Imprensa

Veja como encontrei o Diário que
Ronan Pinto comprou em 2004 (34)

  DANIEL LIMA - 27/06/2019

Chegamos à edição 33 da newsletter OmbudsmanDiário, ferramenta digital que utilizamos em junho-julho de 2004 (portanto há uma década e meia) para reproduzir o apanhado analítico das edições diárias daquela publicação. A ação era uma espécie de preparação para que assumisse, em seguida, a direção editorial do jornal mais tradicional da região. O texto, produzido em 13 de julho, revela o quanto o Diário do Grande ABC exigia cuidados para que correspondesse à expectativa dos leitores. E eram ainda bons tempos da publicação que, como a totalidade dos jornais impressos regionais do País, e de maneira geral no mundo, sofre duramente com as tecnologias digitais – além da especificidade regional de degringolada econômica, principalmente neste século. 

Edição número 33

Na medida em que aperfeiçoamos o olhar sobre as páginas do Diário e dos jornais que nos chegam à mão de manhã, mais nos damos conta de que um mundo de avaliações se abre para desafiar nosso senso crítico. Seria algo como começar a andar e na sequência dos passos, com a cabeça nas nuvens, nos darmos conta de que fomos mais longe do que imaginávamos. 

De forma concreta, o exercício de avaliar o jornal é como começar uma empreitada de qualidade de vida obedecendo regime de preparação física prescrita por um desses especialistas badalados, como Nuno Cobra, ex-personal training de Ayrton Senna. A gente começa, vai em frente e não quer parar mais.

A diferença -- e isso é importante como ressalva -- é que a corrida aperfeiçoa o fôlego e apura a agilidade da mente, enquanto a perscrutação editorial nem sempre apresenta desdobramentos igualmente evolutivos. Mas isso tem de ser compreendido porque escrever é arte muito mais complexa, muito mais desafiadora, muito mais desgastante, muito mais inquietante, muito mais transbordante do que moldar um corpo em rigorosa dieta alimentar e física.

Como se tivesse me preparado para a função de ombudsman, premonitoriamente me condiciono fisicamente há mais de duas décadas com minhas corridinhas noturnas. Nos últimos tempos resolvi dar um aperto nas corridas, porque preciso apurar as críticas. Coisas da vida. 

 Primeira página (I)

Não teria optado pela manchete de primeira página de domingo ("Empresas são abertas sem crédito") principalmente pelos motivos que explico em nota específica. Quando o conjunto de informações não satisfaz aos leitores, não tem sentido elevar a matéria à condição de destaque da edição.

 Primeira página (II)

A chamada de domingo "Estado quer Ecovias em obra do Rodoanel" poderia ter tido maior destaque, mesmo considerando a matéria de agência. O assunto é regional.

 Primeira página (III)

Devido a problemas estruturais que analisei ontem, "Caem investimentos estaduais no ABC" não poderia mesmo merecer chamada de primeira página mais discreta do que a que está no jornal de domingo. A matéria, somada à dos investimentos federais, poderia ainda ter rendido manchete principal.

 Primeira página (IV)

Sem maiores comentários as fotos de primeira página de domingo sobre a zona de prostituição em Santo André. Leiam nota específica.

 Primeira página (V)

A discreta chamada do Festival de Inverno de Paranapiacaba na edição de domingo prova que a manchete principal de primeira página na edição de sábado foi um exagero.

 Primeira página (VI)

A manchete de primeira página "Grande ABC tem 1.899 candidatos a vereador", da edição de segunda-feira, é uma crônica antecipada do que encontraríamos internamente: um desmesurado espaço com a relação dos candidatos. Leia nota específica. Quanto à hierarquia da chamada, um baita exagero.

 Primeira página (VII)

A manchete de primeira página desta terça-feira "Ministro Luiz Fernando Furlan projeta crescimento de 5% no ano" poderia ser outra se o direcionamento da entrevista fosse mais consolidado a aspectos regionais, mas, mesmo assim, está adequadamente apropriada à realidade editorial do dia.

 Primeira página (VIII)

A super-rodada desta noite da Série A do Campeonato Brasileiro mereceria uma chamada mais impactante, inclusive com foto de treinamento do São Caetano, que enfrenta o São Paulo no Estádio Anacleto Campanella.

 Editorial 

O editorial de segunda-feira "Turismo na região" está muito bem construído (entre outros motivos porque resgata fatos históricos de arquivo) até o seguinte parágrafo: "Relíquias como os afrescos de Emeric Marcier, na capela da Santa Casa de Mauá, os estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, em São Bernardo (...)". Francamente, estúdios da Vera Cruz é força de expressão. Não temos nada lá, como se sabe.

 Memória andreense

A página inteira que Memória dedicou ao Santo André domingo mostra um Ademir Medici sempre preocupado com o contexto, unindo o passado e o presente em simbiose jornalisticamente perfeita. Ao resgatar a história do Santo André e ao reconstruir os bastidores que determinaram a criação e aprovação do hino do Ramalhão, Ademir Medici mata de curiosidade muita gente que não sabe nada da trajetória do clube, mata a sede de quem sabe um pouco e pensava que sabia muito e entusiasma quem sabe muito e precisava ser alimentado de informação para fortalecer a paixão em azul e branco.

Merecia uma chamada de primeira página. Como tantos outros fatos que costumeiramente o jornalista retira da penumbra do tempo e nos esfrega nas ventas como ao dizer: "Amem o Grande ABC com substância, com fundamentação, sem proselitismos".

 Prostituição avacalhada

A reportagem da edição de domingo "Crimes na Industrial estão na mira", referindo-se à zona de prostituição em Santo André, na D. Pedro II e na Industrial, principalmente, foi a consagração do mau gosto. O assunto é delicado e precisa ser tratado com certa sutileza, não com o escancaramento espetaculoso que chegou ao requinte de afixar em destaque uma tabela de preço do sexo. Enquanto sugiro uma tabela semelhante com os pontos de que o Santo André precisa para fugir do rebaixamento imposto pela CBF, quem faz uso da proposta é o pessoal responsável pelas bonecas da Industrial.

Nota-se que a temática criminalidade é apenas pretexto para transformar as páginas do jornal em vitrine de sensacionalismo. Recentemente a revista LivreMercado tratou desse assunto, mas orientamos o autor a potencializar os cuidados para não invadir o latifúndio sempre convidativo à avacalhação. O subtítulo de uma das páginas do Diário de domingo ("Programa a R$ 5 é feito em ruínas de fábricas") é condenatório à roupagem de segurança pública que se pretende vender, ao mesmo tempo em que solapa o respeito ao leitor.

Acredito que a reportagem causou tantos problemas que o jornal resolveu não seguir em frente com novas abordagens, embora tenha prometido aos leitores. Nada que o bom senso não fale mais alto. Longe de mim qualquer sentido moralista nessas observações. Existe grande diferença entre competência jornalística e moralismo. O assunto, repito, é por demais sensível para ser explicitado sem arte.

 Neruda 100

Na edição de segunda-feira o jornal dividiu em dois pedaços distintos informações sobre as comemorações de 100 anos de Pablo Neruda. Uma, "Chile comemora os 100 anos de Neruda", em Cultura & Lazer, e outra, uma nota em Informediário. O texto poderia ser único, unindo o regional ao internacional.

 Sinfônica afinada

A matéria de sábado "Sinfônica andreense brilha no Capivari", em Cultura & Lazer, valoriza a Orquestra Sinfônica de Santo André e seu regente titular Flavio Florence, em Campos do Jordão.

 Entrevista (I)

Está muito boa a entrevista da edição de hoje com o ministro Luiz Fernando Furlan. Embora a manchete de página (e que foi levada também à primeira página) tenha embocadura, preferiria ter regionalizado o foco do trabalho, puxando para a possibilidade de o ministro vir ao Grande ABC debater questões relacionadas às pequenas e médias empresas. 

A repórter foi preparada para a entrevista. Se o núcleo do questionamento fosse objeto de prioridade absoluta, é possível, entretanto, que mais informações poderiam consubstanciar a regionalização da manchete. Faltaram dados agregados sobre o comportamento da economia no Grande ABC nos últimos anos para extrair respostas provavelmente inéditas do ministro.

De qualquer maneira, dado à característica de superficialidade que tem marcado esse tipo de trabalho no Diário, é de se louvar a atuação da repórter. Haveremos de chegar lá.

 Entrevista (II)

O título "Brasil: 152 dias para abrir empresa", da entrevista publicada domingo com o economista Eduardo Giannetti, está muito aquém do conteúdo. Entre outros motivos porque já está mais que batido o emperramento burocrático para abertura de empresas. O problema da entrevista é que faltou um centro temático que sustentasse o trabalho. Entendo que numa oportunidade como essa, de ouvir acadêmico tão brilhante, deveria ser objeto de preocupação editorial a definição de determinado assunto com intrínseca ramificação regional. 

No mesmo domingo o mesmo entrevistado apareceu nas páginas do Estadão numa entrevista focada no comércio internacional do Brasil, especificamente Mercosul e Alca. Entendo que essa objetividade temática torna a leitura mais produtiva.

 Entrevista (III)

A entrevista de domingo com o secretário da Agência de Desenvolvimento Econômico do Grande ABC, Paulo Eugênio Pereira Júnior, é um primor de enviesamento. Faltou à repórter maior questionamento a determinadas ejaculações verbais do secretário. Para isso, é indispensável conhecimento agregado ou retaguarda editorial. Escreverei um Capital Social Online especificamente sobre as respostas do executivo, que é economista e não empresário, como saiu. Ele se sentiu todo à vontade com o levantamento de bola acrítico da entrevistadora.

 Rodoanel 

Diário repercute o material publicado ontem por meio de agência sobre o cronograma e outras especificidades do trecho sul do Rodoanel, que supostamente beneficiaria o Grande ABC. A matéria "Ecovias mais próxima do Rodoanel" está bem-feita, mas acredito que está nas entrelinhas o enigma sobre a forma de financiamento do trecho sob influência da Ecovias, concessionária do sistema Anchieta/Imigrantes, não desvendado pelo jornal.

Querem saber? Pois acho que o jornal deveria investir hoje mesmo na abordagem que vou repassar, porque pode, inclusive, conforme o balanço do dia, virar manchete principal de primeira página. O que está recôndito nas informações repassadas hoje é que o Estado deverá estender o prazo de 20 anos de concessão de exploração da Ecovias na Anchieta-Imigrantes em troca do investimento da concessionária no trecho sob sua influência.

Estou apostando o que quiserem que desvendei o mistério. É provável que essa seja a única alternativa para resolver o problema sem que postos de pedágios tirem o couro dos usuários do Rodoanel. Afinal, o Estado e a União estão sem recursos para a obra. Que tal ouvir a Ecovias e o secretário de Transportes? Perguntem-lhe sobre o esticamento da concessão da Anchieta-Imigrantes em troca de um trecho do Rodoanel.

 Telefone (I)

A Folha deu um baile no Diário e no Estadão, ontem, ao publicar com exclusividade a notícia da liminar que suspende a cobrança de taxa de assinatura mensal dos clientes da Telefônica. E volta a driblar os dois jornais hoje: enquanto Diário e Estadão divulgam a notícia de ontem da Folha, a Folha sai com matéria informando que a suspensão está restrita à Comarca de Catanduva. O Diário publica que tentou ouvir o juiz de Catanduva. Infelizmente, a Folha conseguiu pegar o homem.

 Telefone (II)

A diferença do Diário em relação aos outros dois jornais é que dedicou mais espaço ao assunto, inclusive ouvindo o deputado José Dilson, um dos responsáveis pela ação.

 Eleições fiespianas

Mimetizando políticos profissionais, a direção da Fiesp está anunciando nos jornais de hoje um programa de cooperativas de crédito para financiar pequenas e médias empresas. O Grande ABC, fracasso histórico de atuação do Ciesp, braço empresarial da Fiesp, entra na jogada com uma das unidades. A matéria do Diário e dos outros jornais se mantém distante da vinculação da medida ao calendário da disputa à presidência daquela casa da Avenida Paulista, programada para agosto.

 Eleições municipais (I)

Sob o título "Título do Santo André embala propagandas", o Diário repercute a disputa pelo naco eleitoral da Copa do Brasil conquistada pelo Ramalhão. A matéria aparece com pelo menos duas semanas de atraso. Tanto que os outdoors estão com o prazo de validade quase vencido. De qualquer modo, o texto está bom. O problema do timming tirou o impacto.

 Eleições municipais (II)

A matéria do jornal de hoje "Aciam entrega lista de propostas a candidatos" é superficial. Manteve-se burocraticamente na cobertura do evento realizado ontem à noite. Faltou contextualização. A Aciam é a primeira entidade empresarial da região a tomar a iniciativa de chamar os candidatos a prefeitos e lhes apresentar uma pauta de ações com base em mobilização dos associados. A Acisa prefere o comodismo de chamar os candidatos para debates. E as demais entidades, o que fazem?

 Eleições municipais (III)

A distribuição de outdoors nos municípios do Grande ABC pelos cartórios eleitorais ocupou o topo da página 2 da edição desta terça-feira sob o título "Candidatos da região terão 474 pontos para propaganda eleitoral". O que deveria ser resumido em uma ou duas notinhas de Cena Política acabou ocupando três colunas de alto a baixo, com quadro da distribuição do material. Um exagero.

 Eleições municipais (IV)

O que virou notinha de Cena Política de hoje, sobre o suporte que políticos conservadores darão ao candidato indicado por Luiz Tortorello em São Caetano às eleições de outubro, deveria ser a matéria do topo da página com mais informações sobre o assunto e contrapontos em relação aos apoiadores notáveis dos demais candidatos.

 Eleições municipais (V)

Um desperdício a edição de ontem ter reservado tanto espaço para a lista de vereadores no Grande ABC. Coisa louca. O calhamaço só se justificaria se estivéssemos às vésperas das eleições e se fizesse parte de suplemento específico. Ainda mais que se trata de lista provisória.

 Criminalidade

A Folha apresenta hoje matéria que sugeri ao Diário ontem: um desenho interpretativo da situação carcerária da Capital. Uma página inteira de muitas informações, gráficos e explicações. Gostaria imensamente de saber quantos encarcerados temos hoje no Grande ABC por distrito policial e qual é a situação que os envolve. Os leitores também.

 Caso Celso Daniel 

O Estadão de hoje volta a colocar em destaque a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a inconstitucionalidade de o Ministério Público realizar investigações criminais. O Diário segue omisso na questão que tem influência decisiva no caso Celso Daniel. Será que há algum mistério a cercar o assunto na redação do jornal? Por que o suposto setorista do caso Celso Daniel não se manifesta? Estaria ele gozando, mais uma vez, férias do banco de horas? Francamente, como leitor do jornal fico indignado com tamanho desdém de um caso que, em última instância, rende muito Ibope.

 Imortal do Grande ABC

Um dos Imortais do Grande ABC do Prêmio Desempenho morreu ontem e foi absolutamente esquecido pelo Diário -- o empresário Itiro Hirano. Um dos fundadores da Nakata de Diadema, vendida há algum tempo ao grupo multinacional Dana, Itiro tem biografia de sucesso. Não é o primeiro Imortal do Grande ABC desprezado pelo jornal.

 Paranapiacaba (I)

A edição desta terça-feira repercute avaliações de um músico sobre o prazer de participar do Festival de Inverno de Paranapiacaba. O Diário não está deixando a peteca da Vila cair.

 Paranapiacaba (II)

A matéria "Público toma as ruas da Vila", de segunda-feira, sobre o primeiro final de semana do Festival de Inverno de Paranapiacaba, poderia ter unido à linguagem específica e diferenciada do autor mais informações pontuais.

 Regime de exceção

Importante o destaque que Cultura & Lazer dá na edição desta terça-feira à exposição dos arquivos do Dops-SP.

 Trânsito (I)

Providencial a abordagem dos problemas de trânsito no cruzamento da Avenida Pereira Barreto com Rua Professor Licínio. A arte auxilia sobremodo a identificação geográfica.

 Trânsito (II)

Muito boa a matéria "Mauá sinaliza dez cruzamentos", na edição de sábado. O texto está tecnicamente bom, explicativo, com dados estatísticos. Quando a entrevista é bem-feita, o texto flui.

 Campeonato Brasileiro (I)

A apresentação do jogo de hoje entre São Caetano e São Paulo esqueceu do fundamental para justificar o título "Campanella assiste partida dos técnicos ameaçados". Não faz qualquer referência à série de jogos sem vitória do São Caetano. E continua o mistério: o São Caetano já viveu fase semelhante de maus resultados desde que disputa a Série A do Campeonato Brasileiro?

 Campeonato Brasileiro (II)

Os leitores gostariam imensamente de saber detalhes sobre a operação que garantiu a manutenção dos principais jogadores do Santo André, depois da conquista da Copa do Brasil. Será que o clube comprometeu suas finanças com as negociações? Quem mais contribuiu para convencer os jogadores a não trocarem de clube?

 Setor automotivo

Quem escreve sobre economia no Grande ABC tem obrigação de ler tudo sobre o setor automotivo. O Estadão de hoje publica matéria do The Wall Street Journal Americas que relata as dificuldades que as indústrias da Alemanha estão enfrentando para manter-se competitivas. O título "DaimlerChrysler intensifica briga com sindicatos alemães para cortar custos" é instigante.

 Capa enigmática

Parece um bumbum, mas está esquisita a ilustração fotográfica da capa do suplemento Dia-a-Dia de domingo. Sabe-se que se trata de uma bunda porque o texto entre aspas de um poema de Carlos Drummond de Andrade induz à conclusão, mas algo estranho ocorreu. Creio que excederam no corte. O suplemento Dia-a-Dia é uma leitura agradável.

 Empreendedorismo

A matéria de domingo "Empreendedor abre negócio sem crédito privado e oficial" se mostrou Frankstein editorial, porque começa com um assunto -- a questão de crédito -- e depois salta e ganha corpo tendo como mote o empreendedorismo propriamente dito. A matéria "Sebrae cria programa de capacitação em parceria com a ONU", desdobramento do assunto, comprova que a ênfase da pauta está conectada à vocação ou à necessidade de criar empresas no Brasil. Ao navegar em águas diferentes, o texto acabou se perdendo.

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