Economia

Vírus vai agravar ainda mais
exclusão social em São Bernardo

  DANIEL LIMA - 06/05/2020

Para onde a vaca da economia de São Bernardo vai, o Grande ABC como um todo vai atrás. Por isso, toda cautela é pouco. Toda preocupação também. O vírus chinês deixará um rastro de elevação do quadro de exclusão social na forma de população de pobres e miseráveis que, só neste século, cresceu 26,37%. E quem puxou a corrente para trás da mobilidade social é justamente São Bernardo, Capital Econômica da região.

Nos 20 anos a partir de 1999, São Bernardo acrescentou 8.979 famílias desse estrato social numa geoeconomia cada vez mais cambaleante. E perdeu 1.968 famílias de classe rica. Multiplique cada família por três pessoas e uns quebrados e imagine o tamanho do rombo.

Temos, portanto, desmobilidade social. Que não está restrita a São Bernardo. O Grande ABC não é uma ilha.  Pior que isso: é altamente sensível à contaminação também no campo econômico. Se o vírus chinês se espalha com facilidade em regiões de alta densidade demográfica, como se vê a cada balanço de novas vítimas fatais, o vírus da desigualdade social em tempos de paz ou de pandemia não fica atrás.

Vírus econômico é pior

O vírus econômico que impactou o Grande ABC ao longo de pelo menos três décadas é mais destrutivo que a crise sanitária que abate a todos. O impacto atual e breve sugere recomposição futura, mesmo que a passos de cágado. O impacto gradual, detalhadamente acompanhado por este jornalista, é de curva irreversível até que surjam autoridades públicas, agentes econômicos e agentes sociais dispostos a arregaçar as mangas.

Não tivemos em 40 anos quem conseguisse achatar a curva da desindustrialização. O processo perdeu ímpeto, mas continua ativo por conta de exaurimento de forças. Certamente morrerei sem ver essa grande reforma. E olhe que não pretendo ir tão cedo. Corro do vírus como o diabo foge da cruz.

O caso de São Bernardo, mal-ajambrada historicamente na configuração de equilíbrio entre capital e trabalho, com o corporativismo sindical cego provocando danos irreversíveis, é muito mais grave.

Não existe no País um caso tão complexo e preocupante quando se pegam os universos de ricos em confronto com pobres/miseráveis. 

Pobres/miseráveis avançam

Em 1990 a proporção de famílias ricas em relação ao extrato mais sofrido da sociedade era de 2,12. Ou seja: para cada 2,12 famílias de pobres/miseráveis moradoras em São Bernardo, havia uma família de classe rica. Neste 2020, sem contar os efeitos da pandemia do Coronavírus, há 5,88% famílias pobres/miseráveis para cada família de classe rica. Um crescimento relativo de 177,36%.

São Bernardo contava em 1999 com 18.823 famílias ricas e 39.957 famílias pobres/miseráveis. No balanço deste novo século são 9.844 famílias ricas e 57.908 famílias de pobres/miseráveis. Quando ricos são cada vez menos e pobres/miseráveis cada vez mais, há algo que precisa ser repensado. Sobretudo quando a proporção é gigantesca. Caso de São Bernardo.

A periferização ocupacional tornou São Bernardo um território em transe. Combinada com o enfraquecimento econômico de deserção e mortalidade no setor industrial, eis que temos um caldo de cultura muito propício às dores da desigualdade social. Os supostos humanistas que querem o mundo menos desigual talvez fiquem felizes quando a classe rica for devastada de vez.

O que significam os 177,36% de aumento relativos de famílias pobres/miseráveis em relação a famílias ricas em São Bernardo? Que esse percentual quer dizer?

Demais municípios

Peguemos os demais municípios do Grande ABC. No caso de Santo André, por exemplo, o crescimento foi três vezes inferior ao de São Bernardo, de 46,06%. Em São Caetano os pobres/miseráveis avançaram 66,51% ante a classe rica. A periferia do Grande ABC, menos relevante no cômputo geral, seguiu processo inverso. Em Mauá a classe rica cresceu 34,50% mais que os pobres/miseráveis. Em Diadema foram 18,73% e em Ribeirão Pires 10,12%. A pequena Rio Grande da Serra viu os ricos cresceram 69,74% relativamente aos pobres/miseráveis.

No geral, quando se pega a base de dados da Consultoria IPC de 1999 e se compara com os dados deste ano, o Grande ABC dos ricos sofreu queda de participação relativa no universo de famílias de 22,71%, enquanto os pobres e miseráveis aumentaram em 26,37%. Em 1999 o Grande ABC contava com 3,90% famílias pobres/miseráveis para cada família de ricos. Em 2020 são 6,42% pobres/miseráveis para cada família de classe rica.

Contextualizando os dados

Sempre procuro adotar referenciais externos à geografia regional para os leitores terem quadro comparativo mais interessante como fonte de observação. Para tanto criei o G-22, o Clube dos 20 Maiores Municípios do Estado de São Paulo, exceto a Capital e com a inclusão de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra para completar o time do Grande ABC. O que houve de remelexo entre ricos e pobres/miseráveis neste século, já contando com dados atualizados da Consultoria IPC?

Se a participação relativa de pobres/miseráveis no confronto com a classe rica no Grande ABC acusou crescimento de 64,61% nos sete municípios (de 3,90 pobres para cada família rica em 1999 para 6,42% em 2020), no G-15 (os integrantes do G-22, exclusive Grande ABC), a taxa foi praticamente a metade, de 33,33%. Eram nesses 15 municípios, na média geral, 3,90 famílias de pobres/miseráveis para cada família de classe rica e passou para 5,20. Notaram que no confronto entre o nosso G-7 e o G-15 (que formam o G-22), tínhamos uma vantagem estreitíssima e agora estamos atrás?

O Brasil como um todo, num total de mais de seis mil municípios, teve desempenho menos comprometedor entre ricos/pobres/miseráveis do que o G-22 desmembrado em G-7 e também em G-15. Na base de cálculo, em 1999, sempre segundo dados da Consultoria IPC, o País contava com 10,14 famílias de excluídos para cada família do estrato social mais elevado. Neste 2020 o total subiu para 13,17. Um crescimento relativo de 29,88%. Menos da metade do registrado pelo Grande ABC (G-7) e um pouco abaixo do G-15.

Como devem ter observado os leitores, mesmo antes da pandemia o Brasil caminhava inexoravelmente para a redução de famílias de classe rica (não são famílias de milionários não!) enquanto se amontoam os pobres e miseráveis, agora vítimas preferenciais do Coronavírus, antes concentrado nas classes mais abastadas. Mais abastadas é força de expressão. A classe média tradicional e o proletariado (sobre os quais vou escrever nos próximos dias) estão no meio do tiroteio da pandemia e da economia.

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