Economia

G-22: machismo sindical põe
São Bernardo entre rebaixáveis

  DANIEL LIMA - 09/03/2020

São Bernardo está na zona de rebaixamento (espécie de reprovação tácita) no G-22 que mede a participação feminina no mercado de trabalho industrial com carteira assinada. Esta não é a primeira vez que dimensionamos o grau de machismo na indústria do Grande ABC. Agora, produzimos ranking envolvendo os 20 principais municípios do Estado, o Clube dos 20 Maiores, complementado por Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Decidimos estender os dados que têm como matriz o Ministério do Trabalho e Emprego. Os números se referem a dezembro de 2018. A nova safra deverá ser anunciada oficialmente pelo MTE até meados deste ano.

Como expliquei em dois textos anteriores (em2018 e 2019) que tratei do assunto de forma inédita no jornalismo brasileiro, o machismo é uma contradição do sindicalismo industrial de São Bernardo, regido pelo CUT (Central Única dos Trabalhadores), braço trabalhista do Partido dos Trabalhadores.

Da mesma forma que preparei o ranking que se segue como forma de esclarecimento sobre o ambiente de gênero num reduto tradicionalmente machista (ou seja, a massa de trabalhadores industriais) o fiz também para apontar uma contradição esquerdista inspirada no Dia Internacional da Mulher.

Passeata no sindicato

As feministas que se manifestam contrárias a discriminações variadas, inclusive de gênero no mercado de trabalho, bem que poderiam preparar uma passeata que contasse como ponto de encontro o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, manjedoura do então chamado Novo Sindicalismo, liderado pelo então ex-operário Lula da Silva.

O sindicalismo de São Bernardo entregou à sociedade desde o primeiro movimento de greve no final dos anos 1970 uma série de impactos, entre os quais três que não podem deixar de ser contabilizados. O primeiro é que detonou a evasão industrial da região; o segundo é que provocou rachaduras de classes sociais entre profissionais de gabinetes e operários de chão de fábricas; e o terceiro a discriminação às mulheres.

Os números abaixo mostram bem o quanto o sexo feminino é minoria nas indústrias de São Bernardo em relação a outros endereços. São Bernardo ocupa a 17ª posição entre os 20 maiores municípios paulistas quando o critério de emprego feminino entra em campo. Conta com apenas 21,48% de mulheres contratadas no setor industrial. Só está acima de Taubaté e Sumaré (também com forte apelo sindical no setor automotivo) e da lanterninha Piracicaba (que registra forte atividade no setor agropecuário, de viés masculino).

Para se ter ideia do quanto as mulheres são minoria nas fábricas de São Bernardo basta comparar, por exemplo, com Campinas, também um grande Município entre os 20 maiores do Estado. Segunda colocada no ranking, Campinas conta com 38,32% de mulheres industriarias, ou seja, 43,95% de vantagem sobre a Capital Econômica do Grande ABC.

Mas a comparação poderia ser feita regionalmente. São Caetano lidera o ranking de mulheres nas indústrias do G-22 com 38,34% de participação. E parcela considerável de trabalhadores atuam no setor automotivo, da General Motors e fornecedores. A diferença é que o Sindicato dos Metalúrgicos de São Caetano jamais teve relação com a CUT.

O ranking do G-22 de Machismo mostra também e complementarmente a participação das mulheres no conjunto de trabalhadores com carteira assinada. Não necessariamente há sincronia nos dois campos. Isso significa dizer que nem sempre quem tem maior participação feminina (mesmo que minoritária) na indústria também o tem no quadro geral de trabalhadores. Há forte interferência principalmente da atividade de serviços, marcantemente feminina.

Santo André é um exemplo

Santo André é um dos casos que explicam a situação: 10ª colocada na classificação geral de participação feminina no mercado de trabalho industrial com 27,29% (21,28% acima de São Bernardo), conta com 48,04% de mulheres no total de trabalhadores, ou seja, quando se inclui todas as atividades. Uma marca levemente superior à de São Caetano, que conta com 47,47%, e pronunciadamente acima de São Bernardo, com 40,60%.

Em dezembro de 2018 estavam registrados nas empresas de todas as modalidades do Grande ABC 736.383 trabalhadores, dos quais 43,48% eram mulheres. No setor industrial a média geral de trabalhadoras foi de 27,28%. Nos municípios do G-22 (ou seja, 0 G-15) o total de trabalhadores com carteira assinada chegava a 2.643.152, dos quais 44,37% de mulheres. Ou seja: na média geral não há praticamente diferença de gênero nas atividades econômicas dos municípios do G-7 e do G-15 dentro do Clube dos Ricos do Estado.

Pior representante do Grande ABC no ranking de machismo industrial no G-22, São Bernardo registrava salário médio do setor em dezembro de 2018 de R$ 6.352,42 para homens e R$ 4.274.13 para as mulheres. Uma diferença de 32,71%. Em Santo André o salário médio para os homens era de R$ 4.484,02 ante 2.491,67 para as mulheres. Diferença de 44,43%. Em São Caetano os valores eram respectivamente 3.397,55 e R$ 2.082,48, com diferença de 38,70%. Diadema registrava salário médio de R$ 4.039,59 para homens e R$ 2.908,28 para mulheres. Diferença de 28,00%. Mauá contava com salário médio industrial de R$ 4.542,00 para os homens e R$ 3.132,77 para as mulheres. Diferença de 31,02%.

A média geral de salários em dezembro de 2018 no Grande ABC estava assim distribuída, sem considerar gênero: São Bernardo: R$ 3.772,60; Santo André: R$ 2.867,35: São Caetano: R$ 3.178,81; Diadema: R$ 3.299,06; Mauá: R$ 3.085,4; Ribeirão Pires: R$ 2.628,96: Rio Grande da Serra: 2.417,27. Quando se considera gênero, a diferença favorável aos homens é a seguinte: São Bernardo: 35,36%; Santo André: 17,99%; São Caetano: 26,66%; Diadema: 14,13%; Mauá: 24,82%; Ribeirão Pires: 20,92%; Rio Grande da Serra: 23,95%.  

Ranking de Machismo

Segue o ranking de machismo nas fábricas do G-22. E complementarmente, a participação feminina no conjunto da mão-de-obra registrada no Ministério do Trabalho. 

1. São Caetano conta com 38,34% de mulheres no setor industrial e 47,47% no total de trabalhadores.

2. Campinas com 38,32% de mulheres no setor industrial e 47,65% no total de trabalhadores.

3. Barueri conta com 36,06% de mulheres no setor industrial e 48,06% no total de trabalhadores.

4. São José do Rio Preto conta com 33,45% de mulheres no setor industrial e 46,55% no total de trabalhadores.

5. Santos conta com 31,33% de mulheres no setor industrial e 44,79% no total de trabalhadores.

6. Ribeirão Preto conta com 31,09% mulheres no setor industrial e 46,87% no total de trabalhadores.

7. Jundiaí conta com 30,70% de mulheres no setor industrial e 44,80% no total de trabalhadores.

8. Guarulhos conta com 28,11% de mulheres no setor industrial e 40,14% no total de trabalhadores.

9. Osasco conta com 27,73% de mulheres no setor industrial e 45,40% no total de trabalhadores.

10. Santo André conta com 27,29% de mulheres no setor industrial e 48,04% no total de trabalhadores.

11. Diadema conta com 27,27% de mulheres no setor industrial e 38,47% no total de trabalhadores.

12. Mauá conta com 26,78% de mulheres no setor industrial e 40,17% no total de trabalhadores.

13. Sorocaba conta com 25,99% de mulheres no setor industrial e 43,37% no total de trabalhadores.

14. Mogi das Cruzes conta com 22,39% mulheres no setor industrial e 44,93% no total de trabalhadores

15. São José dos Campos conta com 21,92% de mulheres no setor industrial e 41,99% no total de trabalhadores.

16. Paulínia conta com 21,60% mulheres no setor industrial e 34,09% no total de trabalhadores.

17. São Bernardo conta com 21,48% de mulheres no setor industrial e 40,60% no total de trabalhadores.

18. Taubaté com 20,37% mulheres no setor industrial e 35,05% no total de trabalhadores.

19. Sumaré conta com 18,86% de mulheres no setor industrial e 35,08% no total de trabalhadores.

20. Piracicaba conta com 17,78% de mulheres no setor industrial e 40,67% no total de trabalhadores.  

 Ribeirão Pires conta com 21,12% de mulheres no setor industrial e 42,44% no total de trabalhadores.

 Rio Grande da Serra conta com 28,47% de mulheres no setor industrial e 43,44% no total de trabalhadores.

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