Esportes

São Caetano consegue resistir
aos estragos de Nairo Ferreira

  DANIEL LIMA - 27/02/2020

O São Caetano está em baixa no futebol paulista, mas não em situação que o coloque fora da zona de resistência, depois de prolongada e desastrada gestão do presidente Nairo Ferreira. A equipe do técnico Galo está na sexta colocação da fase classificatória da Série A2 do Campeonato Paulista. Os oito primeiros disputarão a fase de mata-mata. Nunca é demais lembrar que o São Caetano foi rebaixado após uma decisão fraudulenta da Federação Paulista de Futebol. A entidade rasgou o próprio regulamento do campeonato do ano passado e contou com a cumplicidade da mídia chapa-branca e da mídia desinteresseira para não sofrer danos maiores que o desmascaramento da mídia independente.

O resultado geral do São Caetano neste começo de temporada pode ser considerado extraordinário após o ambiente de terra arrasada deixado por Nairo Ferreira. O dirigente que está afastado até abril e que não deve mais voltar ao clube empresarial transformou ouro em sucata.

Talvez seja uma frase de mau gosto dizer que Nairo Ferreira fez do ouro de doações do empresário Saul Klein sucata de resultados seguidamente sofríveis dentro de campo e, sobretudo, na gestão financeira. Mas é o que tenho de melhor para definir o histórico recente do clube regional que mais se destacou no cenário nacional neste século, mais precisamente na primeira década do século.

Rebaixamentos e riqueza

Nairo Ferreira torrou quase R$ 100 milhões nos últimos cinco anos. Levou o São Caetano à Sexta Divisão do futebol brasileiro. E, coincidentemente, aumentou o patrimônio familiar ao que os antigos usuários do vernáculo pátrio chamariam de “píncaros da glória”. Traduzindo a expressão para algo mais moderno, Nairo Ferreira ajeitou a vida pessoal e familiar durante o período em que ocupou a presidência do São Caetano. Fez fortuna suficiente para silenciar opositores. Nairo Ferreira tem o que os especialistas chamam de network municipal que lhe garante elevado grau de imunidade social.

Apesar da resistência, o futuro do São Caetano dentro e fora de campo ainda é uma incógnita. E seria muito pior não fosse a atuação daquele que ainda segue como salvador da pátria. Saul Klein tem reunido apoio de alguns patrocinadores para auxiliar no financiamento da equipe que disputa a Segunda Divisão de São Paulo. As dificuldades seguem enormes. Não é do dia para a noite de tenebrosos descaminhos que se resolverá a situação do São Caetano.

Dependesse de qualquer ação da gestão pública, o São Caetano já teria sucumbido na esteira dos infortúnios de Nairo Ferreira. Ficaram no passado as relações entre o clube empresarial e a Prefeitura, principalmente durante o período em que Luiz Tortorello era uma mistura de prefeito, torcedor e conselheiro da agremiação. Muitos atribuem a Luiz Tortorello, somente a Luiz Tortorello, o sucesso da “Namoradinha do Brasil”, como ficou conhecido o São Caetano. É um exagero, claro. Já naquele período Saul Klein se tornara, então, intenso colaborador da agremiação.

Mais que coronavírus

Nairo Ferreira não foi uma tempestade qualquer na história do clube. Nem um coronavírus que, ao que tudo indica, será breve. Nairo Ferreira foi longevo na arte de dar a dinheiro limpinho, muito dinheiro limpinho, destino acachampantemente suspeito, quando não vergonhoso.

É muito pouco provável que o montante doado por Saul Klein ao São Caetano de Nairo Ferreira se encerre apenas como um capítulo de incompetência de gestão. Tudo indica (e há uma série de investigações e conclusões nesse sentido) que tudo poderá desembocar em tribunais criminais.

Há farta documentação que encaminha à conclusão de que houve desvios dos recursos financeiros originários de Saul Klein para aplicação na agremiação empresarial. Recebi as provas de fonte anônima e dei aos documentos o destino preventivo indispensável: consultei as bases legais e constatei a autenticidade.

Ainda fico impressionado com o desconhecimento quase generalizado sobre a situação pretérita e atual do São Caetano. Ainda há desinformados na praça e que se manifestam em espaços de jornais, que colocam o clube empresarial num patamar de gestão invejável. Até que ponto chega a ignorância?

 São tão pobres de informação esses adoradores do passado que já passou faz tempo quanto torcedores do Santo André que também sugerem que a equipe que tanto sucesso faz na Série A1 seja mantida durante toda a temporada. O primo pobre Santo André não terá aonde cair morto depois que terminar o dinheiro de patrocínio gerido pela Federação Paulista de Futebol.

Pobre e milionário

A diferença entre os dois rivais mais tradicionais do Grande ABC é que o primeiro, Santo André, é um primo pobre de verdade, que não tem mesmo como se virar fora do calendário da Série A1, enquanto o segundo, o São Caetano, é um milionário que se empobreceu não porque o financiador tenha morrido: no caso, Saul Klein apenas desistiu de liberar doações que, bem administradas, teriam mantido o São Caetano entre a Série A e a Série B do Campeonato Brasileiro. Sem contar que a dívida de mais de R$ 30 milhões jamais constaria do prontuário financeiro da agremiação.

Embora seja a marca esportiva mais valiosa do futebol regional (os investidores internacionais levam muito em conta o passado de dois vice-campeonatos brasileiros, além do vice na Taça de Libertadores), o São Caetano não encontra compradores. Há interessados. Entretanto, quando se abre a ainda caixa-preta do peso das dívidas tributária e, principalmente, trabalhistas, as negociações perdem o viço.

Nairo Ferreira é como um administrador público que comete as maiores barbaridades e deixa aos sucessores um rastro e um fosso de complicações. O São Caetano de hoje, que acumula dificuldades à própria sobrevivência financeira, mesmo com Saul Klein coordenando grupo de patrocinadores, é o São Caetano deixado pela incompetência e desvios de Nairo Ferreira.

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