Política

Morando versus Marinho: o
passado requentado influi

  DANIEL LIMA - 30/08/2019

O prefeito Orlando Morando requentou, metabolizou e explorou o passado para distanciar-se do ex-prefeito Luiz Marinho na disputa pela Prefeitura de São Bernardo no ano que vem. Essa que é a Eleição do Século no Grande ABC começou faz tempo e vai pegar fogo na medida em que o calendário eleitoral estreitar-se em relação a outubro do ano que vem. 

Agora Morando tem 20 pontos percentuais de vantagem. O tucano está trabalhando melhor o marketing. O petista parece encapsulado. Mas muita água vai rolar sob essa ponte de interesses múltiplos. 

Não adianta procurar pesquisa de opinião pública como fonte que identifique os 20 pontos de vantagem nos votos válidos (60% a 40%) porque nada será encontrado. O resultado é coisa minha mesmo, de percepção eleitoral. Nada científico, portanto. É apenas uma métrica que procura simplificar uma situação de momento e que poderia valer por mil palavras. 

Já no segundo turno

Orlando Morando é favorito, mas há um Alex Manente, deputado federal, como linha auxiliar de Luiz Marinho. Juntos eles levam a disputa para o segundo turno. E segundo turno é uma espécie de porta da esperança para quem chegou em segundo lugar na fase classificatória do primeiro turno. Na contagem de votos válidos imaginários já coloco o segundo turno no resultado final.

O duplo requentamento que Orlando Morando e seus marqueteiros prepararam durante agosto envolve os investimentos da Volkswagen em São Bernardo e o piscinão do Paço Municipal, inaugurado, aliás, como parte dos festejos de aniversário da cidade. 

O que os leitores do Diário do Grande ABC e de outros veículos de comunicação impressos e digitais publicaram hoje sobre a presença do governador João Doria e do prefeito Orlando Morando, entre outros tucanos graduados, não passa mesmo de requentamento. 

Decisões plurianuais 

Os investimentos da Volkswagen em São Bernardo, atribuídos à dupla inseparável Doria-Morando, não estão configurados como obra de diplomacia econômica. São decisões daquela multinacional anunciadas já faz tempo, frutos de planejamento plurianual. O que Doria e Morando fizeram mesmo foi uma aproximação importante na Alemanha, mas nada que mudaria a ordem das coisas. 

O Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo tem tudo a ver com os investimentos. Até porque precisa salvar a lavoura da devastação. A Ford emitiu sinais, com a debandada de São Bernardo, que, além de competitividade, faltou por parte das autoridades públicas um empenho maior em harmonizar as relações internas de períodos bravios do sindicalismo. 

Para quem tem dúvidas sobre a origem do requentado anúncio da Volkswagen no Brasil, repasso vários trechos da matéria publicada pelo jornal Valor Econômico em maio deste ano, assinada pela jornalista Marli Olmos, especialista na área automotiva, sob o título “Realidade virtual e inteligência artificial transformam a Volks”. Selecionei os trechos que dizem diretamente aos investimentos da montadora em São Bernardo e no País:

Leiam Valor Econômico 

 O carro praticamente não existe. Não tem painel, nem teto, sequer um motor. É só uma plataforma com bancos. Mas com a ajuda de óculos de realidade virtual e sensores de movimento, o “motorista” pode dar asas à imaginação e colocar no interior do veículo real os equipamentos virtuais que desejar, nas cores favoritas, e trocá-los se não gostar. O que pode parecer um jogo eletrônico moderno é, na verdade, um trabalho diário que ocupa a equipe do laboratório de protótipos virtuais da Volkswagen em São Bernardo do Campo. A realidade virtual tem ajudado a indústria automobilística a ganhar tempo no desenvolvimento de produtos. Permite que equipes de engenharia e de manufatura trabalhem ao mesmo tempo, o que agiliza na tomada de decisões e redução de custos.

Leiam Valor Econômico  

 (...) O avanço tecnológico coincide com uma fase em que a direção mundial da Volks decidiu dar mais autonomia a comandos regionais fortes, como a América do Sul, e transferir a eles decisões antes tomadas na Alemanha. Quem ganhou foi a fábrica da Volks de São Bernardo, a mais antiga da montadora no país e primeira do grupo construída fora da Alemanha. Em novembro completará 60 anos. Essa unidade recebeu R$ 2,6 bilhões de investimentos para renovar produtos e ter equipamentos e software compatíveis com novos conceitos. Mas isso só aconteceu depois que a montadora negociou redução de benefícios com os trabalhadores. As mudanças na Anchieta, como a fábrica é conhecida por estar às margens da rodovia com o mesmo nome, refletem uma negociação, de três anos atrás, entre empresa e Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. Os trabalhadores aceitaram abrir mão de benefícios, como aumento real em troca de novos investimentos.

Leiam Valor Econômico 

 Paralelamente, o comando na América Latina ganhou mais liberdade para, inclusive, interferir no desenho dos novos veículos. Isso ajuda a abrir espaço para que a filial brasileira se transforme em centro de desenvolvimento de projetos para mercados semelhantes num momento em que a matriz se dedica aos projetos de carros elétricos e autônomos. Este ano foram abertas 100 vagas nas áreas de engenharia e design, que contam agora com 950 profissionais. “No próximo ano faremos o projeto dos painéis dos carros aqui”, afirma Pablo Di Si, que assumiu a presidência da Volks na América Latina, há um ano e meio, quando a fábrica de São Bernardo saía de longo período de ociosidade e a linha de produtos começava a passar por profunda renovação. Um resultado do plano de investimentos de R$ 7 bilhões no país para o lançamento de 20 modelos entre 2017 e 2020.

Leiam Valor Econômico 

 Di Si tira o tecido que o cobre um dos veículos e espera por uma reação. O modelo, desenvolvido pela equipe brasileira e programado para chegar ao mercado em 2020 é um chamado CUV (“Cross Urban Vehicle”), uma mistura do já conhecido utilitário esportivo (SUV na sigla m inglês) e um cupê. São novas configurações que conferem à marca um ar moderno. O modelo descoberto por Di Si parece um carro pronto, feito com chapas de aço. Mas, na verdade, ainda está na versão “clay”, em argila. O CUV é um dos lançamentos programados pela Volks até 2020. Falta mais um. Um modelo compacto que levará mais investimento para o ABC. A fábrica de São Bernardo foi escolhida para receber mais esse projeto depois da visita do presidente mundial do grupo, Herbert Diess, em agosto. Diess encarregou-se ele mesmo de iniciar conversas com os representantes dos metalúrgicos para medir a disposição para manter flexibilidade nas negociações trabalhistas. Há seis décadas, a festa de inauguração da fábrica de São Bernardo foi marcada pela emblemática foto do então presidente Juscelino Kubitschek, desfilando em Fusca conversível. A Kombi foi o primeiro veículo produzido na unidade. Muita coisa mudou desde então. A tecnologia mudou a forma de desenvolver veículos. Mas decisões estratégicas para manter uma fábrica ativa ainda dependem das relações trabalhistas.

Leiam Diário do Grande ABC 

Agora, leiam alguns trechos da reportagem do Diário do Grande ABC de hoje, sob o título “Volkswagen vai investir R$ 2,3 bilhões em São Bernardo”:

 A Volkswagen, montadora alemã com fábrica em São Bernardo, confirmou investimento de R$ 2,4 bilhões no Estado, sendo R$ 2,3 bilhões para a planta da Via Anchieta. O aporte será utilizado na produção de um novo modelo de veículo, o quinto da unidade – que produz o Polo, o Virtus, o Saveiro e o Saveiro Cross. A empresa revelou que 100 pessoas foram contratadas para a área de engenharia e design, somadas às 850 já existentes no setor. Somadas às admissões recentes nas linhas de montagem, serão 500 novas posições. Atualmente, a planta industrial da região mantém cerca de 9.500 funcionários.  

Leiam Diário do Grande ABC

 A estimativa do governo do Estado é que o novo modelo gere 1.500 postos de trabalho diretos e indiretos em toda a cadeia automotiva. O anúncio foi feito ontem, em Wolfsburg, na Alemanha, sede da empresa, pelo chefe global de operações da Volkswagen, Ralf Brandstätter, junto ao governador João Doria (PSDB), ao secretário da Fazenda e Planejamento do Estado, Henrique Meirelles (MDB), ao prefeito de São Bernardo, Orlando Morando (PSDB), e ao presidente da Volkswagen América Latina, Pablo Di Si. O New Urban Coupé, atual nome do projeto, será o primeiro modelo da Volkswagen com design e produção 100% brasileiros, desenvolvidos em São Bernardo, que será produzido em fábricas da Europa, como a de Pamplona, na Espanha. Outros modelos da marca, como o Fox, foram desenvolvidos no País, mas enviados para fora em exportação, ou seja, também eram produzidos aqui.  “É a globalização da tecnologia e do conhecimento desenvolvidos no Brasil. Um carro que representará um novo segmento, com novidades que certamente irão atrair e conquistar ainda mais clientes para a marca Volkswagen”, comemorou Di Si. (...).

Leiam Diário do Grande ABC

 (...) O aporte faz parte dos R$ 7 bilhões anunciados pela montadora em 2016, fruto de acordo entre a empresa e o Sindicato dos Metalúrgicos do ABC. “Foi uma forma de o sindicato garantir a manutenção do emprego, dando previsibilidade ao trabalhador, além da produção e revitalização da planta, garantindo assim sua longevidade”, disse o diretor da entidade Wellington Messias Damasceno. Doria celebrou o investimento e ressaltou que o Estado trabalha para capacitar mão de obra para atender à demanda. “Mão de obra qualificada é mão de obra empregada. É o que a Alemanha já faz e o que estamos fazendo em São Paulo. ” 

Segundo requentamento

Além da inauguração do piscinão do Paço Municipal, obra incompleta de Luiz Marinho, as mídias sociais também exploraram a notícia divulgada pelo Estadão e outros veículos da Capital. 

Trata-se da denúncia do Ministério Público Federal de que R$ 12 milhões teriam sido desviados aos cofres petistas durante a gestão de Luiz Marinho pela OAS, uma das construtoras envolvidas na Operação Lava Jato. A OAS ganhou série de licitações públicas em São Bernardo durante a gestão de Marinho. Inclusive do piscinão. 

Como a guerra entre petistas e tucanos em São Bernardo parece não ter fim, até mesmo a mulher do prefeito, Carla Morando, deputada estadual, ocupou a tribuna da Assembleia Legislativa para elevar o tom crítico aos petistas flagrados em delito, segundo os federais. 

Contragolpe federal 

Mas não foi apenas de vitórias de Orlando Morando sobre Luiz Marinho que se deu mais uma batalha mensal entre os dois grandes competidores do ano que vem na região. Antes que agosto terminasse uma denúncia de empreiteiros e do ex-diretor do Metrô, Sergio Corrêa Brasil, revelada pela TV Globo, deixou os tucanos de saia justa. Integrantes do PSDB em São Paulo cobraram propinas em obras do Metrô e levaram a companhia estatal, entre outras consequências, a desistir do prolongamento da linha 2-Verde até São Caetano, onde seria integrada com a estação da CPTM (Companhia Paulista de Trens Metropolitanos). 

Tudo indica que os desdobramentos desse escândalo também sob o controle investigativo da força-tarefa da Operação Lava Jato poderão chegar de forma mais contundente às eleições municipais do ano que vem. Um contraveneno dos petistas que poderia dividir ainda mais entre os dois partidos (e muitos outros) a conta dos prejuízos causados pela corrupção política ao País. 

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