Política

GloboNews, congressistas,
Pelé, Lava Jato e Bolsonaro

  DANIEL LIMA - 29/05/2019

Imaginem um debate sobre artilheiros do futebol mundial sem referência substantiva a Pelé, o maior da história. Imaginem também uma discussão sobre processos inflacionários mais aviltantes que não se cite os exemplos de Israel e do Brasil antes do Plano Real. Pensem também a propósito de prova provada de que o Estado bem gerido pode dar certo na agricultura sem menção eloquente à Embrapa. Que tal falar de recessão sem mencionar o governo de Dilma Rousseff? Ou sobre corrupção sem ponderações minimamente ácidas sobre os escândalos petistas do Mensalão e do Petrolão, precedidos de roubalheiras menos abrangentes dos antecessores na farra do boi da venerada Nova República?

Pois é, de tudo que elenquei nos trechos acima como situações surreais, impensáveis, apenas o último enunciado adentrou a grande área de forma livre, leve e solta em falso escrutínio dos três analistas convidados da GloboNews Painel do último fim de semana. E inclusive pelo crivo da jornalista-apresentadora Renata Lo Frete, escolhida pelo então deputado Roberto Jefferson para, nas páginas da Folha de S. Paulo, denunciar em 2005 o esquema do Mensalão petista. Participaram do encontro figurinhas carimbadas da grande mídia. Vejam quem são: 

 José de Souza Martins é professor titular aposentado do Departamento de Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. Um fernandoenriquista de carteirinha. 

 Sérgio Abranches é sociólogo, cientista político e jornalista, reconhecido como uma das vozes mais atuantes, no Brasil, sobre “ecopolítica”. Após publicar livros sobre temas relacionados à sustentabilidade e ao meio ambiente, estreou na ficção em 2012, com o romance O pelo negro do medo (Editora Record). Hoje, é editor do site Ecopolítica e comentarista da rádio CBN. 

 Carlos Pereira é pós-doutor em ciência política pela Universidade de Oxford e doutor e mestre em ciência política pela New School University (NY). É professor titular da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas da Fundação Getúlio Vargas.  Foi professor titular da Escola de Economia de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas (EESP/FGV) e professor do Departamento de Ciência Política da Michigan State University. Teve passagem como professor visitante pelo Departamento de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e pelo Colby College-Maine, (EUA). 

Toscos e lustrosos 

Feitas as devidas apresentações de especialistas que também atuam como militantes político-partidários, caberia, também nesse caso, a clássica pergunta: pode isso, Arnaldo? Resposta? Pode sim. 

No Brasil dos toscos e dos lustrosos prevalece o analfabetismo grosseiro ou o mandraquismo espertíssimo. Tudo pode. Principalmente dar ênfase total durante quase uma hora às barbeiragens do governo Jair Bolsonaro na relação com os congressistas sem ao menos citar de raspão, de raspãozinho, o ninho de cobras criadas e malandros juramentados que a população brasileira ali instalou ao longo dos tempos, incluindo-se as eleições de outubro do ano passado – até porque é difícil ante a fauna disponível encontrar espécimes melhores.

Encasquetado com malabarismos de prevaricadores éticos à direita ou à esquerda, e mesmo dos falsamente de centro, tive a pachorra de assistir ao programa duas vezes em dias diferentes. 

Aproveitei santas pedaladas ergométricas de todos os diais (são 50 minutos de muita intensidade, a ponto de molhar o corpo, a camiseta e o calção como se saíra de uma piscina cheia) para conferir o que desconfiei à primeira exibição e que me levou à segunda: houve apenas cinco menções, mesmo assim laterais, tangenciais e na maioria das quais sem qualquer gravidade crítica, aos escândalos descobertos pela Operação Lava Jato. 

Operação proibida 

Isso mesmo, apenas cinco menções, e, repito, laterais, sobre o desentupimento da maior latrina de agentes públicos e privados pós-Regime Militar. Uma latrina fedorenta que a cada dia exala podridão. Mas a Lava Jato, inacreditavelmente, não foi pronunciada uma vez no debate da GloboNews. Parecia subsistir um pacto de bastidores para exorcizar os federais. 

Vejam a que ponto chegamos. Nada surpreendente, claro. No Grande ABC saltam nas redes sociais defensores dos bandidos políticos. A Lava Jato é uma conspiração norte-americana, embora os insumos que a consagram sejam genuinamente nacionais. 

O camisa 10 fez um gol decisivo de bicicleta e os comentaristas o ignoraram completamente. E passaram o tempo todo a crucificar o atacante trapalhão que, além de não fazer um gol de artilheiro convencional, meteu a mão na bola numa cobrança de escanteio e entregou de bandeja uma penalidade máxima ao adversário, embora o desatino não impedisse a conquista do campeonato.  

Convenhamos que é preciso contar com contorcionismo verbal de malabares para poupar congressistas de qualquer advertência como raiz frondosa das patacoadas do governo Jair Bolsonaro. Ou seja, aquela casa de leis também pode ser vista como reduto baixa tolerância. E que, portanto, tudo o que se passa lá nestes dias de governabilidade mambembe tem o outro lado da moeda, muito mais relevante que a obtusidade e o despreparo da equipe de governo. 

Até porque, convenhamos, tanto uma coisa quanto outra, a obtusidade e o despreparo, só se revelaram porque não se aceitaram as regras de um jogo mais que viciado. Os governos anteriores edificaram a governabilidade no lamaçal de todos os negócios possíveis. 

Praticamente se ouviu coro uníssono dos expositores sobre a honestidade angelical dos congressistas para assegurar o regime de presidência de coalizão com uma infinidade de partidos. Chegou-se ao desplante de enaltecerem megabancadas que serviram de muros de arrimo aos governos federais anteriores. Os cinco principais partidos de então representavam 60% da governabilidade, em oposição à fragmentação de agora. 

Desprezaram em todas as situações os bravos debatedores (debatedores ou parceiros?)  que quem galvanizava aproximação entre os partidos para dar sustentação ao governo de plantão eram os protagonistas flagrados na Operação Lava Jato. 

Houve quem exibisse a cara de pau de circunscrever ao governo petista de 13 temporadas a corrupção envolvendo Executivo e Legislativo, tendo como pano de fundo estatais e empresas privadas da linha de frente de lobbies abjetos. Tenha a santa paciência! Está certo que o PT se especializou na malandragem, tornando-a sistêmica e projeto de governo. Mas só chegou a esse estado da arte porque era e continua a ser o único partido de porte com essa embocadura organizacional e delitiva. Os demais igualmente de porte, como PSDB e MDB, são igualmente vorazes, mas muito menos organizados e sistêmicos. Se o fossem, seriam réplicas perfeitas do PT. 

Ignorância e academicismo 

Sempre afirmo que a ignorância é o pior dos problemas brasileiros, mas uma ressalta que a colocaria em igualdade de condições com outro vetor valeria ser avaliada. São aparentemente tão nocivos ao futuro do País os profissionais detentores de títulos acadêmicos e de posições de comando em antigos governos. A maioria conta com arsenal de informações, mas usa-se apenas no sentido de repassar uma parte da verdade, a parte que lhes interessa. Os pecadilhos são ignorados, como no caso do debate na GloboNews, ou espertamente manipulados. O toma-lá-dá-cá culturalmente indecoroso parece jamais ter existido para o trio de debatedores (debatedores?). 

Um dos participantes do debate buscou um lance insólito, ao pretender convencer os telespectadores de que o governo Michel Temer teria colocado um ponto final no esquema de corrupção no governo federal. Felizmente fizeram-lhe reparos, mesmo que de forma bastante discreta. A omissão seria catastrófica.  

Não é o fato de Temer ter conduzido o País de forma relativamente satisfatória no campo econômico e administrativo, com algumas reformas mencionadas pelos debatedores, que impede leitura mais abrangente do que procurou empreender para driblar a Lava Jato. A corridinha daquele deputado federal com uma mala de dinheiro, fruto de intermediação de negócios escusos do próprio presidente com um dos mandachuvas da J&F, é emblemática do quanto se pretendeu manter organizações criminosas nas entranhas do governo federal. 

Simplismo e rebuscamento

A diferença entre os espertalhões ignorantes e os espertalhões diplomados é que os primeiros, rudimentares na arte da manipulação, entregam logo a rapadura sem que, em contraponto, deixem algum verniz de sapiência. Já os espertalhões bem articulados nos bancos universitários e nas lides políticas, principalmente como assessores de agremiações partidárias, usam de argumentos mais rebuscados, embora mostrem os fundilhos àqueles que não caem na armadilha do palavreado rico de subjetividades e contradições. 

A apresentadora Renata Lo Frete tem muito brilho, entre outras razões porque os bons profissionais do jornalismo impresso fazem travessia para o jornalismo eletrônico com amplas vantagens sobre os demais. A prática do jornalismo impresso por quem leva a sério a profissão e se dedica à labuta no mínimo 14 horas por dia, todos os dias, chova ou faça sol, é um passaporte à televisão. 

A reflexão a que se submete o profissional de jornalismo escrito doutrina-o a sedimentar conhecimentos de valor agregado muito superior ao de outras plataformas. 

Mas Renata Lo Frete, no caso da concentração de patetices do governo Jair Bolsonaro, deixou muito a desejar. Lo Frete parecia impedida de exercer ação determinante ao encaminhamento mais consistente e menos parcial dos debates. Estaria proibida de alertar para o passado recente dos digníssimos deputados e senadores que ainda mandam no Congresso Nacional. A Lava Jato é condicionante implícita e irrevogável ao governo federal na interlocução com gente da pior espécie quando a referência são os interesses republicanos. 

O GloboNews Painel discutiu a história dos artilheiros do futebol mundial sem se preocupar com o maior de todos. Ao se colocar na mesa de discussão a governabilidade federal e se destacar com clareza e correção a série de derrapagens do presidente Jair Bolsonaro, a omissão ao contraponto às raposas felpudas do Congresso Nacional é uma calamidade ética. É a cegueira analítica a serviço da desinformação histórica. É se lambuzar com recordações de Cafuringa, um atacante insinuoso e driblador que pecava nas finalizações, é torcer o nariz para os mais de 1,2 mil gols do Rei do Futebol. 

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