Política

Agenda Regional não tem peso
suficiente para alterar destino

  DANIEL LIMA - 20/01/2020

Uma prova provada da falência da regionalidade do Grande e tudo que isso significa de pernicioso ao Desenvolvimento Econômico de quase três milhões de habitantes é que a Agenda Regional tem pouca expressão como potencial eleitoral em outubro próximo. Esta é a segunda matéria da série que trata das eleições municipais nesta temporada. São 13 os quesitos essenciais a uma campanha com possibilidades de se tornar vitoriosa.

A baixíssima aderência popular á temática regional é a prova mais contundente e lamentável do fracasso dos gestores públicos que já passaram pelas prefeituras e também da sociedade como um todo. Sobretudo de instituições em estado falimentar ou vegetativo. Gente que usa as entidades para benefício próprio ou grupal.

Chegar à conclusão de que a Agenda Regional é quase uma falácia significa a dor mais dolorida de alguém que não enxerga outra saída para cada um dos municípios locais senão a descoberta de que somente com o ajuntamento planejado a partir do Desenvolvimento Econômico será possível colocar as questões desse território como ponta de lança de sensibilidade dos eleitores. O bicho-de-sete-cabeças do Grande ABC ainda não foi decifrado pelos agentes públicos.

Sem aderência eleitoral

Nenhum dos atuais prefeitos e tampouco o exército que se está formando para disputar os respectivos Paços Municipais têm a Agenda Regional como motivação eleitoral. O discurso de regionalidade não ecoa com intensidade minimamente desejada. Quem se aventurar a colocar o Grande ABC na pauta eleitoral vai dar com os burros nágua. Os próprios eleitores, sem se darem conta da relevância do assunto, desdenham questões que ultrapassam os limites de cada Município.

Esse contrassenso é mais que uma crítica eventualmente ácida. É muito mais que uma desilusão de regionalista. É a realidade dos fatos presos à própria história de municipalismo do Grande ABC.

A divisão em sete partes desiguais e em muitos casos antagônicas é um fracasso consumado a partir de metade do século passado. Os ganhos com as emancipações são bem menos visíveis e práticos do que os danos colaterais. 

O divisionismo criou uma barreira de fogo de egos e ciumeira em cada território. Há uma rivalidade latente e contraproducente ao enriquecimento regional. Quando não à manutenção do peso econômico no Estado, que se dissolve a cada temporada.

Clube dos Prefeitos

Cada porção de mandachuvas e mandachuvinhas quer cuidar do próprio quintal. Alguns fingem interesse regional apenas porque seria politicamente correto. Raros assumem posição francamente integradora. Celso Daniel foi o maior e quase único entre eles.

Querem um exemplo prático do que se passa e o que se passou com a regionalidade do Grande ABC?

Pegue o histórico do Clube dos Prefeitos. Trata-se de longa jornada de protelações aos pressupostos de interação. As poucas e praticamente nada suficientemente importantes conquistas confirmam a regra da aridez de talento dos agentes públicos em lidar com o entrelaçamento dos municípios em busca de soluções gerais ou específicas que não poderiam jamais esperar.

Fosse a regionalidade importante como elemento de catequização da opinião pública (e, portanto, com alto valor político-institucional), o estrangulamento do Clube dos Prefeitos teria enterrado a carreira do prefeito de São Bernardo, Orlando Morando. Durante os dois anos de mandato naquela instituição, o tucano seguiu receituário que praticamente exterminou o que ainda havia de resistência ao discurso de que o Grande ABC contava com uma entidade integracionista.

Sonho de Celso Daniel

Orlando Morando dissolveu as linhas de atuação precária do Clube dos Prefeitos porque partidarizou e ideologizou a instituição. Retiraram-se mecanismos de sustentação de um projeto de competitividade quando se reduziu drasticamente a cota monetária de participação dos municípios. Aliás, no fundo a medida pareceu pouco efetiva porque a inadimplência das prefeituras elevava o grau de fragilização orçamentária.

Em suma, o Clube dos Prefeitos foi um sonho de Celso Daniel que se desfaz a cada nova temporada em que o visionário petista completa ausência no calendário gregoriano, assassinado que fora em janeiro de 2002.

Também não deixa de ser intrigante que, apesar da baixa aderência do eleitorado às questões regionais, seja o prefeito Celso Daniel, precursor da retórica e de ações nesse sentido, lembrado como o maior indutor regional da história do Grande ABC. Como se explica que a classe política, a quem mais deveria interessar a imbricação rumo a temáticas da região, não se envolve para valer para extrair uma imagem diferenciada do que se tem vivido neste século?

Como alterar o Rodoanel?

Um candidato a qualquer prefeitura do Grande ABC (sobretudo às principais) que defendesse abertamente a reformulação do conceito de uso do trecho sul do Rodoanel, por exemplo, não teria possibilidades de sucesso ou de tornar a regionalidade logística um ponto a ser considerado pelos eleitores?

Provavelmente sim, mas não existiria ressonância popular sem que os meios de comunicação acordassem para o eterno enxugar de gelo em forma de pautas municipalistas que os candidatos em geral os encabrestam.

Ou seja: deveria partir sincronizadamente, como espécie de programa obrigatório da própria mídia, a decisão de orquestrar uma Agenda Regional que contemple demandas que a sociedade é incapaz de filtrar e com isso dar caráter de certa emergência.

Não resta dúvida de que quanto mais o Grande ABC não se der conta de que é possível cruzar os caminhos da regionalidade com o peso eleitoral, mais tempo se levará para dar a largada rumo à recuperação econômica.

Caso Ford é emblemático

É indispensável incutir na mente dos moradores do Grande ABC que casos como o da Ford (o fechamento afetou diretamente mais de 2,8 mil trabalhadores e uma rede de fornecedores incalculável) não está restrito à geografia econômica de São Bernardo.

Tanto no aspecto econômico, que se espraia pela região, quanto na mensagem que transmite, de escassa competitividade industrial, a fuga da Ford coloca o Grande ABC de joelho ante outros endereços municipais e regionais dotados de arcabouços mais avançados de resistência à competitividade globalizante. A Grande Osasco de PIB cada vez mais elevado em relação ao Grande ABC está aí para comprovar.

Houvesse uma frente ampla regional, com representantes econômicos aparelhados de dotes pessoais e institucionais, dificilmente a Ford teria deixado São Bernardo com a facilidade que se manifestou em comunicado protocolar.

Haveria provavelmente ações preventivas que detectariam até que ponto seria possível impedir a debandada da multinacional de capital norte-americano. Em último caso, uma força-tarefa teria se antecipado à decisão e buscaria meios menos espetaculosos e político-eleitorais para substituir aquela planta. Portanto, sem a correria do improviso provocado pela surpresa da medida.

A Agenda Regional para as eleições no Grande ABC em outubro próximo será, portanto, bastante modesta quando se tratar de influência direta na captura de eleitores mais preparados para entender que o jogo de Desenvolvimento Econômico passa obrigatoriamente pela confluência de ativos que ultrapassam cada um dos municípios locais.

Ainda se fixando no exemplo do Rodoanel, poucos eleitores vão levar em conta que há um vazio institucional e pessoal dos agentes públicos na tentativa de reparar os danos econômicos causados pela migração de empresas da região rumo a Osasco e vizinhança.

A debilitada Agenda Regional é um estúpido atentado às potenciais vantagens de um regionalismo manietado pelo municipalismo deformado e arraigado.

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