Política

Como oposição aos prefeitos
pode ganhar espaço eleitoral?

  DANIEL LIMA - 25/03/2020

A extensão temporal do Coronavírus vai determinar as probabilidades dos candidatos de oposição nas eleições deste ano no Grande ABC. Seriam eles competitivos para valer ou não passariam de figurantes? Quanto mais o vírus esticar o prazo de ameaça e vítimas, mais os atuais titulares dos paços municipais deverão ganhar fôlego. Você acredita nisso ou observa outro ângulo? 

Somente uma situação de extremo impacto que comece no governo federal e se estenda aos Estados e aos municípios poderia favorecer os opositores. Por enquanto, o jogo jogado é amplamente favorável a quem tem o mando do jogo, o árbitro e a maioria da torcida a favor. A oposição sabe que qualquer movimento das pedras poderia soar insensível e oportunista. Mesmo que a intervenção seja providencial e certeira. 

Mesmo sem flexibilidade orçamentária, mesmo sem condição de esticamento fiscal, mesmo sem qualquer possibilidade de manobra monetária, porque os municípios são a menor instância de poder entre os poderes do Executivo, os atuais ocupantes dos paços municipais contam com ferramentas que os manteriam na vitrine de percepção dos eleitores. 

É claro que com os riscos inerentes também devem ser avaliados, porque, afinal, trata-se da última estação midiática na esfera institucional, embora a primeira no contato com a população. 

Aferimento diário 

Quanto menos os atuais prefeitos se submeterem a fluxos indomáveis de atendimentos em relação à capacidade de absorção da demanda, mais poderão tirar de letra a tempestade que se prenunciava nos primeiros dias. Aferir diariamente o grau de satisfação e de instalação dos doentes ou suspeitos de portarem o vírus é uma questão-chave. E esse ponto aos poucos vai deixar o casulo exclusivamente de saúde e vai invadir a grande área econômica. Ou os leitores acham que na medida em que o dinheiro das famílias vai se esgotando o estresse psicológico não afloraria proporcionalmente como um bumerangue? 

O inesperadíssimo vírus é um elemento extra no calendário eleitoral nacional. Até porque ao resolver dar as caras colocou em dúvida a manutenção do pleito. Já há movimentação para postergar os atuais mandatos dos prefeitos até 2002. 

A proposta é juntar tudo em outubro daquele ano; ou seja, teríamos a unificação eleitoral que abrangeria desde a disputa aos Legislativos Municipais até a Presidência da República. Essa variante carregaria peso sobressalente de interrogações porque, da mesma forma que poderia favorecer às grandes estruturas partidárias, também encaminharia a disputa a penalidades a essas mesmas agremiações, como em 2018. Tudo dependeria do momento econômico e social, principalmente. 

Artilharia pública 

Mas, voltando ao que interessa, os opositores aos atuais prefeitos parecem atordoados. Estão sem rumo ante a situação inédita que se apresenta. Os prefeitos não são os queridinhos da grande mídia. Estão numa escala de valores institucionais muito abaixo de governadores de Estado e da presidência da República. Mas a mídia municipal e regional se vira como pode para ter alguma repercussão. 

E os prefeitos atuais gozam de vantagens comparativas em relação aos adversários. Afinal, há imensa agenda a colocar em campo, feita de materialidades com impacto social. Os opositores, exatamente por serem opositores, ou seja, sem mandatos, ainda não encaixaram um golpe sequer para se fazerem notar. A máquina pública, artilharia pesada de quem detém o poder, está sendo acionada mais que nunca. E poderá ganhar reforços nos próximos dias porque esferas estadual e federal sabem que o Coronavírus está nos municípios.

Tenho a impressão de que terá o caminho eleitoral menos sujeito a chuva e tempestade o prefeito de plantão que cometer menos erros. Medidas espetaculosas são um grande risco. Carregar demais no marketing, mesmo que fruto de planejamento sério, pode não dar os resultados desejados. 

Oportunidades e riscos 

Os prefeitos não podem esquecer que não estão no comando tático e estratégico do macroproblema de combate ao Coronavírus. Se nem o governo federal e os governos estaduais têm consolidado a garantia de que estão fazendo tudo certinho, até porque rebocam experiências internacionais, por que os prefeitos acertariam o alvo? 

Vou dar um exemplo prático: quem pode assegurar que o hospital de campanha que o prefeito Paulinho Serra promete para o Estádio Bruno Daniel e o Ginásio Pedro DellAntonia dará os resultados esperados? Haveria superdimensionamento da pandemia a ponto de essas medidas se tornarem desperdício? Haveria uma leitura correta do quadro nacional e internacional e o vírus precisa mesmo de reforço de enfrentamento? E se houver mesmo um encaixe entre oferta e demanda, quem garante que haveria gestão sem atropelos da imensidão dos enfermos? 

Querem outro exemplo? Até que ponto a declaração jamais negada pelo prefeito Orlando Morando sobre a perspectiva de São Bernardo registrar 12 mil mortos durante o período de ataque do vírus acalentaria entre os adversários o sonho de desclassificação do tucano como gestor público? Quantos não estariam pensando em preparar cruzados certeiros na mandíbula supostamente alarmista do prefeito? E se o prefeito der um abraço mais adiante na confirmação pouco provável da projeção, o que não teria de retórica para propagandear que o cenário de devastação foi antecipadamente dramatizado como apelo à solidariedade e apoio à Administração? 

Caminhos perigosos 

Sei que tudo o que escrever nesse período de apagão geral no horizonte de interpretações tenderia à desmoralização no futuro. Por isso prefiro relativizar. Seria descuido imperdoável utilizar certezas de raciocínio onde impera nebulosidade dos fatos e das possibilidades. 

Os adversários dos prefeitos atuais devem viver drama que impacta particularmente a classe política. Nem o direito de explorar uma das vertentes em busca de votos, no caso a especulação em forma de testes para descobrir o caminho da vitória, os opositores contam nestes dias. Como dar passo seguro rumo ao protagonismo de uma agenda qualquer se o embaralhamento provocado pelo vírus e em seguida por decisões do governo federal e de governos estaduais vai muito além de peças de um quebra-cabeça a ser decifrado sem maiores contratempos. O que os opositores têm pela frente é um nó-cego que pode exigir a ruptura dos padrões de compreensão de logicas políticas previsíveis de tanto uso. 

Aparentemente quem surge em primeiro plano nesse instante inicial de uma guerra que promete muitos capítulos é o prefeito de São Caetano, José Auricchio. Bafejado pela sorte de comandar uma cidade de apenas 15 quilômetros quadrados e de infraestrutura pública solidificada ao longo de décadas, as medidas iniciais do prefeito parecem sob medida para aquietar a população cuja média de idade é a mais elevada da região. São Caetano conta com uma população de idosos que, diferentemente do registrado em algumas regiões da Itália, está sob monitoramento especial da Prefeitura. 

A dinâmica de São Caetano é especialíssima no Grande ABC entre outros motivos porque os laços sociais são mais intensos, antigos e conservadores. Extremismos de direita versus esquerda são muito menos detectáveis porque não existem entrechoques provocados pelo sindicalismo industrial. 

São Caetano é, portanto, o único endereço regional no qual as posições entre situacionistas e antagonistas se apresentam muito menos belicosas. Mas isso não quer dizer, automaticamente, que o prefeito José Auricchio terá vida fácil. Um concorrente que se organizou antes da chegada do vírus chinês, Fabio Palácio, integra o pelotão de adversários à espera de uma oportunidade para entrar no jogo de consequências políticas do Coronavírus.

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