Regionalidade

E a pior safra de prefeitos vai
se consumar com Maranhão

  DANIEL LIMA - 11/03/2020

A pior safra do Clube dos Prefeitos do Grande ABC vai se consumar com o prefeito Gabriel Maranhão, de Rio Grande da Serra, que acaba de acumular a presidência da Agência de Desenvolvimento Econômico. Maranhão, que representa o Município mais inexpressivo da região, com participação de 0,2% no PIB Geral, anunciou ontem planos que incrementariam a ressurreição da Agência. Maranhão está à altura dos pernas de pau Orlando Morando e Paulinho Serra, que o antecederam nos últimos três anos no Clube dos Prefeitos.

A Agência só vai acrescentar mediocridade ao Clube dos Prefeitos ao ser incorporada à entidade criada em 1990 por Celso Daniel.  Maranhão vem com sopa de promessas requentadas. O Grande ABC não sairá da pasmaceira institucional de décadas. O Clube dos Prefeitos é uma ficção e a Agência de Desenvolvimento Econômico, mesmo nos bons tempos em que a iniciativa privada teve participação, não sobrevive à ciumeira dos prefeitos e seus entornos.

Há certa desconexão entre o que o Diário do Grande ABC e o Repórter Diário publicam hoje sobre a posse de Maranhão na Agência de Desenvolvimento Econômico. Até parece que os jornalistas que cobriram o evento de oficialização de Gabriel Maranhão como mandachuva frequentaram ambientes distintos.

Esforço para interpretar

Mas, com esforço de interação, destaco dois pontos centrais que, em breve avaliação, mostram em que mato a regionalidade se meteu com essa safra de prefeitos insubordinados ao Desenvolvimento Econômico. 

 Financiamento de um projeto de competitividade por uma instituição financeira.

 Composição da Agência de Desenvolvimento Econômico com representantes empresariais, sindicais e da academia.

Devo lembrar que vou fazer um imenso esforço interpretativo. A matéria-prima sobre a qual me lanço é rasa em conteúdo. Não por conta dos repórteres que cobriram a posse de Maranhão. O problema é de outra ordem: matéria—prima de fonte de informação reticente é uma fonte de inquietude avaliativa.

Gabriel Maranhão não tem a menor ideia do que significa os pressupostos do Clube dos Prefeitos e da Agência de Desenvolvimento Econômico. Portanto, quando fala em recuperar a Agência, tornando-a braço do Clube dos Prefeitos (uma ideia tão antiga quanto conflitiva) ele passa por cima da lógica de financiamento concatenado com as emergências econômicas.

Afinal, durante o reinado de Orlando Morando e de Paulinho Serra,  foram drenados recursos financeiros das prefeituras, a maioria das quais inadimplente. Onde falta dinheiro, falta razão.

Sem dinheiro para financiamentos que conciliem estudo e prática, a gestão de Gabriel Maranhão vai repetir lengalenga demagógica dos anteriores.

Anacronismo sindical

Além disso, o acoplamento da Agência às atividades do Clube dos Prefeitos não é tão simples quanto parece. Há interesses legítimos de participação de representantes da sociedade, os quais não se coadunam com os interesses políticos dos prefeitos de plantão. É um emaranhado de idiossincrasias que repetirá o passado em forma de frustrações.

Ao instalar como vice-presidente da Agência de Desenvolvimento Econômico o sindicalista Wagnão Santana, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC (aquele do qual Lula da Silva surgiu para o estrelato nacional), Gabriel Maranhão assina um atestado de óbito de pragmatismo e de eficiência resolutiva. Afinal, não há reduto mais atrasado na concepção de Desenvolvimento Econômico que os militantes cutistas, braço sindical do PT. Já cansei de escrever sobre o assunto.

O Novo Sindicalismo, assim chamado pela imprensa chapa vermelha, tornou-se um dos monumentos de anacronismos da região. Muito da desigualdade social do Grande ABC deriva, entre outros pontos, do corporativismo e exclusivismo do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC e satélites ideológicos. O ambiente de nós contra eles também advém disso. E se espalhou, com outra conotação, mas com a mesma matriz autoral, ao restante do País. 

Planejamento e raio “x”

O noticiário do Diário do Grande ABC dá conta de que Gabriel Maranhão, o prefeito dos prefeitos, pretende associar a Agência a uma instituição financeira para obter o que se considera um plano de competitividade regional.

Os leitores sabem o quanto defendo essa iniciativa ao longo dos anos, mas não seria essa fórmula a ser adotada. O Grande ABC não precisa de imediato do chamado “raio x” dos setores produtivos. Esse desenlace será consequência natural de um projeto muito mais amplo e que passa pela expressão “planejamento econômico estratégico”.

E essa especialidade não é de instituição financeira, mas de organização que enxerga o mundo da competitividade por lentes múltiplas que passam pelo regionalismo, invade o território nacional e alcança o mundo. As cadeias produtivas dão as cartas e jogam de mão. Basta ver o que o caronavírus está a aprontar.

Espantos sobre espantos

Não pretendo me estender mais sobre um temário com o qual convivo desde muito antes de, 30 anos atrás, em março de 1990, criar a revista impressa LivreMercado. Já no Estadão e no Jornal da Tarde tratava disso, na sucursal da Agência Estado, em Santo André.

A primeira manchetíssima de LivreMercado dava conta da dependência exagerada do setor automotivo, até então incensado pela mídia regional e nacional numa espécie de unanimidade burra, quando não irresponsável. Mais tarde, tratei dessa anomalia regional com o uso da expressão “Doença Holandesa”. Houve quem se espantasse.

Aliás, espantos sobre espantos não faltaram ao longo desses 30 anos. Os acomodados, quando não os incompetentes, para não falar dos demagogos e dos extrativistas, detestam confrontos em que a ideologia é jogada na lata do lixo, engolfada pelo empirismo, pelos fatos, pelos dados irrefutáveis.

Time dos sonhos

O novo prefeito dos prefeitos Gabriel Maranhão herdou praticamente inteira a equipe minúscula deixada pelo antecessor Paulinho Serra. E ao que parece vai aprofundar uma ilusão que se retroalimenta da ignorância da sociedade servil e dos mandachuvas e mandachuvinhas sanguessugas – destilará um ambiente de prospecção que, visto de perto e com critério, não passa mesmo de algo fossilizado, irrecuperável.

Gabriel Maranhão pensa que tem um time a comandar e que esse time está pronto para entrar em campo e conquistar o título da temporada. O incentivo a acalentar novas barbaridades são instituições individualistas vistas como parceiras de uma jornada patética. O preço será pago integralmente pela sociedade servil. Isso mesmo, sociedade servil, porque civil raramente o foi quando o que se está em jogo é a regionalidade.

Somos um bicho de sete cabeças impactado pelo Complexo de Gata Borralheira, mas teimamos em achar que um prefeito que não resistiria a uma sabatina sobre Desenvolvimento Econômico (aliás, como Orlando Morando e Paulinho Serra) seria portador do pó de pirlimpimpim salvador.

Incompetência longeva

Para que os atuais prefeitos que estão no Clube dos Prefeitos não se sintam discriminados além da constatação de que são mesmo pernas de pau em regionalidade, reproduzo na sequência apenas alguns trechos de uma extensa análise que escrevi para a edição de dezembro de 2000 (isto mesmo, 2000) da revista LivreMercado.

Fiz ali, entre centenas de matérias, uma abordagem sobre o momento da regionalidade. Reparem os leitores que o que era ruim se tornou muito pior. Tanto é verdade que, neste século (o século dos anos 2000) o desempenho econômico do Grande ABC concorre com equipes de futebol rebaixadas anos seguidos, até desaparecerem do mapa. O PIB Regional dentro da Região Metropolitana de São Paulo é uma associação de vexame e vergonha.

O Grande ABC não desaparecerá do mapa formal, mas segue em ritmo acelerado rumo ao precipício da quase indiferença nacional. 

Globalização dá de goleada

na falta de ação regional

 DANIEL LIMA - 05/12/2000

Que tal deixar de conversa fiada, dessas que torram a paciência, e, parafraseando o hilário Odorico Paraguaçu, de O Bem-Amado, partir para os finalmentes? Que finalmentes? Os de que, apesar de todo o foguetório dos últimos seis anos, desde a criação do Fórum da Cidadania, passando pelo ressuscitamento do Consórcio de Prefeitos, pelo lançamento da Câmara Regional há três anos e meio e também pela fundação da Agência de Desenvolvimento Econômico, o que temos no Grande ABC é um grande, grandiosíssimo vazio institucional de sufocantes consequências econômicas, sociais e políticas.

É verdade que todas essas instituições se tornaram novidade no esgarçado tecido de uma região que passou pelo menos quatro décadas desfrutando das vantagens da industrialização sem dar a mínima bola para o dia seguinte, ou melhor, para o século seguinte. O problema é que os tempos são outros.

Vivemos em plena globalização econômica, de competitividade internacional, e o Grande ABC vem apanhando feio da concorrência doméstica e dos estrangeiros. Estamos praticamente a nocaute. Andamos a passos de cágado, quando a mundialização dos negócios impõe velocidade de banda larga. Andamos de charrete, contra bólidos de Fórmula-1.

É claro que não faltarão triunfalistas de ocasião, que precisam garantir bom relacionamento pessoal, profissional ou empresarial com as autoridades constituídas, que vão fazer esforço gigantesco para tentar ludibriar os incautos e que procurarão excomungar os fatos. São dons quixotes contra os moinhos de ventos de uma realidade dura, límpida, imensuravelmente problemática.

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