Economia

Clube dos Prefeitos leva a sério
anedota de aeroporto da USCS

  DANIEL LIMA - 19/09/2019

Uma médica pode mudar o diagnóstico de um paciente se no passado o atendeu como paciente qualquer e no presente está morrendo de amores por ele? 

Um dirigente esportivo pode reclamar duramente de suposto erro de arbitragem e, tempos depois, beneficiado o seu time em lance semelhante, dá interpretação diferente, agora festejando o resultado final? 

Poderia dar mil exemplos de contradições que a vida prega em quem enxerga hoje o que quer enxergar e enxerga amanhã também o que quer enxergar, mesmo que entre um fato e outro exista algo que brutalizaria a coerência.

O secretário-geral do Clube dos Prefeitos do Grande ABC (conhecido formalmente como Consórcio Intermunicipal do Grande ABC) vive situação análoga. 

Edgard Brandão dá corda a uma besteiragem (a construção de um aeroporto) que ele mesmo classificou de praticamente impossível no passado, pouco tempo depois de atuar como Superintendente da Infraero, instituição que atua como de xerife do setor no País. 

Mudando de ideia? 

Pergunto novamente: pode alguém mudar de ideia ou admitir que mudou de ideia ou esticar um passe de um jogo esquisito de dar corda a uma ideia que não tem sustentação alguma, além de ser um conto da Carochinha porque ensejaria no embalo dos lunáticos um adicional de crescimento médio do PIB do Grande ABC de 1,70% a cada ano?

Quem acha que estou exagerando? Faço questão de reproduzir os pontos principais de uma reportagem publicada pelo jornal Repórter Diário em 17 de abril de 2011. Ou seja: em contraponto ao que o Diário do Grande ABC publica na edição de hoje (“Consórcio e USCS vão realizar seminário sobre setor aeronáutico”), apresento um texto jornalístico cujo resultado é que Edgard Brandão ficará, no mínimo, em situação desconfortável. 

Afinal, como chefe do Clube dos Prefeitos (os prefeitos só participam mesmo na hora dos flagrantes fotográficos, porque o municipalismo predomina na agenda diária), ele tem responsabilidade total no encaminhamento de pautas.  

Vamos aos principais trechos da matéria de 2011 do Repórter Diário sob o título “Aeroporto no ABC não deve ser construído, avalia ex-superintendente da Infraero”: 

 A construção de um aeroporto regional no ABC esbarra em quatro empecilhos que, dificilmente, poderão ser superados. A falta de área e de integração do transporte coletivo, além da questão ambiental e do congestionamento aéreo – devido à proximidade de Congonhas, Cumbica e Viracopos – deixam o sonho cada vez mais longe de ganhar a realidade. Depois da proposta da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, que na posse da nova direção, por meio do presidente Walter Moura, elencou o item no tripé prioritário, o Repórter Diário repercutiu o assunto com o ex-superintendente da regional sudeste da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária) Edgar Brandão Júnior que há décadas reside na região.  O principal obstáculo, na avaliação dele, é a área para a construção do aeroporto que demandaria um espaço do tamanho da cidade de São Caetano (mais de 10Km quadrados). “Tem que ser um local maior do que Congonhas (8Km quadrados), pois seria de médio porte para atender a demanda. Deve ter uns 4Km quadrados somando pista, parte de segurança da operação e área de escape. Devem ter duas pistas ou uma, mas com área para a segunda num futuro próximo. Neste sentido, o espaçamento entre elas deve ser de 3 Km quadrados. Multiplicando isso, chegamos a 12Km quadrados”, explica Edgar, ressaltando que os antigos aeroportos são menores em área porque a realidade era diferente.

“Se você me perguntar se é inviável, eu digo que não. Porém não deveria (ser construído)”, diz. 

Mais aeroporto regional

 O especialista destaca que, mesmo se o terreno fosse angariado, a iniciativa travaria uma queda de braço com o licenciamento ambiental, a exemplo do que ocorreu com a construção do trecho sul do rodoanel. Os outros impasses também pesam contra. O ABC não possui hoje integração com o transporte coletivo paulistano. Neste prisma, o escoamento dos passageiros não encontraria logística favorável para os seus destinos. Além disso, poderia resultar no congestionamento aéreo das rotas, devido à proximidade dos aeroportos de Congonhas, Cumbica e Viracopos. (...) . Neste momento, a menina dos olhos que pode prolongar a sobrevida aeroportuária paulista é Viracopos. “Hoje ocupa, 8,9Km e nós deixamos desapropriação de mais 12Km e uma reserva de 9Km. Ou seja, praticamente duas São Caetano”, compara Edgar Brandão.

Mais aeroporto regional

 Segundo Edgar Brandão, na década de 70, o ABC já havia protagonizado a discussão. Na oportunidade, uma área de Campo Grande (na região de Paranapiacaba) estava entre as concorrentes para abrigar o aeroporto de Cumbica. A empreitada, no entanto, não foi exitosa. Edgar Brandão afirma que o ABC pode se beneficiar economicamente do complexo aeroportuário, sem ter um aeroporto. A sugestão do especialista visa a instalação de um Polo Aeronáutico. Como uma das prioridades da Agência de Desenvolvimento do ABC e dos prefeitos é a instalação de um parque tecnológico, o mesmo, segundo Brandão, deverá estar voltado aos produtos paralelos da aviação civil. “Nenhum empresário da região me procurou (quando estava na Infraero) para tratar de transporte de carga. É aí que a região perde muito. Nós estamos muito próximos de Congonhas e Cumbica para escoamento de carga. É possível ter na região indústrias – até do Polo Tecnológico – que trabalhem com materiais que dependem do transporte aéreo”, diz. “A Agência pode incentivar junto com os prefeitos a instalação de indústrias como se fossem ‘dentro do aeroporto’, que são as áreas congregadas ou as chamadas retroáreas”, sustenta. Além disso, Edgar cita que o “complexo aeroportuário” necessita também de uma boa rede hoteleira, atualmente “no limite” da capacidade em São Paulo. “Ao invés de pensar no produto final, vamos pensar nos produtos paralelos”, sugere tendo em vista, por exemplo, a Copa do Mundo de 2014 e a Olimpíada de 2016 que serão realizadas no Brasil.

O que fazer

A não ser que tenha mudado inteiramente de ideia, o chefe do cotidiano do Clube dos Prefeitos, nomeado por Paulinho Serra, prefeito dos prefeitos da vez, Edgard Brandão tem o dever ético de contrapor-se ao oba-oba quase irresponsável da proposta que será levada ao tal evento que a USCS está preparando --tudo para fazer decolar o sonho impossível de um aeroporto que mereça a denominação no Grande ABC. 

Convém lembrar que quatro dias antes do Repórter Diário entrevistar Edgard Brandão, registrei nesta revista digital um texto ácido que retratava já à época a cortina de fumaça de triunfalismo de mandachuvas e mandachuvinhas de região sempre na busca por subterfúgios para fugir da raia de medidas concretas ao Desenvolvimento Econômico. 

Leia alguns parágrafos da análise que fiz em 13 de abril de 2011, entre muitas sobre um aeroporto no Grande ABC:

 O que se pode esperar da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC se ao assumir o cargo de cunho predominantemente político de presidente o gestor imobiliário Valter Moura declara diante de jornalistas passivos que pretende ver construído um aeroporto no Grande ABC? Há alguns anos foi o então prefeito Leonel Damo, de Mauá, que proferiu tamanha barbaridade. Quando se imaginava que a doidice ficaria no anedotário regional como chute na canela do calendário eleitoral, eis que Valter Moura aparece em cena com repeteco ordinário entre outras razões porque copia a bobagem do original sem ao menos lhe dar crédito. Resta saber, seguindo o conceito extraordinariamente desafiador do filme Cópia Fiel, se Valter Moura copiou o original ou o original é dele próprio. Só vai entender a charada quem assistir ao filme que tem Juliette Binoche como protagonista. Portanto, e voltando à realidade, estamos de mal a pior em institucionalidade. 

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 (...). Qualquer iniciativa bombástica que venha de Valter Moura será natural, porque há sinais de esclerose em seus pronunciamentos. Não esclerose biológica, que especialista não sou para detectar assim tão facilmente, inclusive em mim mesmo. Se pudesse, certamente estaria me interditando, porque devo também estar no mundo da lua por acreditar que seja verdade que alguém que ocupe cargo supostamente relevante no espectro econômico do Grande ABC se lance a tamanha idiotice. No caso de Valter Moura refiro-me à esclerose intelectual. (...). Um aeroporto no Grande ABC equivale no campo esportivo a dizer que Pelé voltaria aos campos de futebol, vestiria a camisa do Corinthians e marcaria novos mil gols. Ou que Júpiter está prontíssimo para um loteamento da Cyrela, já que o mercado imobiliário segue relativamente bombando e não faltam especuladores na praça.

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 (...). Não há condição alguma em qualquer um dos vetores para tanto. A Lei de Proteção dos Mananciais, a Serra do Mar, a logística, a rentabilidade de investidores, a topografia, por qualquer caminho (terra, ar e mar) que se queira adentrar, o que encontraremos será uma série de obstáculos que inviabilizam o empreendimento. Mais que inviabilizam, o tornam motivo de chacotas. Em qualquer local razoavelmente sério, a posse de um dirigente seguida de tamanha estultice significaria demissão automática por suspeita de incapacidade cognitiva. (...) Nem Chico Anísio nos melhores momentos de humorismo de mil faces seria capaz de projetar quadro tão hilário. Provavelmente o comediante que anda às turras com a saúde criaria personagem sob medida para Valter Moura. A Lua seria o ponto de referência, é lógico. Não faltaria, provavelmente, no teatro de operações, uma plataforma de embarque para aquele planeta tão distante de todos, mas pertíssimo do dirigente da Agência.

Há uma cordilheira de problemas econômicos com derivações sociais no Grande ABC e o que temos no mercado de propostas é a nova decolagem de uma besteira típica de Província, de Gata Borralheira. Temos a junção do academicismo ilusionista e da política partidária disfarçada de planejamento regional. Estamos nos especializando cada vez mais na esculhambação envernizada. 

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