Administração Pública

Vírus: Fundação e Faculdade
de Medicina fora de combate

  DANIEL LIMA - 30/06/2020

Não se joga um jogo de futebol com bola de basquetebol. Não se pilota um avião com motorista de taxi. Não se prepara uma refeição de milionários com preparador de cachorro-quente. Não se movimentam as pedras de xadrez com jogador de carteado. Tudo parece tão óbvio que não se entende por que até agora não caiu a ficha do combate ao vírus chinês no Grande ABC.

O que estão fazendo a Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina do ABC? Por que especialistas não assumem a coordenação geral? Por que o Clube dos Prefeitos, incapaz de sustentar qualquer política pública sem passar vexame, continua à frente da empreitada?

O Grande ABC está no bico do corvo das estatísticas de letalidade do Coronavírus, mas nem por isso reage de forma coordenada. Entregar a tarefa ao Clube dos Prefeitos é uma barbaridade de equívoco. No máximo, a entidade poderia coordenar o quinhão político-institucional do Grande ABC junto às esferas estadual e federal, como vem mal e porcamente fazendo.

Mas daí a desdenhar da ciência, da qual cuidaria a Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina do ABC, é demais. Se tanto uma instituição quanto outra tem o que há de melhor em recursos humanos de saúde, por que estão fora desse combate? 

Servilismo improdutivo

É provável que os sabidões que assessoram os prefeitos da região deem de ombro ante a sugestão de entregarem a rapadura a quem é da ciência. O secretário-executivo do Clube dos Prefeitos, Edgar Brandão, é desses personagens que não aceitam propostas e sugestões de terceiros, mas arrastam servilismo aos poderosos de plantão. Tudo que venha de fora sem recomendação de mandachuvas ele joga na lata do lixo.

Por isso a reviravolta no combate à pandemia é uma obrigação precípua dos prefeitos. E, principalmente, dos três prefeitos responsáveis pelo comando da Fundação do ABC.

Nesse ponto, é melhor esquecer temporariamente (ou deixar a tarefa para o Ministério Público Estadual ou forças federais) os problemas que a instituição apresenta na Central de Convênios, a caixa de pandora que um dia será aberta.

A Fundação do ABC precisa botar a mão da expertise na massa de necessidades. Com um quadro de 25 mil funcionários, o que a torna megacorporação em vários fronts da medicina, está mais que consolidada uma reserva de especialistas e também uma imensidão de capilaridade espacial para enfrentar o vírus chinês com impetuosidade, sabedoria e eficiência.

Clube para política

Deixem os chefes de Executivos fazerem políticas municipalistas e também regionais a bordo do Clube dos Prefeitos com a crise da pandemia. Coloquem os especialistas, os técnicos, para definir estratégias e ações para enquadrar o vírus nos rigores da saúde pública.

Não é mais possível admitir que o confronto seja às cegas em termos de regionalidade. O Grande ABC está a reboque da Capital durante a pandemia. Corre atrás do governador João Doria. Foi até onde o desgaste tornou impossível seguir à risca as regras do contingenciamento horizontal.

Quando a situação econômica começou a pesar demais na avaliação da sociedade, dispararam em busca de remediação. E abriram a economia quando não deveriam mais abrir, até porque abriram sem ciência, sem arte, sem medidas bem articuladas. Quem é o Clube dos Prefeitos que mal sabe o que se passa na economia da região a ditar regras na saúde da região?  

Para quem entende

Mas esse não é o problema principal. O que interessa mesmo é entregar o que é de direito a quem entende do riscado. A Fundação do ABC pode ser um poço sem fundo na área da Central de Convênios, mas conta com centenas de profissionais de saúde que, reunidos em grupo, sob a mesma coordenação, desencadeariam medidas de enfrentamento ao vírus.

Imaginem esses profissionais que seguem diariamente no campo de batalha para atender a população mais sofrida caso se juntassem a servidores públicos em geral, sobremodo os comissionados, formando batalhões de gestão e atendimento e também de campo? Uns cuidariam do corpo, outros da obediência diplomática às regras de confinamento e abertura.

Mas o Grande ABC não tem nada disso. Não tem a Fundação do ABC nem a Faculdade de Medicina onde interessa. Nem os servidores públicos, sobretudo os comissionados, em trabalho de campo, treinados e uniformizados para orientar a população.  O Poder Público afasta-se da sociedade.

Exemplo italiano

Na Itália, o governo colocou voluntários nas ruas. Gente com alma para evitar o agravamento da pandemia. No Grande ABC, servidores públicos teriam muito a contribuir, mas sem incentivos motivacionais permanecem como reservas inúteis. Tudo porque o Clube dos Prefeitos não é do ramo da regionalidade responsável. É um escritoriozinho burocrático repetidor dos mandos e desmandos do governador do Estado.

A Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina mantêm laços de parentesco funcionais. Teriam, portanto, facilidades para se entenderem e combaterem o que deve ser combatido. Sem chutometria. Sem achismo. Sem gataborralheirismo em relação à Capital e ao governo do Estado.

O divisionismo municipalista no confronto com o vírus é um desperdício de energia, de racionalidade, de recursos financeiros e humanos. É tudo que o adversário precisa para continuar a multiplicar vitimais fatais.

Poderes limitados

O Clube dos Prefeitos é apenas e tão somente uma ferramenta de exposição interna junto à mídia. Sobretudo nos encontros com o governador para tomar conhecimento da eventual nova fase cromática a ser liberada para tentar reanimar a economia sem comprometer a saúde pública mais que já foi comprometida.

O Clube dos Prefeitos é a plástica mal-ajambrada. Não combina com pressupostos de atenção médica qualificada que a Fundação do ABC e a Faculdade de Medicina multiplicam por centenas de profissionais.

A parceria entre Fundação do ABC e Faculdade de Medicina do ABC amplia esforços da ciência. Arregimentaria proposições e ações coordenadas entre os municípios, e mesmo dentro de cada Município. 

Há uma imensidão de possibilidades ainda abertas para reduzir os estragos da pandemia no Grande ABC. Mas nada será possível obter em forma de diagnósticos certeiros sem que a ciência se aproxime e dê as cartas de acordo com as características municipais e regionais do Grande ABC.

Os milhares de profissionais de saúde da região sabem melhor do que ninguém onde estão os vácuos que propiciam o avolumar da pandemia.

Se a Fundação do ABC serve tanto à Central de Convênios para a compra de materiais e equipamentos dos municípios durante a pandemia, por que não serviria para uma articulação densa e a salvo de improvisações tendo os sete prefeitos como clientes a serem atendidos?

O maior erro do Grande ABC durante a pandemia é ter-se fingido regionalizado quando mais uma vez se comporta de forma municipalizada.

As prefeituras atuam dentro dos estritos limites cartográficos. O vizinho que se vire. Sinergias que se explodam.

O Clube dos Prefeitos é um arranjo institucional usado numa emergência sem ter sequer a cultura da regionalidade. Ao longo dos anos viveu de troca-troca de ocupantes dos postos de comando e de assessoramento. Sem solução de continuidade.

Sem cultura e eficiência 

Os bons profissionais que passaram pelo Clube dos Prefeitos logo se foram com a troca de comando presidencial. A cada novo titular, novas filosofias, novas decisões, novos colaboradores. Não sobra quase nada em forma de cultura de regionalismo. Nem de projetos. Nem de programas. Nem de ações sequenciais.

Antes de desaparecer desse mundo o então presidente do Clube dos Prefeitos, Celso Daniel, em entrevista a este jornalista, antecipava a pretensão de fazer aprovar numa das próximas assembleias a contratação de quadros técnicos que teriam atuação permanente, independentemente de quem fosse o prefeito dos prefeitos. Nada se consumou após a morte do único prefeito regional do Grande ABC.

Por essas e por outras é um contrassenso entregar ao Clube dos Prefeitos o comando de algo que nem pode ser chamado de grupo de trabalho para derrotar o Coronavírus.

O Grande ABC precisa o quanto antes de uma força-tarefa de profissionais do ramo para estancar a hemorragia. Somos um território que amarga dados calamitosos sobre o vírus. Sem contar a obscuridade dos investimentos com dinheiro federal. Mas isso é outra história.

Arremedo institucional

Em recente entrevista ao Diário do Grande ABC, o prefeito dos prefeitos do Grande ABC, Gabriel Maranhão, expôs o tamanho da cratera que se abriu na interlocução daquela instituição com a sociedade em geral. Vivemos um vácuo de lideranças de cunho regional tão grande que entre os atuais prefeitos não há um exemplar sequer que possa ser catalogado como vocacionado a enxergar os sete municípios com preocupação semelhante ao que observa o próprio Paço Municipal.

O Clube dos Prefeitos não tem estrutura física e de pessoal para o enfrentamento ao vírus. É um arremedo institucional que alguns pretendem vender como símbolo de competência de regionalidade durante a pandemia. Só faltou combinar com os russos em forma de dados catastróficos que todos os dias saltam das estatísticas de mortabilidade. Enquanto isso, um exército de especialistas está desalojado da empreitada.

Instalaram a política-partidária acima da ciência e também da economia. O Grande ABC consegue, portanto, ultrapassar a dicotomia federal e estadual que coloca Economia e Saúde em cantos diferentes. Aqui tudo é possível em matéria de superação de erros dos outros.  

Para completar: já morreram de Coronavírus no Grande ABC 1.109 pessoas, média de 39,04 a cada 10o mil habitantes. Vinte por cento a mais que a média do Estado de São Paulo, com 14.398 vítimas fatais. E 30% acima da média nacional, com 58.314. A densidade demográfica relativamente elevada e a localização geográfica, na Região Metropolitana de São Paulo são complicadores que deveriam ser enfrentados com organização coletiva. Superamos largamente a maioria das capitais do País, semelhantemente complexas em desigualdades sociais e mobilidade urbana.

Leia mais matérias desta seção: