Administração Pública

Paulinho Serra despreza ideia
de ouvir pelo menos um Daniel

  DANIEL LIMA - 10/12/2019

Me inclua fora dessa para não dizerem que sou cabotino. Fiquemos apenas com um Daniel, não o Lima, este idiota juramentado em formato de moinho de ventos. Fiquemos com o Daniel Gómez Gaviria. Vou explicar mais adiante quem é meu xará. O começo do começo dessa abordagem está na data de 19 de dezembro de 2016. Paulinho Serra acabara de vencer as eleições municipais em Santo André e se preparava para tomar posse, em primeiro de janeiro.

Fiz recomendações ao tucano naquele texto que consta do acervo deste CapitalSocial. Bastava Paulinho Serra tentar seguir a cartilha do meu xará, que de fato não difere em nada de minhas pregações.

Paulinho Serra preferiu o desvio do populismo marqueteiro.  Por isso é um prefeito medíocre na área de Desenvolvimento Econômico. Para ser mais justo, Paulinho Serra é mais medíocre do que qualquer um dos contemporâneos dos paços municipais. Afinal, Santo André é o mais longevo exemplar de derrocada econômica. Supera São Caetano, que é muito mais equilibrada socialmente.  

Ensinamentos do xará

O meu xará foi destacado naquele texto que assinei porque dera uma entrevista à revista Exame. Daniel Gómez Gaviria estava na área de competitividade do Fórum Econômico Mundial, instituição que além de organizar encontros em Davos, produz respeitados estudos e rankings. Leia as recomendações dele que servem para qualquer agente público, sobretudo de territórios com as características do Grande ABC: 

 O objetivo deve ser aumentar a competitividade. O primeiro passo é fazer uma análise. Usando os rankings disponíveis, qual é a posição da cidade? Quais são os pontos fortes e os fracos? Uma vez feito isso, é preciso definir as prioridades e ter um plano para garantir a execução. 

 É preciso ter claro o significado de competitividade. Para nós, quer dizer um grupo de fatores e condições que aumentam a produtividade da economia. Isso inclui desde a elevação da qualidade das instituições até o reforço da infraestrutura. 

 Em alguns casos, é verdade, que os prefeitos têm pouca ou nenhuma margem de manobra. Um exemplo disso é a política macroeconômica. Mas em vários outros temas eles podem fazer muito. Falo do combate à corrupção, da diminuição da burocracia, da melhoria da infraestrutura, do aumento da qualidade dos serviços de saúde e de educação. Até mesmo na área do trabalho os prefeitos podem ajudar.

Desastre imperdoável

Paulinho Serra é um desastre que completa três anos à frente de Santo André. Uma mediocridade econômica porque mediocridade econômica não comporta subjetividades típicas de quinquilharias de políticas que priorizam o varejismos de intervenções tópicas na infraestrutura física.

Fosse um elemento estranho à vida econômica e social de Santo André, fosse um acidente de percurso eleitoral, fosse algo exótico cuja vitória nas urnas eleitoral não permitisse avaliação segura, mesmo assim, Paulinho Serra seria medíocre no campo econômico. Mesmo quem jamais botou os pés em Santo André, mas que tenha comprometimento, sabe que o Município empobreceu largamente ao longo dos anos de desindustrialização. E que, portanto, qualquer prefeito haveria de priorizar a recuperação, dentro dos limites de gestão pública municipal.

Contexto pós-eleitoral

É muito importante que avaliações sejam contextualizadas no tempo e circunstâncias. Onze dias antes de escrever sobre os conselhos do meu xará, alertei aos moradores de Santo André sobre o que se previa para os próximos quatro anos. Foi em 8 de dezembro de 2016, portanto, que, sob o título “Paulinho Serra, Paulo Serra ou Paulinho Ravin? Escolha”, fiz análise cujos primeiros trechos, mais que suficientes, são reproduzidos abaixo:

 Será que vai ser preciso esperar muito tempo, a partir de primeiro de janeiro, para se chegar à definição clara sobre quem será o próximo prefeito de Santo André? Teremos Paulinho Serra, como todos conhecem, Paulo Serra, como o marketing combinado com a mídia pretende que seja, ou contaremos com Paulinho Ravin, uma mistura do Paulinho Serra vereador com o ex-prefeito Aidan Ravin? É por existirem essas três dimensões no horizonte que decidi ser prudente: enquanto não contar com certeza de que teremos de fato um prefeito à altura das necessidades básicas de Santo André, continuarei a chamar o tucano eleito por esmagadora votação (nem poderia ser diferente) de Paulino Serra, porque esse é seu nome de batismo político. As demais mídias que sigam a rasgar tudo o que publicaram ao longo dos anos sobre Paulinho Serra e o chamem de Paulo Serra. Os bastidores políticos em Santo André indicam, por enquanto e até prova de nomeações em contrário, que Paulinho Serra está muito mais para Paulinho Ravin do que para Paulo Serra. Traduzindo em miúdos: Paulinho Serra converge para uma gestão associadíssima ao mais do mesmo. Tradução ainda mais radical: Paulinho Serra direciona-se a uma gestão ligadíssima ao que existe de pior do mais do mesmo. Possivelmente insatisfeito com a quase totalidade de fracassos do então petebista Aidan Ravin, Paulinho Serra flertaria também com algumas peças mais que descartáveis que deram sustentação à Administração do petista Carlos Grana.  

Alarme de urgência 

É inadmissível que Paulinho Serra não acionasse o alarme da urgência em iniciar uma nova modelagem econômica de Santo André tendo à disposição dados que qualquer gestor público está obrigado a conhecer. A degringolada de Santo André neste século (vou ficar apenas neste século, porque o passado foi um estrondo nas duas últimas décadas) não é uma obra de desastre natural, por exemplo. É incompetência marteladamente ignorada por agentes públicos.

Um exemplo? Só entre 2002 e 2016 o Produto Interno Bruto (PIB) per capita de Santo André avançou apenas 189,68% em termos nominais, sem considerar a inflação do período de janeiro de 2003 a dezembro de 2016. Houve, portanto, perda alarmante nessa métrica que ajuda a compreender o estágio dos municípios brasileiros. A inflação do período, medida pelo IPCA, chegou a 309,95%. Se aplicada a inflação do IPCA ao PIB por habitante de 2002 (de nominais R$ 12.978 mil), o valor corresponderia a R$ 53.203 mil em dezembro de 2016), Santo André registrou na ponta final do tempo PIB per capita de R$ 37.595 mil. Ou seja: a perda de R$ 15.608 mil por morador em 2016. Ou alarmantes 29,33%. E os números não são ainda piores porque o crescimento demográfico de Santo André foi modesto, um dos mais discretos do Grande ABC. Só perde para a congelada São Caetano.

Campo muito fértil

Destrinchar dados econômicos de Santo André para dimensionar o tamanho da incompetência dos prefeitos que sucederam a Celso Daniel é um trabalho insano. Nada por eventual carência de  massa, mas exatamente pelo excesso.

Ainda sobre o PIB por habitante, pego um novo exemplo tendo como base de comparação um município decadente (Santo André, claro) e um município efervescente, no caso Sorocaba. Em 2002, Santo André contava com a geração de riqueza em produtos e serviços praticamente igual ao de Sorocaba: R$ 12.978 contra R$ 12.878. Na ponta da pesquisa, em dezembro de 2016, ou seja, no ano da vitória eleitoral de Paulinho Serra, o resultado era outro: Santo André chegara ao PIB por habitante de R$ 37.595 enquanto Sorocaba saltara a R$ 48.519 mil. Ou seja: o que era um jogo empatado virou vantagem de 22,51% a favor da cidade do Interior.

Isto posto e muito a colocar na mesa, embora muito já tenha sido colocado ao longo dos últimos anos quando a referência é a letargia, a morosidade, a enrolação e tudo mais, não há dúvida alguma de que Paulinho Serra se não quer ler os ensinamentos do meu xará, que fique mesmo com os meus. Que são, cá entre nós, muito mais qualificados porque esse território regional é minha especialidade há dezenas de anos.  Só os batedores de carteira ética e moral não sabem ou fingem não saber porque batedores são.

Leia mais matérias desta seção: