Administração Pública

Auricchio vai conseguir mudar
realidade do Bairro Fundação?

  DANIEL LIMA - 09/12/2019

O deserdado Bairro Fundação entrou na mira do prefeito José Auricchio. O Bairro Fundação está na origem ocupacional e do dinamismo de São Caetano. Onze anos depois de controle escalonado da Prefeitura da cidade socioeconomicamente mais ajustada do Grande ABC, o tucano revela um plano ao que parece mirabolante. É aí que reside o perigo. 

Não acredito que a iniciativa alcance os objetivos traçados, embora torça muito para que entre na história da gestão pública regional como case extraordinário. Reaproveitamento de áreas industriais degradadas não deram em nada ou quase nada na região. Viraram condomínios residenciais sem conexão com o mundo produtivo. Retiraram-se máquinas, equipamentos e salários suados. Instalaram-se apartamentos e, em alguns casos, residências de classe média e populares. 

Celso Daniel tentou algo mais amplo que o Novo Bairro Fundação, casos do Eixo Tamanduatehy e do filhote urbanístico chamado Cidade Pirelli. O petista não viveu para conferir o fracasso. 

Há em comum entre o Eixo Tamanduatehy e o proposto Novo Bairro Fundação uma Avenida do Estado sistemicamente decadente. Ainda outro dia a Vejinha fez uma matéria de capa que corrobora com essa assertiva, expressa aqui muito antes. 

Trambolho econômico 

A Avenida do Estado é uma serpentina de vida econômica quase desprezível. Perdeu-se na caminhada de incúria e despreparo de administradores públicos em combinação com a especulação imobiliária. 

A má vizinhança da Avenida do Estado é um dos pontos a avaliar quando se pretende mudar o Bairro Fundação do vinagre para o vinho. Não se divulgaram os autores do projeto do Bairro Fundação. Talvez seja o pessoal da casa, mesmo, e da USCS (Universidade Municipal de São Caetano). 

Celso Daniel foi muito mais envolvente e convincente. Trouxe profissionais de linhagem internacional. Muita areia para o caminhão de provincianismo de Santo André. 

Ainda bem que a área do Bairro Fundação não comporta nem a cabeceia de um aeroporto. Se comportasse, temeria pela esculhambação que geraria. A USCS tem um grupo de acadêmicos que pretende enfiar um aeroporto no que resta de área ambiental em São Bernardo. Essa turma é da pesada em matéria de romantismo. Ainda bem que o Clube dos Prefeitos desmarcou um seminário mal-ajambrado que trataria do assunto. Ficou para o ano que vem. Duvido que se confirme.

Curva de rio 

Múltiplas razões pesam na equação do fracasso projetado para o Novo Bairro Fundação. A maior e mais consolidada, além da Avenida do Estado já mencionada, é a imagem institucional do Grande ABC, que deriva da configuração econômica, social e de infraestrutura física. Tudo em forma de rescaldo da percepção geral de que viramos uma curva de rio a investimentos. A concorrência mais próxima e também mais distante é mais interessante. Não tem o passivo à competitividade.  

O prefeito José Auricchio pode estar imbuído das melhores intenções, mas soa a oportunismo o lançamento do projeto do Novo Bairro Fundação. O mau gosto do mote encontrado (Re Fundação) revela também que, ao contrário dos vizinhos Paulinho Serra e Orlando Morando, o marketing de José Auricchio é uma peça fora dos tempos. Mas isso não é relevante. 

Vou explicar resumidamente mais adiante porque não acredito no sucesso do Novo Bairro Fundação nos termos colocados. De qualquer forma, a iniciativa deva deslocar aquele espaço marginal de São Caetano a patamar menos vexatório.  

Fonte de inspiração? 

Antes, quero lembrar que é mais que provável que José Auricchio e assessores tenham sido convencidos ou alertados ou sensibilizados por uma breve análise que publiquei nesta revista digital em março deste ano sob o título “Auricchio precisa preparar o futuro para São Caetano”. Reproduzo trechos iniciais para avivar a memória dos leitores: 

 São Caetano precisa contar com um futuro menos traumático, porque o presente sinaliza complicações. Um futuro sem sobressaltos causados pela ameaça velada de a General Motors abandonar o campo de jogo. Um futuro sem depender tanto do dinheiro de impostos do terminal de combustíveis. Nem do que teria sobrado de recursos fiscais da Casas Bahia com novos controladores. São Caetano não tem rumo nem prumo econômico confortável quando se olha adiante, num futuro de médio e longo prazo. Está certo que tem presente, um presente que vem do passado, mas não há presente que o futuro não modifique. Para o bem ou para o mal. No caso de São Caetano o passado parece mais frondoso que o futuro. Não o passado recente, claro. No caso, “recente” são as últimas décadas. O prefeito José Auricchio, em terceiro mandado, com possibilidades de um quarto, o que seria inédito no Grande ABC, demora demais a reagir. Mas precisa reagir. A Administração que lidera é discreta demais e ambiciosa de menos. 

Entusiasmo versus probabilidade 

De volta, coloco em dúvida as transformações que se acenam para o Novo Bairro Fundação, cuja influência de fato se irradiaria por todo o Município. Há aspectos econômicos restritivos. Li o suficiente sobre o projeto para entender que existe entusiasmo muito acima das potencialidades de execução.  Até parece que o prefeito vai jogar esse jogo sozinho, sem contrapontos. O mundo estaria a seus pés. 

Reportagem do Diário 

Reproduzo alguns trechos da matéria publicada na edição de ontem do Diário do Grande ABC para que os leitores possam entender melhor o que estou pretendo dizer: 

 O tradicional bairro Fundação, em São Caetano, estará de cara nova em até seis anos, após amplo processo de revitalização que inclui, dentre os quatro pilares da ação, estratégias para o combate às enchentes. Para os moradores, o anúncio do programa, denominado Re-Fundação, feito neste sábado (7) pelo prefeito José Auricchio Júnior (PSDB), no CER Oscar Garberlotto, é a realização de um sonho. Cerca de 600 pessoas acompanharam o evento. A ação pretende transformar o bairro que deu início à história da cidade e custará, em sua totalidade, R$ 150 milhões, provenientes do Finisa (Financiamento à Infraestrutura e ao Saneamento) e CAF (Corporação Andina de Fomento, banco de investimento da América Latina). Entre as medidas estão ainda projetos de sustentabilidade e meio ambiente, operações urbanas para o desenvolvimento econômico – como a recuperação do complexo Matarazzo, avanços gerais, que incluem reforma e ampliação de escolas e unidades de saúde, assim como destinação para o Edifício Di Thiene, que será votada por meio de consulta pública eletrônica. Dentre as possibilidades estarão um novo campus da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), a transferência do Atende Fácil, prédios administrativos da Prefeitura ou a construção de uma escola de Ensino Fundamental com o conceito de escola parque. O prefeito garantiu à população que encerrará seu mandato, em dezembro de 2020, com pilares do projeto entregues e o restante encaminhado para que não haja como, posteriormente, outros políticos deixarem de lado o programa. “Sem medo de errar, é o maior conjunto de intervenções urbanas da história da cidade em um único bairro. O plano diretor de reformulação está, tecnicamente, definido. Alguns em fase de projeto, outros já em execução, mas o fundamental que garantimos é que cada um deles já tem financiamento assegurado e, no que depender de mim, vai acontecer”, disse Auricchio.

Deslocado no tempo  

Fosse lançado há alguns anos, preferencialmente no período em que o Brasil de Lula da Silva nadava de braçadas nas águas de exportações de commodities, e a gastança generalizada dos entes públicos fez de projetos obras completas, mas também muitas inconclusas, o novo Bairro Fundação sairia do papel com mais facilidade. Sobretudo, como se anuncia, com dinheiros externos. 

Agora que a vaca da economia pretende sair do brejo em que o PT a enfiou, tudo é diferente. Não há cenário róseo pela frente. O PIB Nacional crescerá modestamente nos próximos anos caso prevaleçam critérios de responsabilidade fiscal que o PT não teve e o País sob o controle de Paulo Guedes não abre mão. 

Então ficamos assim: a macroeconomia não colabora. E o que chamaria de microeconomia, que seriam fatores internos, regionais, auxiliaria muito menos ainda. São Caetano é um dos municípios que mais sofrem as consequências do esvaziamento produtivo. Está em último lugar no ranking de crescimento do PIB neste século na Região Metropolitana de São Paulo. Come o pão que o diabo amassou. 

São Caetano já chegou ao extremo da arrecadação própria, exaurindo o bolso dos moradores. A qualidade de vida acumulada ao longo de décadas de fartura e de congelamento populacional corre riscos de perder o viço. Há descasamento entre custos da máquina pública em alta e criação de riqueza em baixa. São Caetano vai de mal a pior no ranking nacional de investimentos e liquidez. Está apertadíssima como municipalidade a serviço da sociedade. 

Voltando a março 

Dou um tempo ao hoje e volto ao artigo que escrevi em março deste ano, provavelmente, repito, inspirador do projeto do novo Bairro Fundação. Acompanhem:

 (...). Se algum ilustrador de jornal decidisse traduzir em imagem o que seria o prefeito José Auricchio Júnior à frente de São Caetano, sugeriria que reproduzisse a cabine de um avião de médio porte, com tecnologia embarcada exuberante, e um piloto em posição de mero espectador do espaço aéreo. Claro que não estou sugerindo que Auricchio não faça nada para garantir a tranquilidade dos passageiros e tripulantes. Apenas faz o trivial. Está no piloto automático. O desempenho da economia de São Caetano neste século é um escândalo complementar à última década dos anos 1990, comprometida com esmero pelo governo Fernando Henrique Cardoso e o extermínio das pequenas indústrias impactas com importações de corporações e produtos. As quase duas décadas já apuradas deste século não condizem com a imagem de cidade de Primeiro Mundo. Quem perde tanta participação no PIB Geral do Grande ABC, no PIB Geral da Grande São Paulo e também no PIB Geral do País não pode se sentir confortável. A modernidade industrial bateu asas, a tecnologia de serviços não é lá essas coisas, o dinamismo comercial segue encruado – eis algumas conclusões óbvias. Não seria um shopping center que mudaria a situação. Aliás, só agravou pelo processo de canibalismo. 

Arranjo de Serviços Médicos 

De volta, novamente, sei que não soa politicamente correto apresentar contrapontos em situações de euforia, como a que se deduz do anúncio do projeto do Novo Bairro Fundação. Mas o interesse público assim o impõe.  

Há nas praças da região os batedores de carteira moral e ética. Eles se apresentam raivosos sempre que alguém, não necessariamente em oposição a mudanças, decide expor conhecimentos agregados que erguem barreiras de ceticismo ou desconfiança, de exemplos que parecem perdidos no tempo. Contra estúpidos de plantão nas redes sociais o melhor a fazer é identifica-los como merecem, ou seja, batedores de carteira moral e ética.  

O prefeito José Auricchio provavelmente não apreciará essas linhas, mas ele sabe, mais que ninguém, que o futuro de São Caetano, já mencionado neste espaço, provavelmente está na chamada Melhor Idade. 

Quero dizer como isso que São Caetano pode ser uma São Pedro, pequeno Município do Interior de São Paulo, reduto de quem tem menos dias a viver do que dias já vividos. Mas, com uma diferença essencial: ao invés de endereço de descanso à espera do lobo mau, São Caetano pode se converter em amplo reduto da velhice no espectro mais amplo da especialidade médica. Aliás, já conta com empreendimentos voltados para a elite dos idosos da Grande São Paulo. O Novo Bairro Fundação poderia agregar Arranjo de Serviços Médicos como alternativa a um público de classe média.   

Mais análise de março 

Para completar, voltemos a março deste ano, com mais um trecho da análise sobre a importância de José Auricchio acordar para o desenvolvimento econômico: 

 Está evidenciado que São Caetano derrapa ao custo de um setor industrial fragilizado, independentemente de contar ou não com a General Motors do Brasil, e de um setor de serviços sem valor agregado. (...). Cobrei inclusive do prefeito José Auricchio Júnior a convocação dos “sabichões” da USCS (Universidade Municipal de São Caetano), sobretudo o departamento que recentemente lançou série de estudos. Estava me referindo ao chamado Conjuscs, essa nomenclatura horrorosa que agrega dezenas de acadêmicos da Universidade de São Caetano. Ali se fazem muitos estudos interessantes, outros nem tanto assim e também bobagens. (...). São Caetano precisa superar a concorrência de municípios à Leste e à Oeste da Grande São Paulo, cujas condições de infraestrutura material e intelectual mobilizadora de ganhos de produtividade são tremendamente superiores. Como, aliás, prova o comportamento do PIB de Serviços dos Municípios Brasileiros. O que o prefeito José Auricchio Júnior precisa fazer antes de encerrar o terceiro mandato é reunir gente com pragmatismo, experiência e senso de urgência para projetar uma São Caetano factível no futuro próximo. A ausência de uma cara econômica mais confiável está evidenciada. A General Motors pode escafeder-se a qualquer momento neste mundo automotivo em que veículos elétricos e digitais já ensaiam revolução com perdas e danos imensuráveis em todos os quadrantes do mundo.  (...). São Caetano provavelmente jamais deixará de ser um endereço internamente agradável de viver, uma espécie de oásis no inferno metropolitano, mas seguirá roteiro em que mais e mais se consolidará como cidade-dormitório que, ao longo dos tempos, sofrerá perda da própria identidade. Afinal, só quem vive no ambiente municipal em gerações contínuas sabe distinguir o local do entorno, no caso bastante hostil em qualidade de vida. (...). Quando me refiro à ambiente “internamente agradável”, quero dizer que a vida de quem mora em São Caetano é melhor quando se está em São Caetano, mesmo com o inferno de mobilidade urbana. O restante metropolitano é bastante agressivo em tudo que se coloque como referencial de civilidade e conforto. É claro que excluo dessa conclusão mais que histórica os moradores do Bairro Fundação, parte esquecida ao longo de administrações públicas e sobre a qual as enchentes fazem estragos periódicos. 

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