Política

Quem ganha eleitoralmente
com a debandada da Ford?

  DANIEL LIMA - 23/01/2020

Escrevi tangencialmente na semana passada que a imagem da Administração Orlando Morando (na esteira do triunfalismo do parceiro de todas as horas, o governador João Doria) poderia perder muito do brilho com a retirada da Ford e em contraste com a festejada e aguardada inauguração do piscinão no Paço Municipal. Era uma conjectura do quadro eleitoral no interior da série de análises sobre competitividade dos candidatos nas próximas eleições municipais.

Na edição de domingo o Diário do Grande ABC fez uma incursão socioeconômica sobre a debandada da montadora norte-americana, entrevistando gente de carne e osso.

Hoje, o Valor Econômico reserva uma página inteira e densa para tratar do caso, sob o ângulo central do transtorno do governador.

O caso Ford, com perdão da insinuação pornográfica, está ferrando, para não dizer outra coisa, os tucanos na Região Metropolitana de São Paulo. Quando se promete fazer algo tão extraordinário, como se prometeu, e não se cumpre, o bônus cede espaço ao ônus. A precipitação eleitoral tem custo.

Ford versus piscinão

Para não haver dúvida sobre o trecho no qual condicionei as possibilidades eleitorais de Orlando Morando na disputa com o petista Luiz Marinho em outubro próximo, reproduzo-o como reforço de memória. Foi no dia 17, também conhecido, no caso, como quarta-feira da semana passada. Leiam: 

 (...). Ainda quanto à Agenda Local, saberia o leitor avaliar o que tem maior peso à definição de voto do eleitorado em São Bernardo (sem considerar outros quesitos listados) em outubro deste ano? O que é mais importante: a construção do piscinão que atazanava a vida de muita gente nas enchentes na região central ou uma declaração do prefeito Orlando Morando, acompanhado do governador João Doria (o inverso da equação também seria verdadeiro) ao garantir que a Ford não daria no pé e, em seguida, diante da frustração, que aquela unidade ganharia substituto antes que dezembro do ano passado chegasse? Vou insistir no exemplo, transportando-o ao campo da mídia social, cujos aplicativos estão recheadíssimos de guerrilheiros: uma campanha que pretendesse desidratar a força eleitoral de Orlando Morando e que tratasse da frustração da Administração Pública ao não segurar a Ford nem garantir uma fábrica substituta, provocando a perda de quase três mil postos de trabalho, teria mais força que o concreto armadíssimo que garante que a região do Paço Municipal não mergulhará mais nas águas de verão? . O parágrafo é longo o suficiente para, quem sabe, exigir releitura, mas o fiz de propósito, num fôlego único, porque assim o leitor não perderia a oportunidade de sentir o confronto de equações. Em outros tempos, quando o peso da Economia Local também não era declaradamente questão eleitoral mais proeminente, o piscinão ganharia de goleada essa disputa. Agora, com redes sociais martelando novos conceitos e interesses nem sempre coerentes, tudo pode acontecer.  

Cinismo da indignação 

O que pergunto com a maior cara de pau do planeta (também tenho o direito de ser cínico, muito cínico, desde que o cinismo seja fonte de indignação) é para quem irão os votos dos eleitores indecisos entre a direita e a esquerda nas eleições deste ano em São Bernardo por conta do impacto da retirada da Ford?

Repito: quem usufruiria do desencanto natural de se ter a perspectiva de que tudo poderia ser relativamente contornado com a chegada da CAOA para compensar parte da perda de três mil trabalhadores? Sim, apenas parte dos três mil trabalhadores, porque seriam 700 os resgatáveis, os quais teriam em média corte de 30% dos salários, ajustando-se aos novos tempos.

Para deixar mais evidente a equação: quem vai ganhar politicamente, no campo do voto, com a exposição dessa fratura política tanto do governador quanto do prefeito tucanos, agora que a Ford virou passado e, pelo andar da carruagem, nada até outubro deverá ser colocado à mesa como solução?

Se o prefeito Orlando Morando não tem cacife argumentativo para se livrar da pecha de vendedor de ilusão que, no cangote do governador João Doria, anunciou uma solução fácil que se converteu em desencanto, seria então o PT de Luiz Marinho o beneficiário principal do fracasso tucano? 

Marinho nada ganha

Nada, nadinha. Esse tema está fora da órbita petista-sindical entre outros motivos porque foi esse conglomerado da esquerda que introduziu no seio do trabalhismo regional, sobremodo em São Bernardo, berço petista, o vírus de uma exacerbação do valor do trabalho em relação ao capital sem considerar o todo de um bolo profundamente desigual.  

Para ser mais claro, direto e reto: o PT e a CUT criaram um bolsão de excepcionalidades trabalhistas suplementares à própria legislação e impuseram às montadoras de veículos um padrão de vencimentos salariais e benefícios que transformaram os trabalhadores das unidades em casta, em elite comprovada pela média salarial muito acima dos demais trabalhadores industriais.

Jogou-se um jogo exclusivamente corporativista. A sociedade sempre foi esquecida pelo sindicalismo ideologizado para profanar o capital, embora se deleitasse com as benesses do capital.

Criou-se no Grande ABC, como publicou em Reportagem de Capa da revista LivreMercado há mais de 20 anos, o que se chamou de trabalhadores de primeira, de segunda e de terceira classes.

Reforma é o preço

Agora que a vaca do BNDES foi para o brejo com a eliminação de protecionismos à custa do contribuinte e do fomento da desigualdade competitiva entre grandes, médias e pequenas empresas, o setor industrial vai ter de se virar por conta própria. Inclusive os trabalhadores, submetidos a um regime de contração de carteiras assinadas.

Demissões são um dos referenciais para ajustar as planilhas de custos dentro de uma realidade que não comporta paternalismo do Estado mais que comprometido no campo fiscal.

Uma grande reforma está-se iniciando e poucos sabem o destino final, exceto a certeza de que produtividade é a palavra-chave e, como palavra-chave, requer reestruturações enormes.

Doria fora do prumo

Para o governador João Doria, entretanto, de olho no Palácio do Planalto, benesses do Estado pantagruélico seguem sendo rotina. A política de favorecimento a setores industriais que ainda não se livraram dos estragos do governo petista, após temporadas consumistas desligadas de investimentos, é uma das marcas de incentivos fiscais do governador.

Várias regiões do Estado recebem vantagens que a General Motors obteve em São Caetano, após ameaçar deixar o campo de jogo por conta dos custos. Doria quer ser presidente de qualquer maneira. E repetir velharias econômicas com a chancela do secretário Henrique Meirelles faz parte do show. Nesse ponto, o parentesco com sindicalistas e petistas de São Bernardo não é pura coincidência. É oportunismo mesmo.

O governador do Estado e o prefeito de São Bernardo ignoram ou fingem ignorar que não serão ações circunstancias, tópicas, epidérmicas, que potencializarão o Desenvolvimento Econômico. Não se pode desprezar a ampla agenda de reforma do Estado brasileiro que projeta elevar a competitividade internacional e reduzir custos tributários.   

O caso Ford está à espera de um vencedor ou potencial vencedor político em São Bernardo, centro da operação de resgate que fracassou e queimou o prestígio dos tucanos, além de reavivar a memória sobre os efeitos deletérios do sindicalismo. Talvez o deputado federal Alex Manente, se candidato vier a ser, empunhe essa bandeira sem dono, porque todos os envolvidos, à direita e à esquerda, estão no prejuízo praticamente irreversível.

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