Economia

Acisbec usa esparadrapo para
salvar o que já não existe mais

  DANIEL LIMA - 03/03/2020

Recorro ao passado do melhor jornalismo regional do País (a edição de dezembro de 2002 da revista LivreMercado) para mostrar aos leitores que é uma tremenda bobagem a proposta já em execução para tentar salvar o que já foi a Rota do Frango com Polenta e hoje não passa, forçando muito a barra, da Rota dos Restaurantes de São Bernardo.

O Grande ABC adora viver de ilusões e de amadorismo. E também de marketing de esparadrapos que, exatamente por serem esparadrapos, ignora a importância de diagnósticos mais profundos e terapias resolutivas ou minimizadoras. 

Isoladamente (e é assim que a direção da Associação Comercial e Industrial de São Bernardo a apresentou ainda agora) a suposta inovação não passa de uma tentativa de maquiar a incompetência generalizada na gestão do Desenvolvimento Econômico de São Bernardo. Tanto da Prefeitura quanto da entidade de classe como também do empresariado daquela área geográfica.

A matéria produzida pelo jornalista Fernando Bela àquela edição de LivreMercado é pedagogicamente atual porque remete à inapetência generalizada de agentes públicos e privados cuidarem do futuro da região -- um futuro que sempre chega em forma de presente. Tanto que ouso sugerir uma atitude de preguiça intelectual ao não avançar no que poderia escrever sobre o assunto.

Sem Barcelona e Real Madrid

É claro que tenho o que dizer, mas, para não esgotar o assunto num único texto, é indispensável recorrer àquela reportagem de LivreMercado: ali está o fio da meada de causas e efeitos já apontados.

O resumo da ópera que os leitores encontrarão na sequência, ao sorverem o texto de LivreMercado (mantido em grande parte para não encompridar demais este artigo), é que a Rota do Frango com Polenta, que virou Rota dos Restaurantes, viveu progressivamente um desfiladeiro sem fim.

Quem ler com atenção aquela reportagem vai ver que não faltaram promessas de todos os cantos, e reclamações também, que desembocaram no desastre anunciado de fechamentos contínuos de estabelecimentos que justificavam o título de Rota do Frango com Polenta, casos do Florestal, do São Judas Tadeu e do São Francisco.

Esse trio de estabelecimentos que criaram e fortaleceram a marca Rota do Frango com Polenta não existe mais. A situação recomenda cautela, para não dizer responsabilidade, quando se referirem àquela marca que caracterizava o Bairro Demarchi. Sem Florestal, São Judas Tadeu e São Francisco a Rota do Frango com Polenta se justificaria tanto quanto o futebol espanhol sem Real Madri e Barcelona.

Cartão de fidelidade

O que os jornais impressos e digitais estão a propagar como grande intervenção rumo à ressureição da Rota não passa de um sopro que nem de esperança é para quem entende do assunto. Dizem os jornais que a Acisbec lançou oficialmente o programa de descontos voltado para a tradicional Rota. E que a expectativa é a de aumentar em 50% a movimentação de clientes nos sete restaurantes que resistem.

“A primeira ação do programa será o cartão fidelidade, que vai dar uma refeição gratuita para clientes após dez pagas. A promoção é válida até 1º de maio e é obrigatório ter pelo menos três carimbos de restaurantes diferentes” – escreveu o Diário do Grande ABC.

Também está na reportagem do Diário do Grande ABC que o conjunto dos sete restaurantes brindados com o suporte da Acisbec e do Sebrae contam com 150 colaboradores diretos. Sugiro aos leitores que, ao lerem o que se segue na reportagem de LivreMercado de 18 anos atrás, comparem o quanto a então Rota do Frango com Polenta absorvia de funcionários.

Envelhecimento generalizado

O que temos num antigo endereço que poderia ter sido modernizado e se adaptado às transformações do mercado de serviços gastronômicos na região é a prova provada do envelhecimento geral e irrestrito de agentes públicos e privados. Envelhecimento físico de um lado, envelhecimento de atitudes, de outro.

Não há entre os jovens que constam da fila de futuros ou mesmo atuais condutores de entidades de classe da região (assim como os políticos) nada que se avizinhe como farol a iluminar caminhos a serem trilhados. Vive-se no Grande ABC, e faz tempo, um buraco negro de protagonistas com valor agregado. A geração que se esvai fisicamente deixa saudade mesmo sem ter como conjunto além de algumas tentativas que fracassam no tempo. Os jovens de agora não esperam o amanhã para fracassarem. Fracassam desde já.

Agora, vamos ao texto de Fernando Bela na revista LivreMercado de dezembro de 2002. LivreMercado foi concebida e dirigida ao longo de duas décadas com base num planejamento editorial sintonizado com o balanço do navio nacional e internacional. Uma criação que se deu, coincidentemente, logo após a queda do Muro de Berlim. 

É preciso dar rumo

à Rota do Frango 

 FERNANDO BELLA - 05/12/2002

Um dos principais pontos turísticos de São Bernardo está sem rumo. As sucessivas crises econômicas da década de 90 e o agravamento da evasão industrial no Grande ABC levaram a tradicional Rota do Frango com Polenta a perder força na atração do público da região e da Capital. O corredor de 13 restaurantes se sente como um ídolo esquecido no passado. Há pelo menos uma década o descaso parece predominar. Pelo menos é esse o sentimento dos próprios proprietários de restaurantes e prestadores de serviços locais.

A pouca atenção do Poder Público é considerada a causa para alguns estabelecimentos baixarem as portas mais cedo por falta de segurança e o faturamento cair em média 20%, somado aos impostos e taxas elevadas que esvaziam os bolsos dos empresários. Para não naufragar depois de muitos anos de trabalho, alguns poucos restaurantes resolveram se unir para dar sobrevida à imagem da rota. Outros cobram uma política pública de valorização turística. Quem precisa diminuir custos enxuga o quadro de funcionários e procura alternativas. Como resposta ao descontentamento generalizado, a Prefeitura tenta dar rumo não apenas ao corredor de restaurantes, mas a todo o potencial turístico de São Bernardo com auxílio de uma consultoria da Capital. 

(...) Além de problemas estruturais, os estabelecimentos sentiram duro golpe com a queda do poder aquisitivo do público a partir da evasão industrial no Grande ABC. "Tudo era mil maravilhas até 1990, quando o Plano Collor caiu como uma bomba na estabilidade econômica e espantou a clientela" -- considera Alberto Morassi Júnior. "Só registramos baixas há mais de quatro anos" -- complementa. O Morassi tem capacidade para 600 pessoas. A média no domingo, dia tradicional da Rota do Frango com Polenta, é de 400 pessoas. "Chegamos a ter menos de 200 pessoas. Conseguimos melhorar com esforço e investimentos próprios" -- sublinha Alberto. 

O Custo ABC continua pesado sobretudo para o pequeno negócio. "Parece que estão querendo nos expulsar daqui. O IPTU (Imposto Predial e Territorial Urbano) de São Bernardo dobrou de um ano para o outro" -- expõe Alberto Morassi. "É verdade que a Prefeitura não muda os valores dos impostos há dois anos, como propagandeia. Mas fez grandes alterações em curto espaço de tempo" -- contesta.

Outras taxas têm dado dor de cabeça aos prestadores de serviços de São Bernardo. O problema mais recente é a cobrança pelo sistema de afastamento do esgoto feito pelo DAE (Departamento de Água e Esgoto). Os estabelecimentos foram comunicados pela Prefeitura sobre a necessidade de instalação de hidrômetro nas saídas dos poços artesianos para calcular o volume de água jogado por cada empresa no sistema público de recebimento de esgoto.

(...). Em encontro no Restaurante Florestal em outubro último, proprietários de restaurantes e motéis explanaram ao secretário de Obras, Otávio Manente, as dificuldades para o pagamento da taxa. "Em 1998 foi aprovada lei que regulamentou a cobrança de água e esgoto referente ao tratamento e afastamento" -- explica o secretário. Pela tabela da Prefeitura, o valor pode passar de R$ 4 o metro cúbico. A água do Município já custa R$ 5,17 por metro cúbico. Alguns estabelecimentos argumentaram que têm ainda gastos com manutenção e análises periódicas nos poços. "Mas é aí que a Prefeitura mostra trabalho. Investimos em estrutura moderna de tratamento e distribuição para oferecer o melhor serviço possível. Então passem a usá-lo" -- defende-se o secretário Otávio Manente.

A soma de problemas fez com que os estabelecimentos procurassem soluções próprias para diminuir custos. A primeira forma de enxugar despesas foi cortar funcionários. O Restaurante Morassi trabalha com 12 funcionários fixos. Nos finais de semana chega a ter cerca de 30. Mas os números já foram bem maiores. O Sindicato dos Trabalhadores em Restaurantes de São Bernardo, Diadema e Rio Grande da Serra confirma as transformações: havia aproximadamente 12 mil profissionais da categoria com carteira registrada em 1993. Tradicionalmente, os restaurantes dobram o efetivo nos fins-de-semana, com contratação de autônomos. Então, havia pelo menos 24 mil empregos na área. Hoje não mais que 5,5 mil profissionais registrados estão associados ao sindicato, que calcula número semelhante de trabalhadores informais nos finais de semana. É menos da metade da década anterior. O Restaurante Santo Antônio é exemplo de redução dos quadros: somava cerca de 80 funcionários nos fins de semana. Hoje o número não passa de 30, dos quais apenas 15 fixos.

Sem apoio do Poder Público, o jeito foi nadar com os próprios braços para não morrer na praia. Os restaurantes da Rota do Frango com Polenta têm mostrado criatividade e força de vontade para se manter ativos. Uma das principais mudanças para voltar a atrair público é comum em quase todos os estabelecimentos: oferecer refeições self-service em paralelo ao sistema à lá carte. A mudança diminui as despesas e aumenta as receitas. "Apesar de ainda trabalharmos com o esquema à lá carte, apenas 20% dos clientes procuram por esse serviço" -- conta Morassi Júnior, do Restaurante Morassi. 

Alguns restaurantes também investem pesado em shows e eventos. São Judas, São Francisco e Florestal passaram a trazer estrelas da música popular para colocar mais tempero nas noites de sextas e sábados. "Com o show fica a certeza de que pelo menos duas mil pessoas estarão presentes" -- justifica o diretor de Marketing do Restaurante São Judas, Laerte José Demarchi Júnior.

(...). Em iniciativa também própria e parcial, os restaurantes São Judas, São Francisco, Santo Antônio e Florestal resolveram contratar a agência de publicidade Demarchi, de São Bernardo que, em parceria com a agência Preview, da Capital, elaborou planejamento de marketing para tentar lustrar de novo a imagem da rota. O primeiro obstáculo foi a impossibilidade de utilizar as margens da Via Anchieta e da Rodovia dos Imigrantes para colocação de outdoors com o slogan: Rota do Frango com Polenta -- Essa Tradição Já Faz Parte da Família. "A tentativa de utilizar as margens das rodovias controladas pela Ecovias estava sendo feita pela Prefeitura, mas a concessionária vetou o uso dos outdoors" -- cita Laerte Júnior, do São Judas.

(...). Outro desafio é conquistar patrocinadores. Algumas empresas ligadas ao setor de alimentação estão sendo convidadas para fazer parte de campanha programada para este início de 2003. O projeto publicitário contou com pesquisa interna nos quatro restaurantes. Clientes receberam formulários para classificação dos serviços, produtos e acesso, além de questionamentos para desenhar o perfil do público da rota. "Queríamos conhecer melhor quem frequenta os restaurantes, classificar os serviços e ainda decidir qual meio de comunicação será mais eficaz para atingir esse público" -- detalha Angelo Demarchi Neto. Dos itens questionados, serviços e produtos ficaram com conceito muito bom. O acesso aos restaurantes recebeu conceito regular. (...). "Mas nunca é demais lembrar que foram 30 dias de pesquisa. Na época, as obras do piscinão estavam em andamento, o que pode ter prejudicado a conceituação sobre o acesso aos restaurantes" -- pondera Ângelo. Havia quatro opções de classificação: excelente, muito bom, bom e regular.

Em meio a tantas demandas, a Prefeitura de São Bernardo decidiu direcionar as atenções ao potencial turístico do Município como alternativa às perdas socioeconômicas dos últimos anos. Para isso, contratou uma das maiores consultorias em desenvolvimento turístico do País, a Ruschmann Consulting. O trabalho já passou pelo levantamento de informações sobre sistema de coleta de lixo e de transporte, quantidade de efetivo policial e disponibilidade de serviços de emergência em hospital. O projeto está agora na fase de diagnósticos e pesquisa com visitantes. O final dos estudos, programado para início de 2003, reserva ainda a fase de proposições. "A implantação do projeto demora um ano após o fim dos estudos" -- calcula a diretora técnica da Ruschmann, Doris van de Meene Ruschmann. 

Alguns planos para outros potenciais turísticos do Município já foram expostos na primeira fase do trabalho. Após conhecer a beleza da reserva de Mata Atlântica de São Bernardo, Doris propôs colocar outdoors em São Paulo e no Grande ABC com o slogan: "Você não precisa ir até a Amazônia para conhecer os encantos da Mata Atlântica". A ideia também era utilizar as margens da Rodovia Imigrantes e da Via Anchieta para painéis de divulgação, como tentaram os empresários da rota.

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