Administração Pública

Diário-Morando: até onde vai
a guerra que já está evidente?

  DANIEL LIMA - 30/05/2019

É possível, para não dizer mais que provável, que o governador João Doria se torne a única resposta possível para colocar um ponto final no que já parece ser uma declaração de guerra do Diário do Grande ABC ao prefeito Orlando Morando por conta do mercado de transporte coletivo tendo o monotrilho como alvo maior. 

Nos últimos dias, após explicar neste espaço o que se passa entre a Rua Catequese e o Paço Municipal, só evoluíram os sintomas de que ainda não se encontrou um denominador comum para aplacar principalmente o ânimo do jornal. 

Tudo passa pelo traçado reservado ao monotrilho, que o governador quer ver transformado em BRT e o prefeito Orlando igualmente. Mas entra no jogo também a concessão do transporte em São Bernardo. 

Salvo reviravolta entre as partes por livre ou induzida vontade, ou seja, após a medição de custos e ganhos, Diário do Grande ABC e a Administração Orlando Morando entraram mesmo em rota de colisão.

O noticiário cor de rosa de tanto tempo virou tempestade que diariamente expõe inconformidades ou supostas inconformidades da gestão municipal da Capital Econômica do Grande ABC.

Quem ganha, quem perde

O silêncio do prefeito estimula o entorno a procurar tanto minimizar os efeitos colaterais quanto botar mais fogo na canjica. Vazamentos aqui e acolá dão conta de que laços fraternos entre as partes viraram sucata. Agora seria chumbo grosso mesmo.

Há questões que não podem ser levadas ao público porque flutuam entre a realidade evidente, mas não comprovada documentalmente, e especulações utilizadas apenas para desgastar o oponente. 

De concreto mesmo é que o embate que promete ir longe gira em torno principalmente do modal que ocupará a rota do monotrilho, tratado por metrô pelo jornal numa companha que mistura jornalismo e marketing, mais o segundo do que o primeiro.

Há dois vértices desse quadrado que não podem ser subestimados porque influenciam diretamente o que virá em forma de resposta à execução da obra ou a substituição por BRT. 

O primeiro é o governador do Estado, como já disse. O segundo é o grupo empresarial de Beatriz Braga, concessionária de transporte público em São Bernardo e também do sistema de trólebus. Nos dois casos os interesses de Beatriz Braga seriam violados caso o monotrilho se interponha. O grupo da empresária é uma fortaleza. 

O uso do sistema de trólebus seria duramente impactado pela demanda reprimida e também pela demanda atendida pelo empreendimento da empresária, interferindo diretamente na rentabilidade dos negócios.

Guerra para valer 

Possivelmente os interessados dos dois lados da contenda tenham números sólidos que justifiquem o confronto. Não se guerrearia de graça. O monotrilho pode não ser lá essas coisas do ponto de vista urbanístico, de mobilidade e tudo o mais, até porque fere de morte a paisagem imobiliária já instalada, mas não há dúvida que encurtaria o caminho rumo à Capital e da Capital à região. 

A qualidade do transporte do monotrilho, endeusada por alguns, fica em segundo plano, porque bom mesmo seria contar com metrô de verdade. Mas isso é avanço de Primeiro Mundo.

Tanto o sistema de trólebus instalado há mais de três décadas quanto o monotrilho que se pretende implantar na região são esquisitices típicas de países em desenvolvimento. 

Quem imaginou que o traçado do trólebus tornaria a vizinhança economicamente imediata espetacularmente competitiva caiu do cavalo. Basta ver o retrato de praticamente toda a extensão da obra.

A Avenida Pereira Barreto, que liga Santo André a São Bernardo, é um desfilar de portas comerciais cerradas. E de portas abertas de estabelecimentos que exalam dificuldades de sobrevivência. Dessa forma, nem sempre o que é bom à mobilidade urbana o é à economia. Com o monotrilho não é diferente. Imaginem se tivéssemos o metrô de verdade como São Paulo tem? Vende-se o monotrilho como a sétima arte de transporte e quem é do ramo sabe que não é bem isso. Muito diferente disso, aliás. 

Estupro paisagístico 

Imaginem os leitores aquelas pilastras de cimento armado subirem às alturas em áreas nobres do comércio de São Bernardo, da região central? Quem tem dúvidas sobre o empobrecimento da vizinhança imediata? Basta reparar nos estragos do minhocão em São Paulo. E olhem que o minhocão, comparado ao monotrilho, é bem menos agressivo a tudo que se entende como civilização do futuro. Monotrilho e minhocão têm tudo a ver – são estupros paisagísticos. 

O monotrilho é bom negócio para quem, como a MBigucci, entre tantos exploradores imobiliários, construiu o Marco Zero da Vergonha no cruzamento da Avenida Kennedy com a Senador Vergueiro, em São Bernardo. Há distância relativamente saudável a separar o entorno arquitetônico do monotrilho e aquele condomínio de salas comerciais e residências que dá mostras claras de que espera por recuperação da economia regional para fazer da escuridão de salas comerciais luzes restauradoras de ocupação.

Além de interesses contraditórios dos principais agentes que disputam a confirmação do monotrilho ou a substituição da obra pelo BRT existe principalmente por parte do governador a inquietação com o custo financeiro das desapropriações e, mais que isso, com eventuais contratempos criminais de um processo licitatório que culminou no descarte de áreas que precisam ser desocupadas. 

Desapropriações ameaçadoras 

Em valores atuais há cálculos que projetam custo para os cofres públicos do Estado próximo a R$ 1 bilhão. Tirar dinheiro do orçamento estadual para botar na mão de proprietários de terras não é exatamente o sonho de João Doria.

Agora mesmo João Doria anunciou um micro ramal do monotrilho que atenderá ao Aeroporto de Guarulhos sem desencaixar um tostão sequer de desapropriação. E aplicará muito pouco na obra propriamente dita, cuja responsabilidade maior estará na bitola de acertos da concessionária com o governo federal.

Voltando ao que mais interessa, observadores próximos às duas fronteiras dessa guerra que se inicia desenham desenlaces antagônicos.

Quem perfila ao lado do jornal garante que João Doria convencerá Orlando Morando de que é melhor não mexer em time que está ganhando. 

Por outro lado, o mesmo enunciado serve de armamento aos mais próximos de Orlando Morando. Nesse caso, o time do prefeito que está ganhando é formado pelas relações com a concessionária Beatriz Braga e em defesa de um novo ramal de trólebus, parente próximo do BRT.

Aliás, pode parecer contradição ou equívoco interpretativo afirmar que” não mexer em time que está ganhando” seria uma aberração, porque o mais lógico seria dizer que se um time está ganhando o outro obrigatoriamente estaria perdendo. 

Nesse caso, é indispensável respeitar a avaliação de cada grupo de interesses. “Time que está ganhando” vale para os dois lados da disputa. Convencer um desses grupos de que é preciso deixar de ganhar aqui para ganhar ali é outra coisa.

Tudo embaralhado 

A guerra que está no começo pode se tornar fratricida se o time que está ganhando continuar a ganhar em detrimento do time que também acha que está ganhando se der conta de que passou a perder.

Parece embaralhado o raciocínio? Que culpa tenho se a situação se apresenta realmente assim? Não o fosse, não haveria motivo para o entrevero.

Enquanto o veredito final não é anunciado (e tudo passa pelo destino do traçado do monotrilho com a respectiva escolha da modalidade de transporte), o Diário do Grande ABC seguirá desgastando a imagem de Orlando Morando que ajudou a construir junto aos leitores. 

Uma imagem que não é necessariamente a avaliada pelos moradores de São Bernardo. Nenhuma mídia na região ou em qualquer lugar do planeta civilizado tem o monopólio de esculpir santo ou satanás nestes tempos de variadas plataformas de mídias. Está aí o presidente Jair Bolsonaro como prova provada.

Mais pancadaria 

Talvez seja nisso que Orlando Morando esteja a pensar sobre a relutância em entregar ao Diário do Grande ABC a vantagem que entende dispor e com a qual pode seguir em frente. O enxadrismo é complexo, mas em princípio parece que o prefeito tem cacife do governador para fazer o Diário do Grande ABC recuar ou encontrar uma fórmula que não passe necessariamente pela confirmação do monotrilho. O problema é que o jornal fez do monotrilho razão de circular nos últimos três meses. 

Na edição de terça-feira o jornal procurou aproximação com o governador João Doria ao levar à manchetíssima (manchete principal de primeira página) um título mais que esclarecedor sobre a medida: “Governo enaltece sistema de transporte por monotrilho”.

Na mesma edição, o Diário do Grande ABC fustigou a gestão de Orlando Morando: “São Bernardo atrasa em dez meses obra de piscina do Baetão”. Uma paulada de cabo a rabo no tucano. 

Nada diferente, aliás, do que se leu hoje com nova manchetíssima (“Monopólio no transporte público de S. Bernardo será levado ao MP”).

Na edição de ontem, no caderno “Setecidades”, outra manchete duríssima: “Família denuncia descaso na saúde de São Bernardo”, e também uma manchetinha de página desgastante: “Usuários reclamam de ciclovia em S. Bernardo”. 

A guerra está declarada. Declaradíssima. A maioria dos leitores não se dá conta disso. Os envolvidos sabem que trincheiras ganharam a forma de páginas do Diário do Grande ABC.

Essa é uma novela que promete muitas emoções. João Doria vai dar apoio a Orlando Morando, fiel parceiro da jornada que o levou ao governo do Estado? Parece que sim porque, goste-se ou não, ninguém soube construir pontes com o governo estadual ao longo dos tempos na região senão o atual prefeito de São Bernardo que, a bem da verdade, não fugiu de embates com os petistas então poderosos. 

Mas o apoio do governador a Orlando Morando não significa necessariamente que o Diário jogará a toalha. Entretanto, encontrar uma saída salomônica torna-se mais difícil a cada nova edição entre outras razões porque aquela ciranda logo acima de que os dois lados não querem abrir mão dos ganhos que se atribuem não é bem assim quando observada com lentes meticulosas. O monotrilho veio para bagunçar o coreto. 

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