Economia

Velocidade de demissões na
região é 41% maior que no País

  DANIEL LIMA - 13/06/2019

Vamos ao resumo do resumo do que vem em seguida e, também, a uma conclusão óbvia, indispensável e contundente, mas maldita: a vulnerabilidade da indústria de transformação do Grande ABC no período de fortíssima recessão que ainda não terminou atingiu 41,53 na escala de degradação econômica e, com isso, segue na velocidade do que chamaria de apatia institucional, mas que poderia ser rotulada também de irresponsabilidade social. Está bom assim?

Sei que o leitor teve dificuldade de entender a abertura dessa análise. Foi proposital. Volte ao texto. Mastigue palavra por palavra. Saia do piloto automático das redes sociais. Se achar que devo propiciar leitura fastfoodiana, está no endereço errado. Quero reflexão, porque é da reflexão que brotam ideias. Leituras apressadas não dizem muita coisa. Ou melhor: incrementam incorreções e radicalismos. Volte à leitura dos trechos iniciais e vamos em frente. Combinado?

Vou explicar já-já o que significam 41,53 graus na escala de degradação econômica. Antes, uma breve consideração: enquanto não surgiu absolutamente nada no horizonte pós-período dos dados que repassarei em forma de análise, o Clube dos Prefeitos agora presidido pelo prefeito dos prefeitos Paulinho Serra se esmera em fantasiar uma ilusão chamada Frente Parlamentar.

Frente Parlamentar?

Meia dúzia de vereadores de olhos abertos nas manchetes -- e atendendo a indicação, quase convocação dos respectivos prefeitos -- se reuniram no Clube dos Prefeitos para dizer ao mundo regional que estão unidos em defesa do monotrilho do Grande ABC, chamado insistentemente de metrô pelo Diário do Grande ABC.

Trata-se de campanha editorial mais longeva da história do jornalismo regional, sem a correspondente solidez de pontos e contrapontos, o que a torna espécie de ação lobista.

O Clube dos Prefeitos entrou para valer porque o Clube dos Prefeitos, entra prefeito, sai prefeito, continua o mesmo. Não vou dizer que só mudam as moscas porque seria uma ofensa às individualidades que o compuseram e o compõem; entretanto, caso se aplique a metáfora maliciosa ao mambembe coletivismo histórico, não seria lembrança nada pecaminosa.

Aos números, leitores

Feita essa incursão indispensável para que os leitores entendam o quanto a institucionalidade do Grande ABC é uma fraude, vamos aos números.

Fiquei curioso em saber o quanto a velocidade de perda de postos de trabalho no setor industrial da região se consolidou no período de janeiro de 2015 a dezembro de 2017, ou seja, de 36 meses, tendo como referencial o movimento médio no Brasil. Os números divulgados esta semana pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e analisados aqui sob a perspectiva da agudeza que atinge na região, principalmente Diadema, merecem atenção redobrada.

Fui à luta em meio a tantos assuntos e não me surpreendi nadinha de nada com o resultado final: nesse período, demitimos nas indústrias 41,53% mais trabalhadores que a média brasileira. É uma senhora cacetada. Vai muito além dos números frios que já inquietam e perturbam.

O que os números querem dizer também, ou principalmente, é que a vulnerabilidade regional no setor que gera os melhores empregos é acachapantemente preocupante. E se é tanto assim – como temos reiterado ao longo dos tempos diante de agentes públicos insensíveis, porque oportunistas – por que então o Clube dos Prefeitos não sai do ramerame tradicional e incompatível com a profundidade do buraco em que nos metemos nas últimas décadas?

Conjuntura e estrutura

Já sugeri aqui e não custa repetir pelo menos duas ferramentas que poderiam significar uma reviravolta na rota da debacle típica de Titanic: primeiro, um Planejamento Estratégico Econômico que contemple a região como um todo no sentido de mapear gargalos, oportunidades e armadilhas; segundo, a formação de um grupo de elite que atuaria em conjunto com o Clube das Montadoras e o Clube das Autopeças (Anfavea e Sindipeças) para construir salva-vidas econômicos que evitem novos lances dramáticos de esvaziamento da atividade na região.

Basta ler os jornais de hoje que tratam da inquietude das montadoras ante a internacionalização dos negócios para compreender que após a tempestade da recessão, quem imagina a bonança da compensação cíclica -- mas quase sempre insuficiente na região -- vai cair do cavalo.

Nos 36 meses mencionados como período de comparação entre o que perdemos e a média do que o Brasil perdeu, as fábricas locais registraram baixa geral de 49.554 trabalhadores com carteira assinada. Média mensal de 1.376 postos. A indústria de transformação nacional perdeu 12,5%, segundo dados do IBGE, num total de 1,104 milhão de carteiras assinadas.

Perdemos muito além da conta não só no confronto de médias, mas também quando se observa a participação relativa média do estoque de trabalhadores industriais da região no quadro nacional, de 1,85%, porque atingimos quebra relativa de 4,49% frente aos dados nacionais.

Institucionalidade frágil

Não vou abordar os múltiplos vetores que contribuíram para esse horror econômico mais fortemente localizado no Grande ABC. Os leitores mais assíduos sabem de cor e salteado. Mas não posso descartar os dois parágrafos que se seguem. Trata-se do seguinte: o modelo de sindicalismo de que somos vítimas não se encaixa mais nos pressupostos de competitividade nacional e internacional. E a degringolada institucional é obstáculo intransponível à recuperação.

Podem argumentar os leitores menos dispostos a entender esta análise – e esse é um direito inalienável dos leitores mais questionadores – que o Grande ABC perdeu mais que a média brasileira porque é mais industrializado que a média brasileira. Perfeito raciocínio, quando não se ultrapassa a linha do inconformismo de baixa riqueza cognitiva.

Para começar, os números relativos desqualificam essa abordagem. Números relativos quando confrontados são números relativos respeitáveis. Para uma região que conta com estoque de trabalhadores industriais que não chega a 2% de tudo que se tem no território nacional, perder acima desse percentual significa perder mais que o suportável.

Mais que isso: sinaliza que há fatores estruturais (no caso principalmente a dependência do setor automotivo e a atuação sindical, além dos gargalos logísticos) que se juntam a fatores conjunturais, do ambiente econômico nacional e internacional, como sinalizadores de enfermidades.

G-15 menos sofrido

Também desbarata argumentação contemporizadora do desastre do ambiente industrial da região um confronto dentro do G-22. Esse agrupamento selecionado por este jornalista há muito tempo para espantar o ambiente provinciano da região reúne as 20 maiores economias municipais do Estado de São Paulo, exceto a Capital, acrescidas de Ribeirão Pires e Rio Grande da Serra.

Pois quando se observa o comportamento do emprego industrial do G-22, tem-se com clareza as complicações do Grande ABC. Se são sete os municípios da região no G-22, então existe um G-15 no interior do G-22, não é verdade?

Recorro a esse didatismo para que todos entendam. Então, qual foi o comportamento do G-15 no período de 36 meses?  Os 15 municípios perderam em conjunto 17,56% do estoque de empregos industriais com carteira assinada. Ou seja: 18% menos que o Grande ABC. Nossa engrenagem de demissões de trabalhadores industriais girou em velocidade 18% mais inquietante que os integrantes do G-22 fora do território do Grande ABC; ou seja, o G-15.

Tenho mais a escrever sobre esse novo desdobramento do emprego industrial. Não vai faltar ocasião.

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