Imprensa

Nove meses de cinco anos que
transformariam o Diário (38)

  DANIEL LIMA - 02/07/2020

Estamos nos últimos dias de abril de 2005. Mais uma semana e estava, este jornalista, fora do comando do Diário do Grande ABC. A grande reformulação editorial daquela publicação se encerraria dois dias depois de um workshop histórico. Naquele dia, 19 de abril, que vai chegar, todos os executivos da área mais importante daquela empresa, a Redação, participaram de um encontro gravado em áudio. 

Um áudio sobre o qual falaremos na semana que vem. Diretores e acionistas não participaram, embora convidados. As três horas e meia de gravação foram encaminhadas a todos eles, como testamento. Quase ao acaso encontrei aquela gravação.

É uma preciosidade do jornalismo regional. 

O Diário do Grande ABC que Ronan Maria Pinto comprou estava sucateado em infraestrutura e debilitadíssimo na Redação. Cada edição que saia de madrugada rumo às famílias da região era resultado de esforço coletivo sobre-humano da Redação. Aquela equipe deveria ter sido condecorada.

Acompanhem a edição originalmente número 54, transformada em edição 38 nesta série inédita. Uma série que reproduz integralmente as edições da newsletter Capital Digital Online, instrumento que criei para manter a corporação informada sobre as grandes mudanças. Nesta edição, revelamos mais alguns pontos de um trabalho que então nem completara nove meses.

 Edição 54 – terça-feira, 12 de abril de 2005 

 DANIEL LIMA 

Pergunta: O que foi introduzido de novidade nas editorias de Economia, Política Regional, Esportes, Cultura&Lazer e Setecidades? 

Resposta: Como se sabe, essas editorias são chamadas "quentes", porque tratam do dia-a-dia. A quase totalidade das informações locais do jornal que circula diariamente deriva da atuação dessas editorias. O que mais intensificamos nas relações com profissionais responsáveis por essas áreas, predominantemente nas reuniões de pauta de final de tarde, é o caráter de regionalidade e de contextualização do noticiário. 

Regionalidade é o sentido de trazer para a geografia regional e também metropolitana o conteúdo de informações produzidas pela equipe de jornalistas. 

Não só isso: repassamos a todos a importância de terem foco em determinados assuntos, esgotá-los ao longo de coberturas e, acopladamente ou não, inserir novos temários para ações análogas. Trocando em miúdos: o jornal não pode ficar descoberto em assuntos que dizem respeito ao interesse dos leitores. E quais são os maiores interesses dos leitores? 

Poderia discorrer laudas e laudas para responder de forma organizadamente científica à indagação, mas serei breve: basta acompanhar as pesquisas de opinião fartas em períodos eleitorais e não menos disponíveis em outros momentos para constatar que questões como saúde, educação, desemprego, meio ambiente, habitação, segurança pública, trânsito e mais algumas lideram a lista de inquietação da população. 

Não perder de vista essa lógica, avançar e aprofundar o noticiário, são medidas mais próximas dos anseios de leitores também consumidores, também eleitores, também torcedores, também motoristas. 

Isso tudo, alçado ao ambiente de produção, significa os elementos com os quais temos de lidar diariamente para que a clientela se sinta integralmente atendida. 

É lógico que não basta pura e simplesmente acompanhar esses temários. O jornal precisa de qualidade informativa, de informação redonda; enfim de robustez que, todos sabem, é processo demorado. Principalmente quando se assume uma Redação sem eira nem beira durante muitos anos, esfacelada em princípios, em conceitos, em relacionamentos pessoais. 

É claro que também há variáveis nesse conjunto de temas preferenciais de cobertura no dia-a-dia. As demandas da Editoria de Economia são outras e assim são tratadas. O triunfalismo de outros tempos, escondendo-se a realidade de depauperação econômica e social do Grande ABC, foi para a lata do lixo. Não podemos, em nome de suposta regionalidade construtiva, nos permitir a mentira descarada, a mascaração desmedida. A responsabilidade de informar não pode se subordinar a qualquer tipo de interesse, menos ou mais grave em delituosidade ética. 

Fizemos história com o jornalismo que aplicamos na revista Livre Mercado exatamente porque não nos deixamos levar pelas forças de pressão. Esmiuçamos, com nossa equipe, os últimos e mais tenebrosos 15 anos da história econômica e social do Grande ABC. Fomos fundo. Desobstruímos os obstáculos. Retiramos a máscara de prestidigitadores numéricos. É isso que o Diário vem efetivando de uns tempos para cá, depois de período longamente sombrio. Não fundamos e não mantemos à toa o IEME (Instituto de Estudos Metropolitanos). O IEME é nossa prova-dos-nove contra dilapidadores numéricos e estatísticos. 

Tudo isso pode parecer superficial ou menos importante para quem não vive a realidade do Grande ABC ou, mesmo vivendo, é suficientemente relapso no tratamento de questões de cidadania e de responsabilidade social. Somente quem viveu intensamente aqui pelo menos na última década e meia sabe a relevância de insistir-se na pregação de um jornalismo antenado com os efeitos socioeconômicos da abertura de fronteiras alfandegárias mais estúpida que esse País já viveu, combinada com a artificialidade do poder da moeda nacional e com as deletérias taxas de juros. 

É isso tudo e muito mais que procuramos repassar aos editores e repórteres, além de secretários-editores, editores-secretários e secretários-secretários. A conceituação de cobertura jornalística envolve o interesse público regional conectado com nuances nacionais e internacionais. Não somos uma ilha de regionalidade. Não podemos jamais transformar o mote do jornal em objetivo provinciano. Regionalidade sem metropolização e sem globalização não passa de caricatura editorial. No Planejamento Estratégico Editorial que formulamos para o Diário do Grande ABC essa diferenciação está explícita. É verdade que há dificuldades de aplicação. Nem poderia ser diferente para quem enxergava de forma difusa o que se pressupunha a linha editorial da publicação, de fato uma colcha de retalhos. 

Para completar: destilamos entre os repórteres, editores e secretários o princípio de que a demanda externa é uma espécie de estouro da boiada que precisa ser organizada, sob o preço de impingir ao veículo uma confusão dos diabos em termos de informação. Nem tudo que vem da sociedade é interessante para o jornal. Há movimentos diversos a permear grupos de pressão que ao longo de anos exploraram a fragilidade editorial do jornal. Não faltaram os espertalhões que se locupletaram das páginas do jornal. Qualquer vacilada, qualquer descuido, eles mostram as garras novamente para impor informações vazias, falsas, interesseiras, quando não desonestas. 

Não estamos imunes, evidentemente, a erros. Mas os tropeços já se reduziram e, enquanto estiver neste cargo martelando diariamente esses conceitos, asseguro que as inconformidades serão mais e mais minimizadas. Não podemos fazer jornal apenas para quem diariamente recebe o produto em casa e que resistiram às oscilações do produto. Temos de fazer um veículo que seja reformista e que, para tanto, precisa alcançar novos públicos, aqueles que, igualmente nesse período, deixaram o jornal em segundo plano. 

Contamos com 50.851 famílias da classe rica no Grande ABC e outras 223 mil de classe média-média. Temos, portanto, imensidão de leitores a conquistar.

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