos os setores econômicos: indústria, comércio, serviços, construção e agricultura. Inclusive, a estimativa é que o PIB regional caia pelo menos 10% neste ano. “Há consultorias que já estimam a queda da produção automotiva (principal segmento da indústria da região) no Brasil entre 15% e 20% em 2020, já que esta cadeia foi uma das mais afetadas”. Normalmente em período de crise na economia interna, as empresas recorrem à exportação. Porém, a pandemia também afetou o mercado externo e agravou o cenário da indústria nacional. No Exterior, a retração econômica pode chegar a 30%, avalia o docente. Além disso, ele aponta como vilãs para o mercado de trabalho as incertezas causadas pela “descoordenação da ação entre esferas de governo” em relação à retomada da economia e a reforma trabalhista de 2017, que “viabilizou a possibilidade a demissão seguida de eventuais recontratações, com custos futuros menores, e reduziu os custos de ações trabalhistas” – escreveu o jornal.

Viés de sindicalista

Repararam os leitores que Jefferson da Conceição faz abordagens típicas de quem vê o mundo capitalista pela ótica exclusiva de sindicalista militante? É um direito como ex-assessor do Dieese e também do relacionamento com o PT.

É natural que observe a região nestes tempos de pandemia com olhos diferentes. A queda do PIB Regional de 10% já foi apontada aqui neste espaço. E se dará principalmente pelo setor automotivo que, segundo projeção da Anfavea, será o dobro dos 20% apontados pelo coordenador do Conjuscs, assim como as exportações.

Como o Grande ABC é mais vulnerável na atividade, pela importância relativa maior em relação à maioria dos concorrentes, devemos avaliar a possibilidade de rebaixamento da produção ainda maior.

Acredito que Jefferson José da Conceição fez a projeção de carteiras de trabalho decepadas no Grande ABC com base no estrondo de março e principalmente de abril, quando o Brasil praticamente parou por conta da pandemia. Mas as medidas econômicas do governo federal para reduzir os estragos no campo de trabalho, com redução de salários e de jornadas, além de créditos que começam a irrigar a economia, deverão abrandar a situação. 

Receita Federal cresce

Sem contar que já em junho a Receita Federal estourou com recolhimento de impostos muito acima da expectativa e, inclusive superando o mesmo mês do ano passado.

Talvez exista uma tábua de salvação para o professor da USCS na contabilidade macabra exposta aos leitores do Diário do Grande ABC. Seria preciso que a pandemia desse um drible da vaca e impusesse novas quarentenas, agora mais rígidas. Em condições de temperatura e pressão atuais, dificilmente teremos a reprodução anualizada das demissões de abril – ao que parece, porque impreciso, a base da análise de Jefferson Conceição.  Ou seja: ele tratou eventual sazonalidade como regra anual.

Poderia enfeitar o pavão estatístico e buscar no passado recente números que seriam contrapostos aos quase 150 mil avermelhados (no sentido de déficit, não de partido político) do professor Jefferson José da Conceição.

Poderia, por exemplo, citar os anos de chumbo do governo Dilma Rousseff, contemplados com duas recessões virulentas. O Grande ABC perdeu caudalosas porções do estoque de trabalhadores formais, sobretudo na indústria.

Ponto fora da curva

Abro mão disso porque não há nada que se assemelhe ao impacto de curto prazo do Coronavírus. Sobretudo, repito, em abril. Mas, ao que parece, tratou-se mesmo de um ponto fora da curva na intensidade com que se deu e que seria mitigada na sequência. Como, aliás, vem ocorrendo.

Não tenho nenhuma birra pessoal com Jefferson da Conceição. Tampouco com a instituição USCS. Apenas mantenho o vigor de enfrentamentos quando leio informações que parecem descabidas, quando não lotéricas.

Digo mais: mesmo que supostamente o professor acerte no alvo nas tais 147 mil demissões líquidas neste ano, entendo que se trata de aventura. Sobremodo porque não as fundamentou. É um chutão que pode acertar o alvo exclusivamente por obra do destino.

Não li até agora nenhum especialista em macroeconomia ou em mercado de trabalho que tenha feito algo semelhante ao se referir ao Brasil como um todo no mercado de trabalho formal. Que é totalmente diferente do mercado informal.

O professor Jefferson José da Conceição é espécie de calculador maluco. Está sempre pronto, tanto quanto a USCS, para, ante a demanda jornalística, aparecer com dados mágicos. Reproduzo abaixo pedaços conexos de três textos que sustentam a desconfiança de que há um exagero na nova previsão do acadêmico. 

Inacreditável Futebol Clube

na economia do Grande ABC

 DANIEL LIMA - 06/05/2019

“Inacreditável Futebol Clube” é expressão sempre utilizada quando um jogador perde um gol praticamente impossível. Decidi transplantar para o ambiente econômico regional essa marca de incompetência ou de negligência, quando não de despreparo ou pouca sorte, depois de ler um estudo da Universidade Municipal de São Caetano (USCS) que, acredite quem quiser, não só sugere que se coloque em xeque a desindustrialização na região como, pasmem, não atribui um tiquinho sequer de responsabilidade no processo ao sindicalismo egresso do movimento do fim dos anos 1970, com Lula da Silva à frente?

(...) Sob o título “A Mudança no perfil do emprego formal do Grande ABC Paulista nos últimos trinta anos, 1989-2017: como os números devem ser lidos”, poderia, se acadêmico igualmente o fosse apresentar um título semelhante, em oposição àquele enunciado. Mais ou menos assim: “A mudança no perfil do emprego formal do Grande ABC Paulista nos últimos trinta anos, 1989-2017: como negar a inegável desindustrialização e a enorme cota de responsabilidade do sindicalismo”. 

Quanta lorota: monotrilho

multiplicaria PIB por sete

 DANIEL LIMA - 14/05/2019

Está de lascar a campanha em defesa do projetado, mas longe de ser garantido, monotrilho no Grande ABC. E não faltam falastrões estatísticos para vender ilusões com a clara intenção de comover a massa de ignorantes. A mais recente abordagem onírica é do professor Jefferson José da Conceição, da USCS, Universidade Municipal de São Caetano. Nas páginas do Diário do Grande ABC, ele afirmou que o metrô (isso mesmo, metrô, não monotrilho) tem potencial para elevar em até 1,70% em média ao ano o crescimento do PIB (Produto Interno Bruto) do Grande ABC. Acreditem: o monotrilho teria poder extraordinário de multiplicar por sete o crescimento médio anual do PIB Geral do Grandes ABC neste século. Não dá para ficar indiferente a esse amor incondicional pela estupidez estatística. Ou dá?

Antes disso, convém lembrar quem é o professor Jefferson José da Conceição em alguns pontos. Não se trata de um acadêmico qualquer. Recentemente, ele escreveu, na companhia de dois acadêmicos, uma Nota Técnica que expurga da realidade histórica da região dois complicadores indiscutíveis, porque mensuráveis: a desindustrialização estrutural que vem de longe e a participação relativamente forte do sindicalismo cutista nessa derrocada. Uma coisa está ligada à outra, mas para Jefferson José da Conceição, uma coisa (desindustrialização) é sazonal, e a outra (sindicalismo bravio e corporativista) não teve influência alguma nas evasões e na alta mortalidade da indústria.

(...) Para compreender o tamanho do erro estatístico de que o PIB Geral do Grande ABC cresceria adicionalmente 1,70% ao ano, em média, nos próximos tempos, o melhor é partir de uma comparação utilizando dados já consumados.  (...) . Sabem os leitores quanto significaria para a economia do Grande ABC se o volume monetário supostamente estruturado na lógica econométrica dos efeitos do monotrilho fosse mesmo possível? Só nesse século, contando o PIB Geral do Grande ABC a partir do ano 2000, tendo como base o ano de 1999, e chegando-se até 2016, ano mais atualizado dessa medida, o crescimento alcançaria C$ 32.382.065 bilhões. (...) . Em números absolutos os R$ 32,3 bilhões que incrementariam o PIB Geral do Grande ABC significariam o PIB Geral de Santo André em 2016 (R$ 25,8 bilhões) associada aos R$ 3,0 bilhões de Ribeirão Pires e ainda sobrariam R$ 4 bilhões. Tudo isso mesmo. Traduzindo: se o monotrilho do Grande ABC houvesse sido inaugurado em 1999 e seus efeitos miraculosos, segundo a ótica de Jefferson José da Conceição, se confirmassem, o Grande ABC teria tido acréscimo de mais de R$ 32 bilhões no PIB Geral. Ao invés dos registrados R$ 112.048 bilhões de 2016, a região somaria R$ 144,4 bilhões.

(...). Em números relativos, a projeção de Jefferson José da Conceição significaria que, nos 17 anos pós-1999, numa comparação ponta a ponta, o PIB Geral do Grande ABC teria dado um salto expressivo de 28,90% de forma adicional. Na realidade, nesse novo século o PIB Geral do Grande ABC cresceu míseros 4,030%. A média anual de crescimento chega, portanto, a 0,237%. Isso mesmo: não há erro de digitação. Não crescemos nem 0,5% em média a cada ano. Um desempenho pífio que o monotrilho salvador da pátria nos libertaria.

(...) Na reportagem publicada no Diário do Grande ABC o professor Jefferson José da Conceição faz breve menção a eventual literatura que daria sustentação à esdruxula correlação entre crescimento do PIB Geral e a operação de algo como o monotrilho. Desafio-o publicamente a provar que a obra sobre trilho ou qualquer obra do gênero de transporte urbano é suficiente, isoladamente, para gerar riqueza expressiva. (...). A simples passagem por dentro dos territórios de Santo André, São Caetano e São Bernardo não quer dizer muita coisa além, e isso é mesmo importante, facilitar a mobilidade urbana. Entretanto, sem um plano econômico muito bem estruturado para que seu entorno ganhe vida, não passará mesmo de um traçado de transporte. Como o é o monotrilho implantado na Capital.

(...) Para se ter ideia do quanto o professor Jefferson José da Conceição chuta às alturas para dar ao monotrilho uma aura de santificação dos negócios, basta lembrar que nos 16 anos já apurados do PIB Geral dos Municípios Brasileiros, apenas três dos seis municípios entre os mais importantes da economia paulista registraram crescimento médio superior a 1,70% ao ano durante os últimos 17 anos. Osasco cresceu 15,72% ao ano em média, Sorocaba 3,92% e Campinas 3,00%. Barueri praticamente empatou com o monotrilho, com crescimento de 1,88%. Os demais, todos, perdem a disputa. Mauá cresceu 1,42% ao ano, Ribeirão Pires 1,04%, Santo André 0,89%, São Caetano 0,63%, São Bernardo 0,33% e Rio Grande da Serra praticamente zero. Diadema perdeu em média por ano 0,85% no PIB Geral. São José dos Campos perdeu 0,027%. 

Deixem a USCS transformar

Grande ABC em Nova China

 DANIEL LIMA - 17/09/2019

Ninguém segura os acadêmicos da USCS (Universidade de São Caetano). Eles estão ensandecidos de paixão pelo crescimento da região. Querem transformar na canetada, na planilha, no papel, o mambembe Grande ABC em fervilhante Nova China. Vendem ilusões com engenhosidade do lustro professoral. Os incautos caem feito patinhos. Quando se juntam a sanha da notoriedade por manchetes de jornais e a tentação de fazer manchetes mirabolantes, tudo pode acontecer.  Nosso PIB (Produto Interno Bruno) vai empinar números fantásticos nos próximos tempos, segundo o receituário rocambolesco da Universidade de São Caetano. Nesse ritmo, mais um quesito aqui, outro ali, eis que os chineses vão desembarcar com pesquisadores ultraqualificados em nosso território para estudar o fenômeno da multiplicação do PIB que eles imaginam ter inventado.

Portanto, basta que se ouçam os estudiosos da USCS e tudo estará resolvido nestas terras que em se montando carros tudo dá. Eles têm a fórmula mágica do crescimento regional. Anunciem um projeto de obra, alguma coisa nova, e está resolvido. Eles fazem cálculos extraordinários. Querem ver dois recentes exemplos do quanto esses acadêmicos simplificam o complexo? Com o metrô, que era monotrilho e que virou BRT, cresceríamos 1,70% ao ano. Com o Aeroportozão que virou Aeroporto e agora é Aeroportozinho, cresceremos outros 1,60% ao ano.

(...). Quem inventou que o Grande ABC crescerá 1,60% em média ao ano (não se estabeleceu por quanto tempo com a construção de um aeroporto foi o gestor do curso de Ciências Aeronáuticas da USCS, Volney Gouveia, do Conjuscs (Observatório de Políticas Públicas, Empreendedorismo e Conjuntura). Segundo a reportagem publicada no Diário de Grande ABC, a construção do aeroporto injetaria na economia do Grande ABC R$ 1,8 bilhão por ano, ou 1,60% do PIB. O montante prevista se baseia nos reflexos em cadeia tanto da construção do equipamento como de sua operação e manutenção, e envolve setores petroquímico, químico, plástico, entre outros. É, por assim dizer, uma dádiva. O estudioso da Universidade de São Caetano fornece detalhes que dão robustez à fantasia. Afinal, sem números e detalhamentos técnicos não se alcança mesmo o grau de confiança de uma informação tão relevante.

(...) Tudo não passa de chutometria. Querem um exemplo prático? É claro que o aeroportozinho que seria construído no Grande ABC (em plena área ambiental, vejam só quanto estupidez) nem de longe se assemelharia ao Aeroporto de Cumbica, em Guarulhos, por razões óbvias. Confrontá-los em termos de perspectivas seria um acinte, não é verdade? Pois bem: sabem os leitores qual foi o crescimento médio anual do PIB de Guarulhos neste século? Resposta: 1,48%. Traduzindo: mesmo com muito maior potencial de crescimento econômico que o Grande ABC, porque não depende exclusivamente de uma atividade econômica, e contando com um aeroporto internacional, Guarulhos não avançou no crescimento do PIB médio anual como o que pretende o estudioso da Universidade de São Caetano para o Grande ABC.

(...). Estou receoso de que para cada nova potencial, mas sempre adiada obra de infraestrutura no Grande ABC apareça algum estudioso da Universidade de São Caetano que, louco por manchetes e manchetíssimas, desfile novos patamares de ganhos anuais de avanço médio do PIB. Não sei, aliás, como não saíram com dados sobre os efeitos da inauguração do Piscinão em São Bernardo, das obras de contenção de enchentes no Bairro Fundação em São Caetano, da prometida Estação Pirelli em Santo André e do Polo Tecnológico de Santo André que não sai dos sonhos do prefeito de plantão. Se deixarem esses moços livres, leves e soltos, os chineses perderão o rumo se aqui aportarem. Chegaremos brincando, brincando, a 20% de crescimento médio anual.

Só para arrematar: sabem os leitores qual foi o crescimento médio anual do Grande ABC neste século, conforme dados oficiais do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) que analisei detidamente há pouco tempo: grandiosíssimo 0,25% por ano. Um quarto de um por cento ao ano. Não se brinca com informação e muito menos com análises.

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