Economia

Afinal, qual é a novidade do
PIB projetado virar frustração?

  DANIEL LIMA - 10/03/2020

Estão massacrando o ministro da Fazenda Paulo Guedes porque ele sugeriu que o PIB do Brasil no ano passado cresceria entre 2,2% e 2,5% e o resultado final, ou parcial porque pode sofrer correção como nos anos anteriores, não passou de 1,1%. Já imaginaram se a previsão apontasse 4,2% e só fosse possível entregar 1,51% quando o PIB especulado virar PIB sacramentado? 

Pois foi o que aconteceu com o então ministro da Fazenda do governo Fernando Henrique Cardoso em 28 de maço de 2001, quando projetou que o PIB cresceria exatamente 4,2%. O encontro das águas entre o presente de promessa e o futuro de resultados no capítulo relativo ao PIB é um dos temas do livro que escrevi e lancei em 1º de abril de 2003. 

Quem se der o trabalho de pesquisar, ano após ano, o PIB de janeiro que sai de planilhas mágicas de especialistas e de membros do governo de plantão, não é o PIB que se consuma nos 12 meses do mesmo ano. Invariavelmente há excesso de otimismo, para não dizer voracidade de dourar a pílula. 

Vou reproduzir aquele capítulo na íntegra, mas antes não perco a oportunidade de reafirmar que é uma prática especulativa do governo federal de plantão (como todas as esferas de governos de plantão quando o que está em jogo é a espetacularização), vender um positivismo que geralmente perde a viscosidade com a imposição de realidades que em muitos casos são decorrentes de fatos fora do controle, mas em outros também como orquestração programada para enganar o distinto público. 

O PIB sempre foi objeto de aquecimento artificial dos mercados tanto quanto tantos outros indicadores cujos interesses estão concentrados em forças supremas do mundo capitalista e político-eleitoral. Joga-se muito para a plateia com o apoio tácito de um jornalismo dominado por torcedores organizados das forças de pressão. 

O mercado imobiliário também é um território controlado por especuladores protegidos pela mídia tradicional. Comparar as manchetes de agora com os resultados de amanhã tem o mesmo gosto amargo do PIB. O jornalismo tradicional é presa eterna dos controladores do poder e do capital. 

Se repetir a experiência de 2003 e decidir publicar uma edição renovada de Meias Verdades (Como usar a mídia para vender ilusão) estou certo de que a matéria-prima seria extraordinariamente abundante. 

Vou reproduzir alguns parágrafos da apresentação daquela obra para os leitores entenderem a razão de não ter dúvidas sobre a debilidade em geral da cobertura jornalística que só tem piorado desde que sucatearam as redações dos principais veículos impressos no País, na esteira da revolução digital. 

Leiam os trechos que explicam como produzi aquele livro que segue tão atual quando providencial ao entendimento do jogo de jogadas que marcam o jornalismo verde e amarelo:   

 Esta obra é um acaso planejado. Quando resolvi remexer as mais de 800 pastas de meu acervo de trabalho, não pretendia nada diferente de uma faxina. O acúmulo de oito anos de páginas minuciosamente selecionadas e identificadas por temas exigia o descarte do material defasado. Afinal, os fatos de hoje são superados pelos acontecimentos de amanhã. Então, por que manter pastas repletas de sobreposições informativas? 

 Bisbilhotando aqui, fuçando ali, descobri que as aparências enganam. Sim, aquelas pastas recheadas de repetições não eram exatamente o que pareciam ser. A cronologia das notícias abria fissuras de credibilidade, de acuidade e de responsabilidade. O jornalismo impresso, notadamente o jornalismo impresso diário, é vítima do escravagismo do processo industrial associado ao pouco preparo crítico em todas as instâncias de poder editorial. (...). Estas páginas são um chute nos fundilhos de novas imprecisões. Sem exagerar, em muitos casos não passamos de marionetes. Achamos que estamos liquidando com o concorrente mais próximo e o que temos de fato são bumerangues que nos nocauteiam, quando não nos ridicularizam. Estamos todos no roteiro de Chicago, o filme que concorre a 13 Oscars deste 2003. Somos a marionete movida pelos cordéis comandados pelo advogado oportunista vivido por Richard Gere. 

De volta ao presente, lembro que mantenho atualizadíssimo o arquivo em papel (isso mesmo, em papel, com a autenticidade e a cronologia das publicações), ao qual recorro quando preciso de alguma coisa, sobretudo do Grande ABC. 

Antes que me chamem de dinossauro da imprensa, lembro que não abro mão também de arquivos digitais, facilitados pela Internet, mas são inúmeras oportunidades em que o acervo de papel é colocado em xeque para saber se pode ser juntado e queimado em praça pública ou segue sendo indispensável. 

Pobres daqueles que desclassificam o acervo de papel de mais de duas mil pastas em meu escritório. Há variedades de textos que não se encontram disponíveis em nenhum endereço na Internet. Nada. 

Sem perder o foco, vou reproduzir agora um dos capítulos de Meias Verdades, sob o título “Crescimento do PIB é festival de equívocos”. Uma obra que vai completar 17 anos. E que segue atual. 

Crescimento do PIB

é festival de equívocos

 DANIEL LIMA - 01/04/2003

 Em 26 de novembro de 2000, a Folha de S. Paulo publicou a seguinte manchete de Economia: “País não deve crescer mais do que 4% no ano que vem”. 

 Em 13 de fevereiro do ano seguinte, 2001, o jornal Valor Econômico publicou também em manchete: “Economia mantém crescimento e PIB tem alta de 4,5%, prevê IPEA”. 

 Em 28 de março de 2001, a Folha de S. Paulo saiu-se com a seguinte manchete: “Economia crescerá pelo menos 4,2% no ano, afirma Malan”. 

 Alguns trechos da matéria de 26 de novembro: 

O Brasil termina este século e começa o outro com tempo bom na economia. Mas há indícios de que o País poderá enfrentar novas chuvas e trovoadas devido a pressões internas, além das externas. Há previsões bem menos otimistas em relação à expansão do País. Economistas que estimavam crescimento de 4% do PIB (Produto Interno Bruto) para este ano já falam em 3,6%. Quem esperava 4,5% para o ano que vem já cogita 4%. O juro real pago pelas empresas subiu nos últimos meses e a massa salarial do trabalhador, apesar de estar em recuperação, ainda é a mesma de um ano atrás. 

A previsão não é a de uma tempestade devastadora, como o País enfrentou nos últimos três anos, como consequência das crises asiática e russa e da desvalorização do real. Mas de um tempo instável, que pode brecar a expansão de alguns setores e ter impacto negativo na economia. 

 Alguns trechos da matéria de 13 de fevereiro: 

A economia brasileira deverá continuar seu ciclo de crescimento este ano, com um Produto Interno Bruto (PIB) apresentando uma expansão de 4,6%%, projeta o Instituto de Pesquisa e Economia Aplicada (IPEA) em seu Boletim de Conjuntura de janeiro. O setor agropecuário deve liderar com expansão de 7,6%, a indústria deve aumentar 5,6% e o setor de serviços 3,1%. 

O aumento da atividade econômica estará ancorado nos investimentos que poderão crescer 5,5% este ano, ante 2,2% no ano passado, enquanto o consumo continuará com taxa positiva de 4%, ante 5,5% em 2000. 

Para Paulo Levy, economista do IPEA responsável pelo Grupo de Análise Conjuntural, os riscos que corre a economia brasileira este ano vêm do Norte, como a desaceleração nos Estados Unidos, que poderá afetar as exportações brasileiras e retrair o crédito para o Brasil. 

 Alguns trechos da matéria de 28 de março: 

O ministro da Fazenda, Pedro Malan, afirmou ontem que a economia brasileira crescerá pelo menos 4,2% neste ano. “Nós crescemos 4,2% no ano passado. Este ano será pelo menos igual a isso”, afirmou o ministro aos jornalistas brasileiros, após proferir uma palestra em Londres. 

Anteriormente o ministro Malan fizera projeção de alta de 4,5% para o desempenho da economia neste ano. Esse percentual já havia sido estimado pelo presidente do Banco Central, Armínio Fraga. “Não é o meu estilo tentar adivinhar qual é o número que vem na casa depois da vírgula, isso é irrelevante. Há sinais claros de crescimento na economia brasileira, no agronegócio, na indústria, no serviço e no emprego”, ponderou o ministro da Fazenda. 

Durante sua palestra no seminário “Integração da América do Sul”, no London Hilton Hotel, Malan disse que a economia do País cresce com bases sólidas e que há espaço para investimentos estrangeiros. 

 Agora, as avaliações 

Aproxima-se da cartomancia o exercício anual de projetar o comportamento do PIB. Os interesses na propagação de mensagens geralmente positivistas estão conectados a objetivos estratégicos invariavelmente omitidos. Em encontros internacionais, como foi o caso protagonizado por Pedro Malan, era e sempre será importante vender um Brasil cor-de-rosa. Em encontros domésticos, pesa o politicamente correto. 

O desempenho da economia brasileira em 2001 foi muito aquém das pregações de executivos do governo e mesmo do mercado financeiro e consultorias de investimentos, também ávidos por vender ilusões. Juros altos, crise de energia, recessão mundial e o chamado efeito Argentina já prenunciavam para o crescimento de apenas 1,51% do PIB, ou 0,20% do PIB per capita, em 2001. 

Não fosse o campeonato nacional de palpitologia sobre o PIB uma prática quase tão antiga quanto o capitalismo, não haveria tanta complacência no tratamento do assunto. Dá-se ao tema uma tão generosa quanto problemática conotação de marketing econômico, utilizando-se ferramental geralmente incompleto. Afinal, como se pode conceber que especialistas em rastrear o comportamento da economia nacional não dimensionem — e com isso se acautelem — os movimentos que vão muito além de aspectos exclusivamente macroeconômicos? 

Sim, porque a crise anunciada da Argentina, a recessão norte-americana, a perigosíssima política de improvisos e equívocos no setor energético, uma dívida pública em espiral que exige juros cada vez mais elevados e a vulnerabilidade do País no mundo globalizado — porque se tornou refém do sistema financeiro internacional — não são ponderáveis acidentais como a derrubada das torres gêmeas que, também, influenciaram os números do PIB. 

A complexidade da planilha que mapeia os pontos sobre os quais se contabilizarão as variáveis do Produto Interno Bruto e os aspectos intangíveis que ultrapassam os limites da simples adivinhação para se instalar numa área mais nobre do detalhamento analítico tornam-se fatais para afetar o prestígio de gente qualificada.

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