Administração Pública

Sabesp faz Operação Tabajara
em pesquisa sobre concessão

  DANIEL LIMA - 18/06/2019

Antes de mais nada e para que tudo caminhe conforme o pressuposto de que não estou caindo em contradição alguma, quero deixar claro que sou amplamente favorável à concessão do Semasa para a Sabesp. Já deixei isso claro em vários artigos nestes dias de muita expectativa, confusão e pancadaria que marcaram a aprovação do projeto de lei do prefeito Paulinho Serra. Posto isso, vamos dar continuidade ao assunto.

O título acima se refere à notícia que o Diário do Grande ABC publicou com certa discrição, que, entretanto, não atenua a gravidade que exponho em seguida.

Trata-se de pesquisa feita sabem por quem? Bingo, pela Sabesp. Sim, a Sabesp fez uma pesquisa, cuja metodologia não foi informada ao distinto público leitor do jornal. O trabalho, segundo a reportagem, visava aferir o grau de apoio à transferência da água e do esgoto de Santo André àquela estatal com ações em bolsas de valores.

Uma pesquisa feita ou encomendada justamente pela Sabesp para saber dos consumidores o que acham da possibilidade de mudança da logomarca e de muito mais do Semasa quando se trata de cuidar do saneamento e da água de Santo André não é uma pesquisa que deva ser considerada lá essas coisas, não é verdade?

Ação amadorística

Mas como dizer que a pesquisa encomendada pela Sabesp à Sabesp e que só a Sabesp definiu os enunciados e cuja metodologia foi mantida em segredo pela Sabesp não é uma pesquisa que se deva levar a sério se, guardadas as devidas proporções e importância, as pesquisas presidenciais das últimas eleições foram uma piada sequencial, com manipulações a dar com pau?

Sei que estou a encompridar os parágrafos, mas isso é proposital porque quero mesmo prender a atenção dos leitores para o descalabro da pesquisa da Sabesp.

A ação é de um amadorismo tão crônico que se fosse julgar a qualidade do gerenciamento da água e do esgoto de Santo André a partir da incorporação do Semasa pela Sabesp levando-se em conta o profissionalismo entre aspas da pesquisa certamente perderia o que me resta de cabelos.

A reportagem do Diário do Grande ABC seguiu à risca a complicação da empreitada da Sabesp a ponto de eu duvidar que mais que meia dúzia de leitores chatos e persistentes tenham entendido a publicação.

Sob o título “Pesquisa indica que 71% apoiam concessão do Semasa”, a reportagem deixa uma cordilheira de interrogações já nos primeiros trechos.

A reportagem do jornal

É melhor reproduzir integralmente os primeiros parágrafos para não dizerem que estou a manipular. Mais que isso: é melhor reproduzir os primeiros parágrafos porque a autenticidade mantida preservará o tamanho da encrenca cognitiva. Vamos lá: 

 Pesquisa encomenda pela Sabesp (...) aponta que 71% da população de Santo André é a favor que a Prefeitura, gerida por Paulo Serra (PSDB), contrate a empresa paulista para operar o serviço de água e esgoto da cidade. O governo tucano obteve autorização legislativa na terça-feira para firmar convênio de parte do Semasa (...). Nesse contexto de apoio ou não às tratativas com a Sabesp, 29% dos entrevistados responderam de forma contrária ao ajuste de gestão compartilhada. Na sondagem, 31% não souberam responder à pergunta.

Muito mais que 100%

Chega, definitivamente chega. Não preciso de mais parágrafos. A confusão foi armada na Redação do Diário do Grande ABC e de seus leitores. A soma das partes é maior que o todo, ficou bem claro. Ou seja: adicionem aos 71% que aprovam os 29% que desaprovam e os 31% que não responderam e vejam quanto temos. Dá 131%. Uma barbaridade.

É claro que bom cabrito de leitor não berra e vai atrás de dados que se torne algo digerível à inteligência.

O grande desafio no labirinto numérico pela pesquisa da Sabesp sobre a Sabesp era saber exatamente qual a parcela de entrevistados pelo DataSabesp (a marca é invenção minha) que de fato apoiam a concessão do Semasa, e quantos responderam não.

Só foi possível chegar aos números que interessavam para valer quando nas últimas linhas da reportagem se descobre que foram entrevistados 400 moradores de Santo André. E que a minha ideia esdruxula de que a Sabesp contava com um ramal de pesquisas não tinha sustentação, porque a GMR Inteligência de Mercado ouviu os entrevistados numa central telefônica.

A empresa fora contratada pela Sabesp. Ou seja, embora independente, é um braço da Sabesp. Tem o mesmo sentido que os opositores à incorporação do Semasa encomendassem uma pesquisa com quem sabe, vieses indutivos à reprovação popular.

Minoria aprova Sabesp

Cheguei a ficar aliviado quando encerrei a leitura da reportagem. Fiz umas continhas e descobri que a Sabesp se meteu numa fria porque dos 400 entrevistados, menos da metade (mais precisamente 196) pronunciaram-se favoráveis ao negócio da água e do esgoto.

Como assim? Ora, bolas: se 31% dos entrevistados não responderam ao questionário, isso significa um universo de 124 entrevistados. Outros 29% (80 entrevistados entre os que responderam) disseram “não” à iniciativa do prefeito de Santo André. Somando-se os dois batalhões de desertores ou quase desertores, eis que temos o total de 204 moradores de Santo André que não souberam responder ou foram contrários ao negócio com a Sabesp. Resultado: 51%.

Dessa forma, apenas 49% dos moradores entrevistados apoiaram a iniciativa tucana. Um resultado mais que decepcionante, não é verdade?

Resultado precário

Então, o título correto da reportagem do Diário do Grande ABC deveria ser exatamente o seguinte: “Menos da metade apoia concessão do Semasa para a Sabesp”. Qualquer enunciado fora desse enquadramento é engodo. As contas estão aí. Dolorosamente expostas. Contrariando minha percepção de que há uma maioria que adotaria a medida do prefeito de braços abertos.

Mas, honestamente, também é possível que o resultado fosse outro e muito mais próximo da realidade dos desejos da sociedade. Quem garante que entre os 31% que não souberam responder, segundo garante a pesquisa, muitos não decidiriam apoiar a iniciativa de Paulinho Serra se houvesse sido apresentada uma ação de marketing fora da estreiteza de uma Operação Tabajara?

Todo mundo que me lê com frequência sabe que sou louco por pesquisas. Sobretudo por pesquisas eleitorais. O Ibope e o Datafolha fizeram loucuras nas eleições presidenciais. Escrevi artigos que contestavam com base e serenidade o quanto se pretendeu manipular as emoções dos eleitores.

Entretanto, em matéria de amadorismo metodológico e de exposição dos dados jamais vi algo parecido no que chamaria de tiro no pé da Sabesp. Foram muitos os leitores deste site com os quais mantenho contatos no Watsaap que indagaram insistentemente sobre como decifrar a reportagem do jornal.

Prometi a todos que esmiuçaria o assunto neste espaço. É o que estou fazendo. Mal sabem eles que, assim que li o material no domingo, uma coceira de esclarecimento, de discernimento, começou a me incomodar.

Sede mais ao pote

Juro por todos os juros que a Sabesp não pode me decepcionar. Boto fé que será mais capaz de tocar a água e o esgoto de Santo André do que o Semasa, historicamente um ninho de empreguismo que vilipendia profissionais qualificados que a autarquia tem aos montes.

Confesso que fico com um pé atrás sobre a melhor maneira de conduzir as negociações que se abrem porque não acredito muito em discernimento geral e irrestrito quando uma pesquisa de tamanha importância vira patetice.

Me parece que estão indo com sede demais ao pote na tentativa de abafar a bagunça generalizada em que se meteram o prefeito, os vereadores e as torcidas organizadas favoráveis e contrárias ao negócio.

Essa pesquisa cheira à desespero de causa, quando, de fato, é apenas questão de competência tirar de cima do muro os moradores que não souberam responder ou não quiseram responder aos entrevistadores.

Mas que a Sabesp patrocinou uma derrota matemática, disso não tenho dúvida. Mesmo que seja uma derrota precária, imprecisa, amadorística.

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