Esportes

Afinal, esse Santo André vai
mesmo entrar na história?

  DANIEL LIMA - 18/02/2020

Da mesma forma que apontei já nas primeiras rodadas o Santo André como grande surpresa na Série A1 do Campeonato Paulista desta temporada, não tenho razão alguma para esconder algo de que desconfio: tenho dúvidas se esse time vai entrar para a história do clube como um dos melhores em campo em todos os tempos.

Para chegar lá será preciso mais que continuar ganhando os jogos que restam na fase classificatória: será indispensável chegar o mais alto possível na competição quando o bicho de fato vai pegar, ou seja, nas fases de mata-matas.

Querer contrariar a lógica do sucesso é exercitar a burrice, ou seja, não dá para instalar um time, qualquer time, no pedestal, se não houver uma fita de chegada satisfatória. Que não é necessariamente o título. Está aí a Seleção Brasileira de 1982 para não nos enganar -- Entre tantos exemplos que poderiam ser pinçados da memória sem que o clubismo brutalizado prevaleça.

Olhando por cima

Vou fazer um voo panorâmico sobre o Santo André atual de 15 pontos ganhos em 18 disputados em contraponto a outros Santo André de sucesso.

Mas antecipo o resumo da ópera: duvido que chegue aonde chegou o time de 2010, vice-campeão paulista após dois jogos finais com o Santos de Neymar e Paulo Henrique Ganso. Acho que aquele Santo André então comandado fora de campo pela Saged, empresa que terceirizou o futebol durante cinco anos, e pelo técnico Sérgio Soares, dentro de campo, é o melhor da história.

Não relativizo a conclusão por conta de investimentos financeiros, de custo-benefício. Isso não entra na contabilidade porque abriria o leque a subjetividades.

Num outro texto que haverei de escrever vou descer a detalhes de um voo rasante sobre o Santo André e seus melhores momentos em mais de 50 anos de sobrevivência gloriosa. Tentarei conciliar dados e enunciados.

Tudo começa em 1975

Há seis exemplares de sucesso do Ramalhão nesse período todo. A começar pela equipe que ganhou o título que não valeu acesso em 1975, contra o Grêmio Catanduvense, numa final no Estádio Bruno Daniel. Depois vieram o que à época, editor de Esportes do Diário do Grande ABC, chamei de “baixinhos frenéticos”, antes que os anos 1970 terminassem. Fernandinho, Bona, Da Silva e Arnaldinho compunham um quarteto mágico.

Continuando, nos anos 1990, mais precisamente em 1997, veio o time que ficou invicto durante 24 partidas no campeonato de acesso e não chegou à então Divisão Principal porque, no quadrangular final, foi escandalosamente roubado pela arbitragem porque o presidente Jairo Livolis decidiu não se dobrar ao presidente da FPF de então.

Aquele Santo André era uma máquina de jogar futebol entre as equipes do mesmo porte no futebol paulista. Havia sincronia fina entre os setores com a associação de mobilidade, inventividade e eficiência.

Claro que o time campeão da Copa do Brasil em 2004, diante do Flamengo, não poderia ficar fora da lista. Um time que encantou os torcedores aos poucos.

Melhor de todos

O time vice-campeão contra o Santos em 2010 jogava por música. Guardadas as devidas proporções, antecipava o que viria a embalar o mundo do futebol em forma de Barcelona, o maior time que estes olhos já viu. O Santo André de Sérgio Soares privilegiava o sistema ofensivo. Basta dizer que nos dois jogos finais com o Santos o placar agregado foi de cinco a cinco. Uma vitória para cada lado de três a dois. O Santos fez a festa porque teve melhor desempenho na fase de classificação. Ficou um gostinho amargo por conta da atuação da bandeirinha Maria Elisa não sei das quantas.

Estava me esquecendo de uma equipe do Santo André que também merece estar entre as melhores de todos os tempos. Trata-se do time vice-campeão brasileiro da Série B, em 2008, num processo de resultados que só não garantiu o título da temporada porque o Corinthians, rebaixado no ano anterior, justificou os investimentos e o início de uma grande revolução. Aquele time que teve no goleiro Neneca o melhor entre os jogadores era uma associação de técnica qualificada que adubou os resultados no Campeonato Paulista de 2010. Tempos de Saged.

Uma grande surpresa

Agora está na praça em forma de grande surpresa o Santo André do técnico Paulo Roberto dos Santos. Vamos ver até onde vai esticar a corda. Possivelmente estará na primeira fase do mata-mata, quando deverá enfrentar o Palmeiras. Trata-se do mais pragmático entre todos os times do Santo André que obtiveram destaque na história.

A marcação forte em todos os setores e a transição rápida nos contragolpes são marcas registradas de um treinador que sabe não contar com individualidades extraordinárias. O Santo André transmite a sensação de que joga tendo como referência o último minuto de um jogo que vale taça e é preciso marcar um gol a qualquer custo. Parece não querer correr qualquer risco de deixar de construir uma oportunidade de gol por conta do cronômetro incansável.

O que me preocupa no Santo André de agora é a oscilação de desempenho nos 90 minutos. Parece um paradoxo, mas o Santo André do minuto emergencial é o mesmo Santo André do tempo integral contraditório. O que significa isso? Que o time sai de um estágio de controle ocupacional do espaço para a submissão aparentemente comprometedora num piscar de olhos.

Mais precisamente num intervalo dos dois tempos. O Santo André não joga os dois tempos com a mesma fluência. E tudo se acentua de forma preocupante quando o calendário reserva três jogos por semana.

Foco no ferramental

O que mantém o Santo André vivíssimo mesmo em condições adversas que se repetem a cada jogo do campeonato é o foco no ferramental de conceitos de velocidade e precisão na construção de jogadas.

Ao criar ações tóxicas aos adversários com o uso das laterais do gramado ou o espaço central em evoluções sistematizadas, o Santo André automatizou incursões que parecem ter saído de computadores.

Há uma repetição de alta produtividade nos passes combinada com eficiência nas finalizações. O Santo André é dotado do pragmatismo eficiente que o São Paulo de Fernando Diniz sonharia ter para completar o coletivismo dominador do tempo e do espaço. O São Paulo usa lantejoulas técnicas e táticas que o Santo André de Paulo Roberto dos Santos descarta.

Logo detectei o Santo André com olhos igualmente pragmáticos após o primeiro jogo no campeonato, mas confesso que não teria a coragem, agora, de diagnosticar a equipe como concorrente para valer à lista dos melhores times ao longo dos tempos. Vou esperar um pouco mais.

O que fará mesmo a diferença será o resultado final. Quanto mais alto subir, mais se aproximará de comparações com times que não necessariamente obtiveram títulos, mas que estão na lembrança de quem entende que futebol é uma obra coletiva em qualquer dimensão econômica, seja de Champions League, seja da Segunda Divisão Paulista.

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