Administração Pública

Paulinho Serra diz que gastança
pública é planejamento. Pode?

  DANIEL LIMA - 29/10/2019

É inacreditável a reação de Paulinho Serra à análise que fiz na semana passada sobre os gastos salariais dos prefeitos do Grande ABC com o funcionalismo público nos dois primeiros anos dos mandatos atuais. Ele fez uso teatral de um trabalho sério e de interesse público. Fez de zombaria, quando não de caradurismo marquetológico e de estupidez avaliativa uma típica resposta de quem não tem argumento.  

Paulinho Serra deveria ter reagido conforme a sugestão que lhe fiz: com transparência. Com prestação de contas à sociedade dilacerada no conjunto pela prolongada crise econômica do País – e historicamente pelo esvaziamento econômico de Santo André.

Tudo isso e muito mais colocam o prefeito de Santo André na zona cinzenta e indefinida de que estaria no cargo para tornar-se personagem do anedotário popular ou de escárnio administrativo. Talvez a melhor conclusão seja a associação entre as duas alternativas.

Por ser a memória qualificada geral cada vez mais curta, porque intensivamente oprimida pelo excesso de informações, é preciso voltar à edição do dia 21 último para que os leitores compreendam a abertura dessa análise não como peça de distribuição de catiripapos interpretativos vazia, mas extensão crítica de fatos que caracterizam a gestão do tucano em Santo André.

Voltando às origens

Escrevi na semana passada (“Paulinho Serra é o campeão regional em gastança salarial”) que o tucano completou os dois primeiros anos de gestão ostentando um título regional nada honroso. “Enquanto os servidores municipais de Santo André acumularam nas duas temporadas crescimento salarial nominal (sem considerar a inflação) de 22,75%, a média salarial dos trabalhadores da indústria de transformação não passou de 1,72%. A inflação do período não chegou a dois dígitos.

Fiz mais que estabelecer paralelo entre atividades diferentes em tudo, inclusive na geração de riqueza e de mobilidade social.

Revelei também que o aumento da média salarial dos servidores municipais de Santo André no período de 24 meses (2017-2018) é bastante superior ao do segundo colocado no ranking regional, no caso São Caetano, que elevou os vencimentos em 16,70%. Em São Bernardo o crescimento também nominal foi de 4,98; em Diadema de 8,65%; em Rio Grande da Serra de 2,70%; em Mauá de 12,04%; e em Ribeirão Pires de 16,70%.

Fiz outras avaliações. Tudo fundamentado. Tudo resultado de dados oficiais que transformei em análise. Nenhuma embromação. Nenhuma esculhanbação. Nenhum desrespeito à confiança dos leitores.

Resposta nas redes sociais

Pois bem: sabem a resposta do titular do Paço Municipal nas redes sociais a uma moradora de Santo André que se manifestou sobre o assunto, em resposta a uma postagem manipuladora dos fatos do prefeito da matéria publicada por CapitaSocial? Inacreditável. Insuperável. Desqualificável. Aterrorizante. 

 Sinto muito dizer que você está bem desinformada. Plano de cargos e salários em andamento na Câmara para várias categorias, perdas salariais repostas em janeiro e abril e equalização de dezenas de categorias sendo feitas – respondeu Paulinho Serra.

Posto isto, vamos às considerações e às justificativas do prefeito tucano. A questão central é a seguinte: se o planejamento orquestrado pela administração de Santo André, em andamento, já fez os estragos detalhados e insofismáveis que apontamos naquela matéria, imaginem os leitores o que pode resultar de novos desequilíbrios de tratamento entre o que o mercado reserva aos trabalhadores da livre iniciativa e o que o gestor Paulinho Serra contempla a uma supostamente elite do funcionalismo público.

Quando tudo estiver completo, teremos uma aberração ainda maior de descompasso entre o mundo real da economia e suas nuances, e a irresponsabilidade no trato do dinheiro público.

Transparência, prefeito

Só existe uma maneira de o prefeito Paulinho Serra sair da enrascada em que se meteu: que torne transparente, elucidativa, compreensiva e tudo o mais a operação chamada de planejamento de cargos e salários que colocou Santo André no topo de gastança salarial dos servidores públicos nos dois primeiros anos de mandato.

Sobretudo porque, como se confere nas redes sociais, a insatisfação de grande parte dos servidores é incômoda. Denuncia-se uma política de privilégios salariais. Ou seja: o prefeito teria elevado a média salarial dos servidores ativos às custas do conjunto da sociedade e também em desacordo com práticas destinadas a servidores menos qualificados.  

Somente a transparência da administração de Paulinho Serra derrubaria a ramificação da seguinte dupla bomba-relógio que teria sido incrementada nos primeiros 24 meses: afronta à lógica salarial dos trabalhadores em geral do Município, que comem o pão que o diabo amassou nas áreas privadas, e a discriminação de servidores de salários menos robustos.

Paulinho Serra é acusado sistematicamente de voltar os olhos somente aos funcionários de escalões superiores. Seria a elevação do salário da ombudsman municipal uma prova disso? Oswana Fameli, que ocupa o cargo de algo que nem cheira nem fede para efeitos de transformações administrativas, terá o salário elevado à categoria dos secretários.

Em segundo lugar

Também não se pode esquecer de outra abordagem do texto que produzi na semana passada: o salário médio dos servidores em Santo André, de R$ 5.083,04 em dezembro do ano passado, só fica atrás do de Diadema, berço da esquerda municipalista no Grande ABC com a chegada de Gilson Menezes à Prefeitura no começo dos anos 1980.

O confronto entre o assalariamento dos servidores públicos e o comportamento do PIB (Produto Interno Bruto) ao longo deste século é predominantemente estatista. Santo André é um dos endereços que menos avança na construção de riqueza privada. Já escrevi também fartamente sobre isso.

A questão salarial dos servidores recrudesce comportamento público do prefeito de Santo André que chega às raias do inacreditável. O tucano é frequente, sistemático, teimoso, arrogante e tudo o mais interlocutor no mundo digital. O enfrentamento típico de botequim é a marca registrada de quem não tolera o contraditório mais civilizado.

Por conta do sigilo da fonte, jamais reproduzi neste espaço e também no mundo dos aplicativos de smartphone algumas preciosidades cabeludas de Paulinho Serra. A troca de mensagens no Whatsapp, único aplicativo de que faço uso, e uso intensivo, é um ramal da prática jornalística e, portanto, impermeável a tratamento individualizado. Sorte do prefeito.

Mas as intervenções de Paulinho Serra nas redes abertas são de lascar. Falta ao chefe do Executivo de Santo André postura de chefe de Município, que é algo muito mais abrangente.

Paulinho Serra age com a certeza de quem tem as costas tão largas que não se abalaria diante de nada. Provavelmente usufrui da prerrogativa de tanto abuso no trato com contribuintes, também eleitores, porque não faria cerimônia alguma em dobrar-se a grupos que o enquadrariam nos rigores do mandachuvismo.

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