Esportes

Afinal, Nairo sai ou não sai? O
que vai acontecer em seguida?

  DANIEL LIMA - 04/12/2019

As informações são controversas. É preciso tomar cuidado, mas tudo indica que Nairo Ferreira decidiu mesmo ficar sem a outra metade do São Caetano, depois de recentemente abrir mão da primeira metade. O dirigente que ocupa a presidência do clube nos últimos 30 anos (desde a fundação, exatamente em 4 de dezembro de 1989) teria propagado ontem à tarde que se está afastando do São Caetano Futebol Limitada, depois de deixar a Associação Desportiva São Caetano.

Sem um e sem outro, Nairo Ferreira ficará apenas com a responsabilidade da dívida de R$ 30 milhões já apurada. Apenas é força de expressão. Um sabugo desse tamanho significa que não haveria interessados nas cotas do clube-empresa criado em 2003 e que até 2027 tem contrato de representação do futebol da cidade.

Nairo Ferreira conseguiu o milagre de receber doações milionárias do empresário Saul Klein e, seguidamente, deixar a equipe ser rebaixada. Trata-se de case sem paralelo no futebol brasileiro.

Entrevista de subjetividades

Numa entrevista em forma de reportagem publicada na edição de hoje do Diário do Grande ABC, Nairo Ferreira decidiu sair da toca do silêncio que a situação exige para quem não quer passar por constrangimentos. O dirigente acenou com a possibilidade de deixar a segunda metade do São Caetano. Uma metade administrativamente podre.

Mas esse não foi o ponto principal das declarações. Soou surpreendente que o dirigente tenha feito elogios a Saul Klein, com o qual disse ter sempre relações construtivas. E também acenou com a possibilidade de Saul Klein seguir no São Caetano, mesmo com as negociações que o empresário já engatilhou para comandar a Ferroviária de Araraquara.

Esses dois pontos da entrevista de Nairo Ferreira recomendam interpretação cautelosa.

O primeiro ponto, que versa sobre a possibilidade de Saul Klein retornar ao São Caetano, não é despropositado. Mas a configuração participativa seria outra. Como novo investidor no futebol brasileiro, Saul Klein pode sim reservar um naco de recursos financeiros ao São Caetano. Como estaria fazendo, segundo informações, em outras equipes, além da própria Ferroviária.

Essa iniciativa de Saul Klein não necessariamente significaria o retorno do São Caetano aos tempos de dinheiro farto, mesmo que a perspectiva seja de uma administração mais responsável.

Melhor sem do que com

Nairo Ferreira passaria o bastão de ações executivas a um dos colaboradores atuais do São Caetano, de confiança de dirigentes e conselheiros do clube associativo. E, por conta da renúncia ao cargo, não interferiria na condução do futebol. Ficaria com a bucha da dívida monstruosa. Então, que vantagem Maria levaria? Simples: o São Caetano com Nairo é uma nau sem perspectiva, enquanto o São Caetano sem Nairo pode resistir à insolvência financeira.

O segundo ponto da entrevista de Nairo Ferreira, que trata do bom relacionamento com Saul Klein, tem a forma de um gatilho preparado para pegar o empresário na curva da subjetividade e de eventuais entreveros judiciais. Nairo Ferreira pretende vincular o desastre econômico do São Caetano à figura do mecenas, retirando da reta os desvarios que cometeu ao longo dos anos. Quer, portanto, pelo menos, dividir o ônus.

Comando geral

Nada disso resistiria à realidade dos fatos. Saul Klein manteve-se distante das decisões do São Caetano nos últimos cinco anos, abatido por enfermidade imobilizadora. Nairo Ferreira quer tornar um Saul Klein depressivo em agente mobilizador de iniciativas patéticas. O dia a dia do São Caetano, com Saul Klein próximo ou distante, sempre foi comandado por Nairo Ferreira. A empresa São Caetano Futebol Limitada jamais contou com participação societária de Saul Klein.

Os novos capítulos desse enredo que mistura drama e comédia, com pinceladas de suspense, serão conhecidos nos próximos dias.

Busca da vaga roubada

Entre os desdobramentos de suposta retirada geral de Nairo Ferreira da vida social e esportiva do São Caetano está a probabilidade de conselheiros e torcedores da Associação Desportiva São Caetano reacenderem a chama da indignação contra a decisão da Federação Paulista de Futebol no caso da vaga da vergonha.

Há possibilidades de, agora com o comando duplo da agremiação, os novos dirigentes e conselheiros irem à Justiça Esportiva para barrar do baile o Água Santa de Diadema, que herdou pelas portas dos fundos a vaga deixada pelo Red Bull, que se juntou ao Bragantino.

O Parecer Jurídico do especialista André Ramos Tavares é contundente quanto à legitimidade de o São Caetano seguir na Série A1 do Campeonato Paulista. Tudo com base no próprio regulamento da competição. Um regulamento que a FPF rasgou deliberadamente, contando com assessores jurídicos vinculados à direção do Red Bull e do Água Santa.

No caso do Red Bull, o benefício irregularmente concedido foi o rebaixamento à Série A2 da Primeira Divisão, enquanto o regulamento determina que a queda fosse maior, em direção à Segunda Divisão, que, na prática, é a Quarta Divisão do Estado.

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