Sociedade

Nostratamos de Resolver 24
anos depois (primeira parte)

  DANIEL LIMA - 31/01/2020

Quase 24 anos atrás, em maio de 1996, durante a primeira fase do Prêmio Desempenho Empresarial, ocupei o palco de um Teatro Municipal de Santo André lotadíssimo. Horas antes, preparava o editorial do evento da revista LivreMercado, publicação que criei em 1990 e que durou quase duas décadas completas. 

A marca registrada daquela premiação era o editoral que improvisava na abertura. Sempre tinha ao fundo o som de Por Uma Cabeça, meu tango preferido. Lancei naquela noite um personagem provocativo: Nostratamos de Resolver. E revelei as 40 profecias. Carregadíssimas de esperança e cuidadosamente recheadas de ceticismo.

Iniciamos hoje a reprodução daqueles enunciados seguidos de avaliação breve dos resultados. Vão ser quatro blocos de 10 profecias cada. 

Esta minissérie revela alguns pontos importantes do jornalismo que tanto defendermos.

Primeiro, o sentido tanto provocativo como prospectivo da atividade de informar. Mais que informar, de analisar e esclarecer. 

Segundo, o estágio continuado de paralisia social do Grande ABC, sobretudo de instituições civis com obrigação estatutária de agirem em defesa de associados e da comunidade como um todo.

Terceiro, o permanente degringolar da economia, situação que não cansamos de registrar a cada temporada à frente desta revista digital, única e legítima herdeira editorial de LivreMercado. 

Poderia elencar outros aspectos que contextualizam a imperiosidade de ir às estranhas daquelas profecias de mais de duas décadas. Como esses são pontos essenciais, bastam. 

Acompanhem, portanto, o primeiro bloco das profecias de Nostratamos de Resolver. E os resultados lamentavelmente frustrantes. 

 Primeira profecia 

As montadoras de veículos do Grande ABC decidiram associar-se para valer ao Fórum da Cidadania e ao Consórcio Intermunicipal de Prefeitos. Vão implantar plano conjunto de reorganização econômica e social na região que ajudaram a construir. A decisão tem a pronta adesão de outras grandes e médias empresas.

 Resultado – Este é o pulo do gato estratégico para o Grande dar um salto de qualidade ao estancamento de sangrias econômicas com duros reflexos sociais. As montadoras de veículos precisam ser sensibilizadas a participar do jogo de retomada do crescimento regional entre outras razões porque fazem parte do problema por conta de distorções econômicas que afetaram profundamente a gênese social. As instituições do Grande ABC, frágeis, individualistas e oportunistas em larga maioria, são a pedra de toque da iniciativa. Mas estão cada vez piores em isolacionismos que aprofundam o envelhecimento regional.  

 Segunda profecia 

O Consórcio Intermunicipal, formado pelos sete prefeitos da região, transforma-se num poder colegiado acima das próprias prefeituras, em defesa da integração e do fortalecimento do Grande ABC. Com receitas garantidas por aprovação de projetos de lei enviados às Câmaras Municipais, o Consórcio finalmente se profissionaliza. 

 Resultado – O que viria a denominar Clube dos Prefeitos não passa de ficção coletiva supostamente com estrutura para mudar o rumo regional. Exceto durante o período de comando do então prefeito Celso Daniel, responsável pela iniciativa de agregar os titulares dos paços municípios, praticamente nada se produziu para valer naquela organização. E para completar o desastre histórico, o prefeito de São Bernardo, Orlando Morando, asfixiou de vez o pouco que existia de cultura de coletivismo regional ao partidarizar e politizar a instituição nos dois anos de mandato. O Clube dos Prefeitos é uma nau sem rumo, com espasmos de iniciativas que não alteram o ritmo de derrocada regional. 

 Terceira profecia

Numa extraordinária ação conjunta da Polícia e da comunidade, finalmente os pontos de drogas do Grande ABC tornam-se coisa do passado. Ações educativas nas escolas e de repressão nos conhecidíssimos endereços de traficantes e drogados viram referência internacional. Em vez de pontos de drogas, agora o que se vê são drogas de pontos. 

 Resultado – Os índices criminais, de maneira geral, melhoraram neste século no Grande ABC, como no Estado de São Paulo. Trocou-se a política de Direitos Humanos do governo Mário Covas pela objetividade de redução dos dados mesmo que, entre outros indicadores, com o uso abusivo de letalidade nas operações policiais. Mas o Grande ABC está longe de ser exemplo internacional na seara de combate às drogas, até porque os traficantes estão livres, leves e soltos e as instituições de ensino são um dos alvos principais. 

 Quarta profecia

Ecologistas e capitalistas finalmente se entendem e os políticos resolvem mudar a Lei de Proteção dos Mananciais, que, na verdade, não protege coisa alguma e incentiva impunemente a proliferação de favelas. Agora já funcionam condomínios industriais não-poluentes, além da indústria do lazer e do entretenimento.

 Resultado – Os indicadores de ocupação irregular de áreas de mananciais seguem preocupantes na Região Metropolitana de São Paulo. Não há nada que indique futuro diferente. Fotos aéreas são reveladores das invasões que prosseguem, mesmo com maior empenho restritivo ou dissuasivo do Estado. 

 Quinta profecia

O Fórum da Cidadania do Grande ABC, a maior invenção coletiva da região, conseguiu estrutura de recursos financeiros que lhe garante acelerar a conquista de mais espaços para o fortalecimento da cidadania regional. Agora, além da representatividade, o Fórum tem dinheiro em caixa.

 Resultado – O Fórum da Cidadania tornou-se frustrante chuva institucional de verão que durou algumas temporadas na segunda metade dos anos 1990. Morreu de morte morrida porque não teve forças que o sustentassem. Interesses cruzados e divergentes acumularam-se e soterraram o espírito de regionalidade. Uma crônica detalhada sobre as razões do aniquilamento do Fórum da Cidadania exigiria dezenas de páginas. A entidade não teve sequer um enterro de luxo. Virou frustração gradual, sem resistência. E não deixou sequer um espírito de indignação que motivasse algo semelhante ou aperfeiçoado. O Grande ABC está órfão. 

 Sexta profecia

Os indicadores de criminalidade no Grande ABC, que chegam perto da temida Baixada Fluminense, finalmente desabaram. Isso é resultado direto de trabalhos integrados da comunidade regional e do melhor aparelhamento da Polícia, além de fantástica recuperação econômica. O Grande ABC que descia a ladeira da qualidade de vida agora sobe o elevador do bem-estar social.

 Resultado – Esse é um resultado que foge de elucubrações políticas, partidárias ou ideológicas. O Grande ABC criminal está acentuadamente mais compatível com o compromisso com a qualidade de vida do que no final do século passado. O assassinato do prefeito Celso Daniel mudou integralmente a política de Segurança Pública no Estado. Os dados de criminalidade desabaram em todo o Estado. Investimentos em recursos humanos, materiais e em políticas de combate aos criminosos colocaram o Estado num estágio próximo ao do mundo civilizado. Há muito ainda a melhorar, mas quem viveu nos anos 1990, com mais de 1.500 assassinatos na região a cada temporada, sabe a diferença de registrar nos últimos anos menos de 300 casos letais. 

 Sétima profecia

Faculdades da região, entusiasmadas com o desprendimento de lideranças do Fórum da Cidadania e do Consórcio Intermunicipal, resolveram arregaçar as mangas e somar forças. Deixaram as salas de aula e conheceram de perto a realidade das ruas. Na prática, agora a teoria é outra.

 Resultado – As ações nesse sentido, ou seja, de potencializar com intelectuais a dinâmica de produção de medidas saneadores do Grande ABC, não passaram de ensaios incompletos. Raras instituições reservam algum naco de preocupação com o conjunto da obra do Município ou da região. A quase totalidade atua com fragilidade intramuros. E as escolas de Ensino Superior que de alguma forma atacam questões regionais o fazem com vieses pouco compatíveis com a realidade prática. Chega-se, inclusive, num surto de terraplanismo acadêmico, a negar, minimizar ou mistificar a desindustrialização regional. Um verdadeiro saldo no escuro da escravidão ideológica. 

 Oitava profecia

Bases da Central Única dos Trabalhadores na região surpreenderam o País ao convencerem a cúpula de seus sindicatos locais a trocar as greves por programas de reciclagem profissional não só para os empregados, sempre ameaçados de demissão pela globalização, mas também aos desempregados. Os recursos foram garantidos pelo FAT (Fundo de Amparo ao Trabalhador).

 Resultado – O movimento sindical no Grande ABC, especialmente da CUT (Central Única dos Trabalhadores), com atuação incisiva no setor metalúrgico de São Bernardo, está à deriva após décadas de exageros reivindicativos e estupidez ideológica. Acabou a farra do dinheiro fácil do Imposto Sindical. Mas há rescaldos que permanecem e custam caro à competitividade industrial do Grande ABC. Quase uma centena dos chamados comitês de fábricas estão espalhados por São Bernardo e Diadema. São extensões do Sindicato dos Metalúrgicos que inibem relações mais pragmáticas entre capital e trabalho. O viés socialista prevalece. O Grande ABC já não ganha as manchetes de jornais e noticiário de televisão com greves, porque suicidas, mas sofre ante o silêncio corrosivo de lideranças sindicais avessas ao mundo exterior, ou seja, à sociedade como um todo. 

 Nona profecia

A Avenida dos Estados, tão comprida quanto abandonada, finalmente vira passarela de Primeiro Mundo, oferecendo condições de uso que garantem o desenvolvimento do pólo comercial e de serviços em suas duas margens. Enchentes, que tantos sacos encheram, são coisa do passado.

 Resultado – Se a Avenida do Estado já era um problemão no final dos anos 1990, hoje a situação é muito pior. E não adianta venderem a porção milagrosa de intervenções pontuais em determinados trechos, sobretudo com novas alças de viadutos, que o resultado será aquém do imprescindível. A Avenida do Estado é um trambolho estrutural porque virou um corredor em que prevalecem improdutividade operacional, desconforto no tráfego e riscos de acidentes. Quem depender da Avenida do Estado para saltar em qualidade de vida e Desenvolvimento Econômico vai quebrar a cara. Há mais opções no mercado logístico. O Rodoanel está aí para confirmar. 

 Décima profecia 

Resultado dos trabalhos do Fórum, do Consórcio e das Escolas de Terceiro Grau, a bancada de deputados estaduais do Grande ABC supera as expectativas. Agora a região não desperdiça mais votos em estranhos e nem desconhece o nome de seus candidatos. Temos 15 deputados, contra oito do final do século.

 Resultado – A bancada do Grande ABC nesta temporada na Assembleia Legislativa conta seis representantes. Exatamente a parte do latifúndio de eleitores do Grande ABC no mapa estadual. Poderiam ser mais deputados, porque a densidade populacional por quilômetro quadrado do Grande ABC favorece produtividade dos votos. A quantidade expressa na proposta de Nostratamos de Resolver perdeu o significado que se pretendia. O Grande ABC já contou com maior número de eleitos à Assembleia Legislativa e jamais fez a diferença nas decisões. A chamada bancada regional não passa de ficção que o multipartidarismo e municipalismo bloqueiam permanentemente. 

Leia mais matérias desta seção: