Economia

Sorocaba vai virar jogo do PIB
do Consumo contra Santo André

  DANIEL LIMA - 05/03/2020

Antes deste século começar Santo André contava com potencial de consumo (espécie de PIB do Consumo) 35% maior que Sorocaba. Duas décadas depois o jogo está praticamente empatado. E o próximo prefeito de Santo André, seja qual for o próximo prefeito de Santo André, vai ver Sorocaba superar Santo André antes do fim do mandato. Os prefeitos anteriores já viram o PIB Tradicional, diferente do PIB do Consumo, virar favoravelmente ao Município do Interior. 

Afinal, o que significa a realidade de Desenvolvimento Econômico mais acentuada num dos três principais polos metropolitanos do Interior do Estado de São Paulo (Campinas e São José dos Campos são os outros) em relação à suburbanidade metropolitana do Grande ABC?  

A resposta está na própria pergunta: Sorocaba é um dos endereços ou macroendereços (quando se leva em conta o entorno de dezenas de municípios) que atrai grandes investimentos produtivos. Santo André é um dos endereços macrorregionais de um Grande ABC encalacrado por uma série de fatores cada vez mais paralisantes. 

Perdendo terreno 

Em 1999, último ano do século passado, a Consultoria IPC do pesquisador Marcos Pazzini apontava, com base num coquetel de dados oficiais de diversos organismos federais, que Santo André detinha PIB do Consumo, ou potencial de consumo, muito à frente de Sorocaba. Santo André representava 0,65334% de tudo que o Brasil potencialmente consumia. Sorocaba registrava 0,42337%. Uma diferença de 35,20%. Na ponta da pesquisa, referente ao ano de 2019, a diferença se estreitou: Santo André apontou potencial de consumo nacional de 0,47941% enquanto Sorocaba apontava R$ 0,45877%. Ou apenas 4,30% de desvantagem. 

Para chegar à conclusão de que o próximo prefeito de Santo André, seja qual for, encerrará o mandato atrás de Sorocaba é simples: em média, neste século, Sorocaba tirou uma diferença anual de 1,545% no PIB do Consumo. Mais três anos, ou no máximo quatro, serão suficientes à ultrapassagem. 

Semelhanças demográficas 

Não é a primeira nem será a última vez que escolho Santo André como adversário de Sorocaba, ou vice-versa. Os dois municípios têm populações equivalentes. Sorocaba conta com 681.634 moradores, enquanto Santo André contabiliza 715.874. 

A distância já foi um pouco maior, mas Sorocaba tem recebido mais fluxos de residentes, movimento típico de quem procura encontrar um futuro melhor que Santo André não recomenda. Em 1999, base da pesquisa, Sorocaba somava 458.539 moradores, enquanto Santo André chegava a 625.303. Enquanto a cidade do Interior acresceu 223.095 novos moradores, Santo André somou apenas 90.571. 

O crescimento demográfico pode ser observado sob vários ângulos. Primeiro, que o crescimento bem inferior de Santo André reduz demandas sociais, sobretudo por infraestrutura física e nas áreas de saúde, segurança, transporte e educação. Segundo, significaria que Sorocaba conta como fluxo maior porque conta com atratividade econômica que absorveria novas demandas.

Velocidades contrastantes 

O PIB do Consumo de Santo André neste século correu bem abaixo da velocidade de Sorocaba. Os nominais (sem considerar a inflação) R$ 4.884.308.850 bilhões de 1999 passaram para R$ 22.467.351.643 bilhões em 2019. Uma variação de 466,58%. Sorocaba trafegou em velocidade muito superior, de exatamente 740,80% no mesmo período. O PIB do Consumo saiu de R$ 2.557.064.450 bilhões (35,51% abaixo de Santo André) e passou para R$ 21.499.911.887 bilhões (4,30% abaixo de Santo André). 

A relação cronológica simétrica entre o PIB do Consumo e o PIB Tradicional (Produto Interno Bruto, que mede a geração de riqueza que geralmente não fica integralmente no Município) é prejudicada porque os dados coletados pela Consultoria IPC não sofrem defasagem de dois anos como no caso dos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). 

Entretanto, mesmo assim, é possível não correr riscos para produzir um confronto entre Santo André e Sorocaba. A diferença de dois anos não afetaria o resultado final de forma que desviasse a conclusão conceitual. 

Vantagem de 13,75%

Neste século, com uma base levemente mais estreita (2002 a 2017), o PIB Geral de Santo André saiu de R$ 8.514.414 bilhões para chegar a R$ 27.470.680 bilhões (sempre em termos nominais, desprezando a inflação). Uma evolução nominal de 207,25%. Já Sorocaba saiu de R$ 6.594.373 bilhões (diferença de 22,55% em relação a Santo André) e chegou a R$31.852.858 bilhões (vantagem de 13,75% sobre Santo André.

Não há dúvida de que, quando se conhecerem os números do PIB dos Municípios de 2019, Sorocaba terá alargado a distância de Santo André. Essa é uma bola facilmente cantada porque a indústria de transformação da cidade do Interior é muito mais poderosa que a de Santo André. 

O PIB Industrial de Santo André em 1999 era de R$ 2.303.332 bilhões, enquanto o de Sorocaba era de R$ 1.813.987 bilhão. Santo André, portanto, superava o adversário por 21,24%. Já em 2017, Sorocaba registrou PIB Industrial de R$ 7.980.181 bilhões, enquanto Santo André apontava R$ 5.196.162 bilhões. Dessa forma, o que era desvantagem de Sorocaba de 21,14%, passou a ser vantagem de 34,88%. 

Não parece ser difícil consolidar a falta de conexão entre o discurso do prefeito de Santo André, Paulinho Serra, de exaltação ao setor de serviços (de baixo valor agregado) e os estragos provados pela frouxidão da desindustrialização. 

Mercado de trabalho 

A musculatura industrial de Sorocaba é bastante superior à de Santo André também quando se encaixa o mercado de trabalho com carteira assinada no setor. Em 2018 (os dados do ano passado sairão em breve) eram 52.081 trabalhadores com média salarial de 4.451,30 mil. Em Santo André eram 24.216 e salário médio do setor de R$ 3.937,72. 

Uma combinação desses dados endereça à massa salarial, que é a multiplicação dos trabalhadores formais pelo salário médio. Em dezembro de 2018 a massa de salários industriais de Santo André totalizava R$ 95.355.827 milhões. No mesmo mês Sorocaba registrava R$ 231.828.155 milhões. Uma distância setorial de R$ 136.472.328 somente naquele mês. O impacto ultrapassa a R$ 1,5 bilhão quando se projetam os 12 meses e o 13º salário. 

Sorocaba descola-se de Santo André no mercado de trabalho industrial sem desgarrar-se da lógica competitiva que também se expressa nos salários médios dos trabalhadores do setor. Em média, os 52.081 trabalhadores receberam a cada mês R$ 4.451,30, ante R$ 3.937,72 de Santo André. Uma vantagem de 11,54% para a cidade do Interior. Ou seja: o crescimento de Sorocaba, quando comparado a Santo André no campo produtivo, não se deu à custa da mão de obra. 

No conjunto de trabalhadores, em todas as atividades, a média salarial de 2018 em Sorocaba era 8,47% maior que a de Santo André: R$ 3.132,65 ante R$ 2.867,35. 

Leia mais matérias desta seção: