Política

Paulinho já foi mais favorito;
Orlando já respira aliviado

  DANIEL LIMA - 12/12/2019

Faltam menos de 10 meses para as eleições municipais no Grande ABC e há uma leve reviravolta que pode ganhar corpo e se consolidar em forma de cavalo de pau até que as urnas se abram: a vitória de Paulinho Serra já foi muito mais provável e as complicações de Orlando Morando bem mais inquietantes. Os excessos de autossuficiência no Paço de Santo André e a liberdade provisória de Lula da Silva contribuem para sacolejadas ainda discretas.

Agora o quadro provisório que pode virar definitivo ou esfriar a ponto de arrefecer revela um Paulinho Serra acossado por vários adversários, tendo Ailton Lima como principal, e Orlando Morando vendo Luiz Marinho fugir no retrovisor. O terceiro vértice eleitoral em São Bernardo, Alex Manente, possivelmente confirmaria a tradição de não ameaçar ninguém para valer.

Não existe termos de comparação quando o regramento de probabilidades se circunscreve ao municipalismo, apenas o municipalismo e, portanto, nada de regionalismo:  o tucano Orlando Morando é administrativamente muito superior ao também tucano Paulinho Serra.

As vantagens de Morando

Ex-deputado em três legislaturas, amigo muito próximo do governador João Doria, Orlando Morando é um político experiente o suficiente para surpreender quem o observa na plenitude da mocidade de quem ainda não completou 50 anos.

Paulinho Serra é um jovem que não suporta o contraditório, é muito mal-assessorado, fomenta com omissão ou ação a constituição de esquadrões digitais especializados não só em distribuir mentiras a torto e a direito como também em bater o recorde de imbecilidade ao destruir pontes que seriam uteis no futuro.

Há mais razões para o distanciamento entre Orlando Morando e Paulinho Serra na corrida de potencialidades eleitorais no ano que vem.

Do ponto de vista de gestão (sempre ressaltando o ambiente exclusivamente municipal, porque no regional ambos não oferecem nada de gratificante) o tucano de São Bernardo é muito mais efetivo. Obras abandonadas pelo petista Luiz Marinho encontraram um prefeito-operário da mesma forma que a distribuição de talento para cuidar do varejismos de pequenas benfeitorias de efeitos localizados, dentro do microcosmo de bairros.  Orlando Morando cuida da maquiagem e de cirurgias.

Os problemas de Paulinho

Paulinho Serra é um marqueteiro provinciano de primeira ordem e exatamente por isso, por exagerar na dose, mesmo quando coloca a materialidade à prova, ou seja, quando transforma dinheiro em obras e serviços, causa desconfiança de que pratica alguma traquinagem informativa.

A gestão de Paulinho Serra subestima a inteligência média da população. Apropria-se e faz estardalhaço de supostas conquistas do passado (caso de um estranho ranking para a criação de filhos) e renega veementemente as próprias digitais quando o passivo é de sua jornada de três temporadas (o descaso com a reconfiguração estratégica da economia de Santo André).

Ainda sobre criação de filhos, e sem qualquer juízo de valor ou algo semelhante porque o incidente é dramático, o prefeito de Santo André sabe que não é bem assim o que se passa nestes tempos com a juventude. Um caso trágico no edifício em que mora abalou a sociedade justamente quando mais o prefeito divulgava a suposta conquista.

Trocando em miúdos: Paulinho Serra é um péssimo gestor de informações porque entrega a comunicação nas mídias sociais a amadores de baixa qualificação técnica e de altíssima octanagem emocional e idiossincrática.

Ailton Lima entra no jogo

Quando se vislumbra o imediatismo eleitoral, Paulinho Serra ainda leva vantagem quanto a riscos que eventualmente possa ocorrer, mas já esteve em situação muito melhor. Ailton Lima, ex-vereador e ex-secretário do próprio Paulinho Serra (na área de Desenvolvimento Econômico, que é um túmulo entre outras razões porque Paulinho Serra não entende patavina do assunto) é o nome que opositores mais apostam como adversário do tucano num eventual segundo turno.

E para quem coloca em dúvida a possibilidade de Ailton Lima apenas fazer jogo de cena porque mais adiante se aliaria a Paulinho Serra em troca de uma candidatura a vice-prefeito, a situação é bem diversa: ele entrou para valer na disputa pelos votos e tem um carregamento intenso de bólidos que acertariam em cheio o adversário. Ou pelo menos o paralisaria em determinadas situações.

Relação íntima com PT

Mas o mote que pode levar Ailton Lima a nocautear Paulinho Serra talvez já esteja sendo exercitado nas redes sociais, inclusive por outros concorrentes ao Paço Municipal: as relações incestuosas do tucano com petistas ligados ao ex-prefeito Carlos Grana.

Há enxurrada de petistas da gema na gestão de Paulinho Serra, muitos dos quais como comissionados. É um acerto que tucanos e petistas fizeram logo após as eleições de 2016. Ligar Paulinho Serra a um PT que ainda vai demorar para se recompor eleitoralmente na região, sobretudo por conta da liberdade explosiva de Lula da Silva, talvez possa canalizar para Ailton Lima importante parcela de eleitores da direita e da centro-direita que, em princípio, seriam correntes de transmissão do atual prefeito.

Um dos pontos que concorrentes de Paulinho Serra colocam na alça de mira como projétil a ser detonado é a quase amistosidade do prefeito de Santo André nas relações com petistas.

Diferentemente de Orlando Morando, que jamais negou confrontar avermelhados, Paulinho Serra parece medir as palavras e gestos. Sugere-se que algo o conecta às lideranças do PT no Município a ponto de amarrá-lo no pé da árvore da imobilidade crítica.

Lula é prova provada

A soltura do ex-presidente Lula da Silva é prova disso. Quase que envergonhadamente Paulinho Serra fez comentários mais que comedidos contra o petista numa reportagem do Diário do Grande ABC. Parecia estar praticando um ato impuro, ingrato. Enquanto isso, Orlando Morando foi enfático, assertivo, contundente. Algo que tem tudo a ver com a constatação de que com mais ou menos possibilidades eleitorais o PT é o adversário a ser batido em São Bernardo.

Bem diferente de Paulinho Serra que, acreditem, sugere que pretenderia levar em banho-maria eventuais desavenças com os esquerdistas locais, além do PT.

Caso do PSOL do pré-candidato Bruno Daniel, cujo mentor eleitoral, o ex-vereador Ricardo Alvarez, não seria exatamente um oponente do tucano. Seria um aliado nos bastidores. Não há registros de críticas sempre exacerbadas dos psolistas no ambiente nacional quando se trata de avaliar a gestão de Paulinho Serra. Ou seja: o PSOL estaria longe demais da embocadura desejada.

Data especulativo

Tempos atrás seria este jornalista capaz de jurar que as probabilidades de Paulinho Serra se reeleger com os dois pés às costas encontrava o mesmo respaldo teórico de Orlando Morando perder o sono por causa das perspectivas de Luiz Marinho. Hoje a situação é outra.

Paulinho Serra pode ser atropelado se a movimentação das pedras seguir no ritmo que se observa (Ailton Lima é visto como alguém mais confiável, mais diplomático, mais cumpridor da palavra dada, entre variáveis importantes no jogo político), enquanto Orlando Morando nada de braçadas ante o esfacelamento do PT.

Como não perco a mania de tanto problematizar quanto medir o contexto político, diria que o placar parcial do DataDaniel de especulações aponta que Orlando Morando conta hoje com 65% a 35% dos votos em São Bernardo, enquanto em Santo André Paulinho Serra não passaria 60% a 40% dos votos contra Ailton Lima.

Acompanhamento duplo

Entendam que em São Bernardo os votos de Alex Manente seriam distribuídos mais ou menos em quantidade semelhante entre os dois finalistas, enquanto em Santo André o reforço a Ailton Lima viria da quase totalidade dos demais concorrentes que se opõem a Paulinho Serra.

A partir de agora vou estender as especulações sobre as eleições do ano que vem além do território de São Bernardo.  Incluo Santo André porque Paulinho Serra já não concorre contra o vento, como em outubro de 2016, quando o PT foi destroçado pela Operação Lava Jato.

O PT ainda não se recuperou na região e dificilmente o fará, exceto possivelmente em Diadema, mas pode ser um fiel da balança da esquerda se os eleitores mais conservadores se derem conta de que Paulinho Serra seria, na avalição ácida dos adversários, um legítimo tucano do bico vermelho. 

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