Sociedade

Morando dramatiza e projeta
12 mil mortes em São Bernardo

  DANIEL LIMA - 23/03/2020

O prefeito Orlando Morando precisa vir a público para explicar a disseminação de dramática marcha fúnebre repassada em tom lacrimejante durante reunião de trabalho que tratou do sistema de prevenção ao vírus chinês. É melhor não acreditar que o prefeito esclareça o caso. Qualquer tentativa de remediar o irremediável provocará danos à imagem pública sempre mais sensível em ano eleitoral. Só haveria resposta se Morando contar com estudos sustentáveis sobre a perspectiva que quantificaria o que seria um caos na saúde pública de São Bernardo e as condições limitadas às intervenções.

O Coronavírus mataria 12 mil pessoas em São Bernardo, segundo a afirmação do prefeito. A declaração seria mantida intramuros não fosse vazamento em áudio, em mídia social, por uma profissional de saúde de identidade ainda não esclarecida. Três fontes diferentes que participaram do encontro confirmaram a versão da suposta servidora pública municipal. O assunto foi tema central de encontro de trabalho do prefeito.

Mortes especificadas

A supostamente servidora pública é uma conclusão decorrente da gravação em áudio massificada nas redes sociais. Uma mulher narra em tom de desespero a situação da saúde em São Bernardo após o encontro com o prefeito e várias autoridades públicas. Aparentemente ela é responsável pela rede de atendimento às chamadas casas de repouso, que abriga idosos.

A mensagem é compartilhada num grupo de aplicativo específico de profissionais. A profissional repassa informações da reunião e recomenda estocagem de alimentos nas unidades de atendimento aos idosos. A menção aos 12 mil mortos sentenciados por Orlando Morando é cristalina. Sem condicionantes. Algo mesmo como uma sentença de morte coletiva.

A fuga em responder ao questionamento deste jornalista, em tentativas com o uso do aplicativo Whatsapp, revela provável arrependimento do tucano. Assessores próximos ao prefeito afirmam que o ambiente interno pós-informações tornou-se pouco confortável para o prefeito. Ele se teria dado conta de que a projeção macabra poderia causar pânico social em São Bernardo.

Estoque de túmulos

Na curta e editada gravação audiovisual em que Orlando Morando está fortemente emocionado ao analisar a situação em São Bernardo não se faz menção ao número de possíveis mortos. Morando falou o suficiente, entretanto, para tornar o ambiente interno inquietante. Ele declarou textualmente temer a possibilidade de os cemitérios locais não darem conta dos mortos.

Um outro vídeo que vazou nas mídias sociais, agora de provável servidor público, atribui a Orlando Morando a iniciativa de dar ordens expressas a uma ação imediata: detectar o potencial de túmulos no Cemitério do Carminha, bairro da periferia extrema de São Bernardo. O vídeo não está em nada descolado das declarações de Orlando Morando. Apenas completaria a preocupação do prefeito com o estoque disponível para atender a demanda por corpos em São Bernardo.

Erro de cálculo?

Como o prefeito teria chegado a 12 mil mortos em São Bernardo por conta do Coronavírus? Esse ponto não teria sido explicado pelo titular do Paço Municipal, mas há especulações que o colocariam como eventual estatístico equivocado. Os 12 mil mortos corresponderiam ao índice de 1,5% de letalidade do vírus, supostamente um dos mais baixos no mapa-múndi. A estrutura do cálculo é que teria a consistência de uma geleia: 1,5% de letalidade seria o resultado dos casos relativos aos infectados, não à totalidade da população.

O que parece ter salvado a pátria de Orlando Morando seria o quarto de despejo a que está relegada a cobertura da chamada grande imprensa à atuação dos executivos municipais no combate ao vírus. Fosse o governador João Doria o autor da proeza quantitativa, e houvesse o também tucano anunciado projeção semelhante, os paulistas de 645 municípios sofreriam baixa de 675 mil infectados.

Se transplantado para o governo federal o caos previsto por Orlando Morando, e o presidente Jair Bolsonaro fosse o autor da proeza numérica, o vírus faria 3.180 milhões de vítimas fatais ao fim da endemia.

Há pelos menos três versões possíveis para quem pretende entender o que se passou no encontro do prefeito de São Bernardo com agentes públicos prevalecentemente da área de saúde. São alternativas excludentes que procurariam chegar a alguma pista possível.

Primeira versão

Orlando Morando teria adotado o tom alarmista durante o encontro para sustentar a mobilização da tropa. Teria também dado tom de dramaticidade dentro de um objetivo que caminharia na mesma direção. A terapia de choque teria sido adotada porque o prefeito seguiria recomendação de alguns gurus motivacionais que estimulam a construção do pior cenário possível para se chegar ao mais suportável.

Segunda versão

Orlando Morando levaria pânico aos participantes do encontro porque possivelmente teria o respaldo de informações do governo do Estado para manter em alerta a sociedade, seguindo a trajetória de medidas cada vez mais drásticas para supostamente atender ao manual de sobrevivência, sobretudo de idosos.

Terceira versão

Orlando Morando teria recomendado atenção total e construído  projeção estatística levado pelo desespero de um administrador que estaria sentindo escapar entre os dedos o controle da situação da gestão municipal da crise, engolfado pelo centralismo do governo estadual e a visibilidade do governo federal. 

Qualquer que seja a resposta que mais se compatibilize com os anseios de um gestor público, o caso envolvendo Orlando Morando propõe à reflexão o estado de descontrole emocional de autoridades públicas e da sociedade, que parece se acentuar a cada dia. Tudo é fruto de uma combinação perversa.

De um lado, busca-se reduzir os danos sociais colaterais da ameaça que veio da China e, de outro, em flagrante conflito, a perspectiva de estragos econômicos cujas projeções também parecem seguir a rota de uma catástrofe ainda muito maior no curto e no médio prazo. 

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